Regulamentação da doula reforça integração da categoria ao SUS

Medida é recebida como avanço por associações da classe

Por Kleber Karpov

A regulamentação da profissão de doula, oficializada na última quarta-feira (08/Abr), estabeleceu um tratamento unificado para as profissionais em todo o país e reforçou a integração da categoria com o Sistema Único de Saúde (SUS). A nova lei, que define as atribuições e os limites da atuação, foi recebida como um avanço pelas associações de trabalhadoras por incorporar conquistas antes restritas a legislações estaduais e municipais.

O texto da lei define as atribuições das doulas de forma ampla, dividindo a atuação nas fases de pré-parto, parto e pós-parto. A norma estabelece uma clara separação de funções, determinando que não compete a essas profissionais a realização de procedimentos médicos, fisioterápicos ou de enfermagem.

A legislação também proíbe expressamente que as doulas prescrevam ou administrem substâncias farmacológicas, como medicamentos. Essa delimitação visa garantir a segurança da assistência e o respeito aos campos de atuação de cada profissional envolvido no processo do parto.

Cuidado humanizado no SUS

Para representantes da categoria, a regulamentação fortalece o papel das doulas no SUS, especialmente no atendimento a mulheres em situação de vulnerabilidade. Gislene Rossini, presidente da Associação das Doulas do Estado de São Paulo (Adosp) e diretora executiva da Federação Nacional de Doulas do Brasil (Fenadoulas), destaca o impacto da profissão.

“A gente atua diretamente com as mulheres e entende que as doulas contribuem muito para esse cuidado mais humanizado e que no SUS assumem um papel de fortalecimento, principalmente, para as mulheres que estão em uma situação de vulnerabilidade, para quem a presença das doulas se torna essencial”, disse Gislene Rossini.

Rossini explica que o principal papel da doula é o acolhimento qualificado, que desenvolve um elo com a gestante, a família e a rede de apoio desde o pré-natal. Segundo ela, “isso modifica a vida daquela mulher e do seu ambiente familiar”, fortalecendo os vínculos e a consciência da mulher sobre seu protagonismo no parto.

A atuação ocorre de forma colaborativa com outros profissionais, sem disputas. A regulamentação, nesse sentido, ajuda a vencer resistências e a esclarecer a função da categoria para a sociedade.

“No geral, a lei traz mais clareza para a população e o reconhecimento de que a profissão existe e o que ela é, e isso deve aumentar, observando os resultados que nosso trabalho traz para a população como um todo”, analisou.

“Ela vem somar com essa equipe, trazendo as mulheres muito mais preparadas para esse momento do parto. É uma presença que qualifica um cuidado que já existe”, completa Rossini.

Recepção positiva

A lei foi bem acolhida institucionalmente, recebendo elogios de conselhos de outras profissões. O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) manifestou apoio à medida, ressaltando a importância da colaboração entre as áreas.

“O Cofen vê essa regulamentação com equilíbrio e maturidade institucional. A presença da doula é positiva especialmente no acolhimento, no suporte emocional e no fortalecimento de uma experiência de parto mais humanizada”, afirmou Renne Cosmo da Costa, coordenador da Câmara Técnica de Saúde da Mulher no Cofen.

Costa enfatiza que a integração deve ocorrer de forma harmoniosa, com papéis bem definidos, alinhada ao compromisso da enfermagem com a humanização do parto e o respeito às escolhas das mulheres.

“Consideramos positiva toda a iniciativa que fortalece o cuidado, preserva a segurança da assistência e respeita os limites da atuação de cada profissional”, completou.

Para o coordenador do Cofen, as atuações não são opostas e devem caminhar juntas. “Quando cada atuação é respeitada dentro do seu campo quem ganha é a mulher, quem ganha é o SUS, quem ganha é a qualidade da assistência e toda a sociedade”.

As três fases do acompanhamento

A atuação da doula começa muito antes do parto. Na fase de pré-natal, a profissional auxilia a família na busca por informações e na preparação para o nascimento. Maria Pimenta, presidente da Associação de Doulas da Bahia (Adoba), detalha essa etapa.

“É atuar no acolhimento, na escuta ativa e no suporte emocional, é o amparo, é a indicação de profissionais que estejam alinhados com o que a família e a mulher desejam. Então, a doula se torna uma grande orientadora durante o processo de gestação”, afirma.

Pimenta acredita que a lei facilitará a superação de resistências ainda presentes em algumas redes de saúde, onde profissionais veem a presença da doula com ressalvas. “Infelizmente muitos profissionais ainda não entendem que somos aliadas”, diz.

Durante o trabalho de parto, o foco é o suporte físico e emocional. A doula utiliza técnicas não farmacológicas para alívio da dor e conforto da parturiente.

“Durante o trabalho de parto, o papel da doula é o de oferecer suporte físico e emocional. Oferecemos técnicas de alívio da dor, que são maneiras não farmacológicas de trazer conforto”, explica Maria Pimenta.

“Também propomos posições e movimentos, mas muitas vezes é o olho no olho, são as palavras de afirmação e também orientamos a família para que durante o processo do trabalho de parto tome decisões e escolhas conscientes de acordo com aquilo que foi planejado”, completa.

O acompanhamento se estende ao pós-parto, com auxílio em técnicas para amamentação, cuidados na recuperação da mãe e adaptação do bebê. “Acompanhar esse processo é uma forma de torná-lo mais leve e tranquilo, em meio a uma série de novidades e adaptações”, defende Pimenta.

Formação técnica e contínua

O perfil acolhedor da profissional é resultado de formação técnica, e não apenas de vocação. A nova legislação estabelece a necessidade de um curso de formação com carga horária mínima de 120 horas, incluindo teoria e prática.

Gislene Rossini reforça a importância da qualificação. “Hoje a gente tem essas orientações e a preocupação de ter doulas ensinando doulas. A federação tem um levantamento dos cursos existentes e de quais estão dentro do necessário, e entendemos que ser doula é um processo que envolve dedicação contínua”, conclui.



Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894 Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Graduado em Jornalismo (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Criador do Comitê Virtual (www.comitevirtual.com.br), plataforma de gestão de campanhas eleitorais. Criador do PubliqueAi (www.publiqueai.com), primeira plataforma brasileira de produção técnica de textos jornalísticos ou jurídicos, com uso de Inteligência Artificial; Criador do Quero Meu Carro de Volta (www.queromeucarrodevolta.com.br), lançado em 2012. Serviço de utilidade pública para vítimas de roubos e furtos de veículos em todo o país; Ex-produtor e apresentador do programa Panorama Político na Rádio Federal;

 

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