Pesquisa inédita investiga o que leva homens a matarem mulheres no DF

Levantamento ouviu mais de 5 mil pessoas e 39 autores de feminicídio; governadora Celina Leão determinou que estudo seja feito a cada dois anos para orientar políticas públicas

Por Kleber Karpov

A governadora do DF, Celina Leão (Progressistas), apresentou nesta sexta-feira (12/Jun), os resultados da pesquisa inédita “Panorama da Violência contra a Mulher no DF”. O estudo, considerado o primeiro do seu porte realizado por um ente federativo no país, buscou entender as motivações que levam homens a cometerem feminicídio. Para isso, foram ouvidas mais de 5 mil pessoas e 39 autores do crime, presos no Complexo da Papuda, com o objetivo de subsidiar a criação de políticas públicas de prevenção, acolhimento e proteção.

Durante a apresentação dos dados, a governadora anunciou a assinatura de um decreto para institucionalizar a pesquisa, que passará a ser realizada a cada dois anos. Ela ressaltou a importância de um levantamento conduzido por um órgão público para orientar as ações de enfrentamento ao problema.

“A maioria das pesquisas sobre violência às nossas mulheres não são feitas por órgãos públicos, são feitas por ONGs e entidades, mas a institucionalização de pesquisas públicas dá um caminho, um rumo do que que está acontecendo e de como enfrentar esse desafio. É inovador porque é a primeira pesquisa pública feita por um ente federativo que se debruçou sobre isso”, destacou Celina Leão.

A governadora também enfatizou a profundidade da abordagem do estudo ao incluir os agressores. Segundo ela, a meta era responder à pergunta: “Por que os homens nos matam?”. A governadora afirmou que compreender a violência é fundamental, mas tomar providências é ainda mais importante para combater o ciclo de agressões.

Metodologia e objetivos da pesquisa

O levantamento foi produzido pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF), em colaboração com a Secretaria da Mulher (SMDF) e a Secretaria de Administração Penitenciária (Seape). De acordo com o presidente do IPEDF, Manoel Clementino, a pesquisa teve como focos medir as diferentes formas de violência no DF e compreender as motivações de homens presos por feminicídio de parceiras íntimas.

“Esse recorte precisa ficar muito claro. Foi uma etapa importante da pesquisa para entender as motivações desses autores. Tivemos autorização judicial para acessar esses presos e contamos com a articulação entre diversos órgãos do governo. Foi algo inédito, tanto em termos de pesquisa quanto para a nossa instituição, que nunca havia feito uma incursão em um ambiente tão delicado como o sistema prisional”, explicou Clementino.

Padrões de comportamento

As entrevistas com os 39 autores de feminicídio revelaram que o crime não possui uma causa única. As trajetórias dos agressores são marcadas por padrões de masculinidade associados à autoridade, controle e dificuldade em lidar com conflitos. O estudo também identificou uma escalada da violência, que inclui controle de celular, ameaças, agressões físicas e uso de armas.

O secretário de Segurança Pública do DF, Alexandre Patury, afirmou que os dados refletem a realidade enfrentada pelas forças de segurança. Ele mencionou que o programa DF 360, que monitora ocorrências, registra alertas de violência doméstica a cada 10 ou 15 minutos em alguns períodos. Para Patury, a pesquisa é corajosa por buscar entender as motivações dos crimes e ajuda a combater a negação sobre a dimensão do problema.

O secretário também apontou a questão patrimonial como um fator relevante, explicando que muitas vezes o homem se apropria do patrimônio da mulher para assumir uma posição de poder, em um contexto de machismo estrutural. “Segurança pública não se resolve apenas com polícia. Passa por educação, cultura, esporte e oportunidades”, concluiu.

Panorama da violência

A pesquisa foi realizada em duas etapas: um questionário aplicado a 5.093 pessoas em todas as regiões administrativas e entrevistas com os detentos. Entre os resultados, 77,6% das mulheres relataram já ter sofrido alguma situação de violência. Desse total, 44,8% se reconhecem como vítimas e, entre estas, 15,4% ainda mantêm relacionamento com o agressor. A dependência financeira foi apontada como o principal fator associado à violência por parceiro íntimo.

O estudo também evidenciou a dificuldade da população em reconhecer certas formas de violência. Quase metade dos entrevistados (49,4%) não considera que negar acesso ao próprio dinheiro seja sempre um ato violento. Além disso, percepções distorcidas sobre o papel da mulher persistem, com concordância a frases como “toda mulher é um pouco histérica” (35,4%) e “mulher é o sexo frágil” (34,9%).

Ações do GDF no combate à violência

Na coletiva, foram apresentadas ações do GDF em defesa das mulheres, iniciadas em 2019 com a criação da Secretaria da Mulher. Dois anos depois, foi inaugurada a Casa da Mulher Brasileira, em Ceilândia. Em 2023, foi instituída a Força-Tarefa contra o Feminicídio e, no ano seguinte, o programa Acolher Eles e Elas e o Comitê de Proteção à Mulher foram criados.

No ano passado, foram instituídos o Aluguel Social e o Passe Livre para vítimas, além da inauguração de quatro centros de referência da mulher brasileira. Para este ano, está prevista a abertura de uma unidade da Casa da Mulher Brasileira no Plano Piloto. A Secretaria da Mulher também intensificou a mobilização social por meio de campanhas de conscientização, como Agosto Lilás, Mulher, Não se Cale e 21 Dias de Ativismo.




Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894 Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal.

 

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