Por Kleber Karpov
Um estudo inédito do Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial (IRIA) identificou a presença de agentes de inteligência artificial, denominados neurobots, nos ecossistemas digitais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do senador Flávio Bolsonaro. O ‘Relatório Nacional sobre a Integridade Cognitiva das Eleições Brasileiras’ alerta que a tecnologia, capaz de simular conversas humanas e criar falsas percepções de consenso, representa um novo risco para a democracia no país.
Utilizando uma metodologia de análise ecossistêmica, a pesquisa estimou que 7,6% das contas com alta probabilidade de comportamento artificial foram detectadas no ambiente digital associado a Flávio Bolsonaro. No ecossistema de Lula, o percentual identificado foi de 5,5%. Estes resultados configuram um dos primeiros levantamentos a medir sistematicamente a incidência desse tipo de atividade em ambientes políticos brasileiros.
O impacto na percepção coletiva
Os pesquisadores do IRIA alertam que, embora os percentuais sejam minoritários, o impacto dos neurobots não reside na quantidade, mas na sua capacidade de influenciar a percepção coletiva. Diferentemente de robôs antigos, programados para repetir mensagens, os neurobots utilizam Inteligência Artificial generativa para adaptar argumentos, responder a objeções e construir relações de confiança de forma semelhante à interação humana.
Segundo o estudo, essas estruturas conseguem alterar os chamados ‘sinais sociais’ — comentários, reações e demonstrações de apoio que orientam, muitas vezes de forma inconsciente, a interpretação que um indivíduo faz do comportamento de um grupo. Na prática, um cidadão pode ser levado a acreditar que uma opinião é majoritária quando, na verdade, parte dessa percepção está sendo gerada artificialmente.
“A maior ameaça dos neurobots não é convencer diretamente um eleitor. É fazê-lo acreditar que toda a sociedade já pensa daquela maneira. Poucas forças influenciam tanto o comportamento humano quanto a percepção de consenso”, afirma Marcelo Senise, presidente do IRIA.
Muito além das fake news
O relatório sustenta que o debate sobre Inteligência Artificial e eleições não pode mais se limitar ao combate de fake news. O desafio atual é a manipulação do ambiente cognitivo, onde agentes artificiais podem reforçar narrativas e simular apoio popular, modificando silenciosamente o contexto onde milhões de brasileiros formam suas convicções.
Diante deste cenário, o estudo introduz o conceito de ‘Integridade Cognitiva’. De acordo com o instituto, proteger as eleições hoje significa preservar a autenticidade do ambiente informacional onde os cidadãos formam suas opiniões de maneira livre. “A urna protege o voto. A Integridade Cognitiva protege o processo pelo qual esse voto é construído.”
Como o estudo foi realizado
A pesquisa analisou 10.294 comentaristas únicos, sendo 5.292 no ecossistema de Flávio Bolsonaro e 5.002 no de Luiz Inácio Lula da Silva. A metodologia de análise ecossistêmica observou padrões coletivos de comportamento digital, como sincronização e recorrência, em vez de focar em perfis isolados. A infraestrutura tecnológica foi operada pelas plataformas Sentinela Eleitoral e Polijetro, especializadas em monitoramento de ecossistemas digitais e processamento de dados públicos em massa. O relatório destaca o Sentinela Eleitoral como o núcleo tecnológico responsável pela coleta e interpretação dos indicadores.
Levantamento não aponta responsáveis
O IRIA ressalta que o estudo não identifica os autores, financiadores ou operadores dos neurobots. Da mesma forma, não atribui responsabilidade aos titulares das páginas analisadas, seus partidos ou apoiadores, e não indica se os agentes atuam a favor ou contra algum político específico. A escolha dos dois ecossistemas foi baseada exclusivamente em critérios científicos, considerando sua relevância pública e alcance, para validar a metodologia em ambientes distintos e comparáveis.
Um novo desafio para a democracia
Para o instituto, a Inteligência Artificial inaugura uma nova etapa na proteção democrática. O foco, que por décadas esteve na segurança das urnas, agora se expande para a preservação da autenticidade do ambiente informacional onde a vontade popular é formada. Como resume o relatório: “A maior ameaça dos neurobots não é fazer um cidadão mudar de opinião. É fazê-lo acreditar que a opinião da sociedade mudou.”
Um alerta para o futuro
Os pesquisadores consideram o relatório o ponto de partida para uma nova agenda de pesquisa sobre democracia e IA no Brasil. A recomendação é que universidades, Justiça Eleitoral, plataformas digitais e a sociedade civil passem a tratar a ‘Integridade Cognitiva’ como um patrimônio democrático a ser protegido.
Como conclui Senise: “Pela primeira vez, a democracia brasileira não enfrenta apenas a disputa entre ideias, partidos ou candidatos. Enfrenta também a possibilidade de que parte dessa disputa esteja sendo travada por inteligências artificiais capazes de influenciar, silenciosamente, a percepção coletiva de milhões de cidadãos. O grande desafio das eleições do século XXI talvez não seja apenas proteger as urnas, mas proteger o ambiente onde cada voto começa a ser construído: a mente humana.”.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Criador do PubliqueAI, plataforma para produção de textos jornalísticos com uso de Inteligência Artificial.









