Por Kleber Karpov
O vento de julho, em Brasília, tem um som particular. Sussurra entre os edifícios, dança pelos eixos e convida ao céu aberto. É um convite irrecusável para as pipas, coloridas e livres, que pontuam o azul de férias. Mas, sob essa aparente leveza, esconde-se uma corrente de perigo, invisível como a eletricidade que pulsa nos fios que cortam a paisagem urbana.
Não é um conto de fadas, mas um boletim de ocorrência que se repete com alarmante frequência. Entre janeiro e maio deste ano, 138 pipas encontraram seu fim na fiação elétrica do Distrito Federal. Um salto de 31% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando foram registrados 105 casos, e um aumento de 25% se comparado a 2024. Números frios, mas que se traduzem em mais de 59 mil brasilienses no escuro. Cidades inteiras, por instantes ou horas, mergulhadas na interrupção de um serviço que se tornou tão vital quanto o ar que respiramos. O fio que se enrosca, o poste que cede, o transformador que falha. Tudo por um pedaço de papel e barbante que, em mãos descuidadas, se torna um agente de caos.
Jorge Frota, gerente de Saúde e Segurança da Neoenergia Brasília, é direto e enfático: “A brincadeira deve ser realizada apenas em áreas abertas e distantes da rede elétrica, como parques, praças e campos de futebol.” A voz da prudência ecoa, mas o apelo da aventura, ou da desatenção, parece mais forte. A tentação de resgatar a pipa perdida, presa entre os cabos, é um impulso fatal. Um choque elétrico não é uma brincadeira. Não há segunda chance para o corpo que toca a energia. E o cerol, a linha chilena, que cortam o vento e a pele, são cúmplices silenciosos de acidentes que vão muito além da interrupção de energia, atingindo a integridade física e, por vezes, a própria vida. A distribuidora é clara: qualquer intervenção na rede é tarefa para equipes autorizadas.
A pipa, símbolo de liberdade e infância, transforma-se, assim, em um vetor de risco. Não é a pipa em si, mas a mão que a guia, o local escolhido, a linha que se usa. A leveza do brinquedo contrasta com a gravidade das consequências. A energia que ilumina nossas casas, que move hospitais e semáforos, é a mesma que, desrespeitada, pode apagar uma vida ou uma cidade inteira.
E então, o que fica? A imagem da pipa no céu, ou a escuridão de uma casa sem luz? A alegria de um voo, ou o lamento de um acidente que poderia ter sido evitado? A brincadeira, em sua essência, é inocente. Mas a responsabilidade, essa sim, é adulta.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Criador do PubliqueAI, plataforma para produção de textos jornalísticos com uso de Inteligência Artificial.










