Socos e xingamentos. Profissionais de saúde vivem rotina de violência

Dez profissionais de saúde foram vítimas de agressões físicas e verbais enquanto cuidavam de pacientes no DF nos últimos 6 meses

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Por Francisco Dutra

Pelo menos 10 profissionais de saúde foram vítimas de agressões físicas e verbais enquanto cuidavam de pacientes no Distrito Federal nos últimos seis meses. Diante da onda de violência, médicos, enfermeiros e técnicos trabalham com medo.

O levantamento foi produzido pelo Sindicato dos Auxiliares e Técnicos em Enfermagem do DF (Sindate-DF). Capítulos de violência foram registrados no Paranoá, Estrutural, Santa Maria, Vicente Pires, Samambaia, Asa Norte, Taguatinga, Ceilândia e Recanto das Emas.

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Na segunda-feira (3/1), uma enfermeira levou um murro na boca e acabou arranhada pela acompanhante de uma paciente na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Recanto das Emas. Pedindo o anonimato, ela conversou com o Metrópoles. “Estou me sentindo muito vulnerável“, desabafou.

Veja a enfermeira agredida:

O caso foi registrado na 27ª Delegacia de Polícia (Recanto das Emas). A acompanhante cobrava rapidez no atendimento, mas a UPA padecia com a falta de médicos. A mulher desferiu um murro contra o rosto da enfermeira. Um segurança interviu, mas uma confusão se instalou na UPA.

“Eu estou tentando assimilar tudo isso que aconteceu. Eu sou negra. Já passei por situações de racismo, que, infelizmente, acontecem. A agressão verbal, em geral, a gente vê constantemente. Mas essa situação de agressão física nunca tinha passado. É um trauma grande”, lamentou.

A enfermeira está com lesões na boca. A profissional recebeu um atestado de 5 dias para se recuperar. A acusada negou as agressões na delegacia. Segundo boletim de ocorrência, a mulher chegou xingando a gerente da UPA, chamando-a de “jararaca”, “vadia”, “pilantra” e “mentirosa”.

Em setembro de 2021, um homem de 70 anos socou o rosto de uma técnica de enfermagem na Unidade Básica de Saúde (UBS) 1 de Vicente Pires. Segundo a profissional de saúde, o agressor ainda chamou-a de “filha da puta“. Ele cobrava prioridade no atendimento.

Xingamentos

Ainda em setembro de 2021, na Unidade Básica de Saúde (UBS) 1 do Paranoá, um paciente foi preso depois de chamar uma servidora da Secretaria de Saúde de “vagabunda”, mandá-la “tomar no cu”, mostrar o dedo do meio e afirmar que ela era “petista”. A profissional de saúde havia pedido para o agressor usar máscara

Novos episódios de violência foram registrados em outros pontos da rede pública. Em outubro, uma servidora do Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) de Samambaia foi agredida física e verbalmente por uma paciente e pelo marido dela.

Segundo o diretor do Sindate, Newton Batista, por falta de resposta efetiva do governo, os episódios de violência viraram rotina na rede pública. “Isso é o oposto da valorização dos servidores e profissionais de enfermagem. A categoria trabalha com pavor”, alertou.

Êxodo

Conforme o relato de Batista, diante da escalada de agressões, profissionais estão começando a abandonar a profissão. Pelas redes sociais, o deputado distrital Jorge Vianna (Podemos) cobrou o fim das agressões.

“E temos o problema da subnotificação. Muitos gerentes de unidades não registram ocorrência ou dizem para os servidores não procurarem a polícia após as agressões. Eles têm receio dos casos arranharem a imagem da rede. Mas não é o caso. As pessoas estão sendo agredidas. Vão esperar algo pior acontecer?”, ponderou.

Por meio da assessoria de imprensa, a presidente da Comissão de Educação, Saúde e Cultura (CESC) da Câmara Legislativa, deputada Arlete Sampaio (PT), também comentou a onda de violência na rede pública. A parlamentar pretende cobrar providências.

“Em razão das mazelas e das falhas do sistema de Saúde, as pessoas, por desespero ou desinformação, acabam culpando os trabalhadores pelos inúmeros problemas encontrados. Mas, independentemente disso, é obrigação da Secretaria de Saúde do DF garantir a segurança de seus servidores. Vamos cobrar isso do GDF por meio da Câmara Legislativa”, assinalou, em nota enviada ao Metrópoles.

Outro lado

A reportagem entrou contato com a Secretaria de Saúde sobre a questão. A pasta lamentou os episódios.

Leia a nota completa da pasta:

“A Secretaria de Saúde informa que não foi registrada nenhuma agressão a servidor por meio da Ouvidoria da Pasta em 2021. Esses casos costumam ser registrados em boletins de ocorrência, diretamente com as autoridades policiais. Desde os lamentáveis episódios ocorridos no último ano, a secretaria tem adotado uma série de medidas para coibir essas práticas nas unidades de saúde do Distrito Federal, tais como aumento da segurança, conversa dos gestores com os usuários e orientação sobre o atendimento adequado a cada caso. A Pasta lamenta que, em seus locais de trabalho, servidores sejam agredidos física ou verbalmente, e ressalta que desacato a servidor público no desempenho de suas funções pode configurar crime, previsto no código penal”

O Metrópoles também entrou em contato com Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (Iges-DF), responsável pelas UPAs e pelo Hospital de Base e o Hospital de Santa Maria. A entidade também se manifestou por meio de nota. Leia abaixo:

“O Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal lamenta muito a agressão verbal e física sofrida pela enfermeira da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Recanto das Emas na manhã desta segunda-feira (3/1) e está prestando todo apoio à colaboradora. A autora da agressão foi a filha de uma paciente que chegou às 10h à unidade e já estava agitada pedindo para que a mãe fosse atendida. A paciente recebeu classificação laranja e foi inicialmente acolhida por uma equipe do Projeto Humanizar e pela própria gerente da UPA. Às 11h53 a paciente foi novamente avaliada pela enfermeira, que verificou que os sinais vitais estavam normais. Nesse momento, mesmo sabendo que o atendimento médico estava próximo, a filha da paciente usou palavras de baixo calão e agrediu a enfermeira, gerando lesões no nariz e na boca da profissional. A enfermeira precisou receber atendimento médico, realizado na própria UPA. A ação rápida da equipe de vigilância evitou a continuidade da agressão. No dia do ocorrido, havia grande demanda de pacientes decorrente do aumento das doenças respiratórias, o amplamente que vem sendo noticiada pela mídia, sendo que a UPA atendeu 180 pacientes, inclusive recebeu pacientes transportados por duas ambulâncias do SAMU. No momento em que a equipe chamou a paciente para ser atendida, a filha recusou o atendimento. A Polícia Militar do DF foi acionada e os envolvidos foram encaminhados à delegacia para registrar Boletim de Ocorrência“.

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FONTEMetropoles
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