Artigo: Ex-governador Rollemberg assume postura do ‘sujo falando do mal lavado’

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Por Kleber Karpov

Na quinta-feira (30), o ex-governador do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB), se utilizou do microblog Twitter para disparar a metralhadora munida de festins contra o sucessor, Ibaneis Rocha (MDB). O ex-ocupante do Palácio do Buriti se valeu da escalada dos casos de registros e mortes por dengue no DF para atacar Ibaneis.

Na rede social, o psdebista publicou duas dezenas de postagens, com uma média de curtidas, na mesma proporção. Rollemberg apontou a redução dos casos de dengue no DF, durante os anos em que ‘geriu’ o DF e, consequentemente, a Saúde. “O governo Ibaneis aumentou o número de casos em 772%. São quase nove vezes mais dengue e 21 vezes mais mortes. Ano passado houve um único óbito, de um paciente idoso com comorbidades. […] Já são 18.649 casos prováveis este ano, contra 1.984 no mesmo período de 2018. Nosso governo em 2017 conseguiu reduzir 89,44% os casos em relação ao mesmo período do ano anterior. Em 2018, reduziu outros 44,41% em relação a 2017. (+)”.

Embora com razões, ‘pontuais’, em algumas colocações, Rollemberg, ignorou o princípio de causa e efeito e, assumiu a máxima do velho provérbio popular: ‘macaco senta no próprio rabo, para falar dos rabos dos outros’. Isso porque a saúde do DF, sob o governo do socialista, mergulhou de vez no caos.

Porém

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Na relação causa e efeito, no que tange os casos de dengue no DF, vale lembrar, por exemplo, que a recente interdição da Diretoria de Vigilância Ambiental do Distrito Federal (DIVAL) em Taguatinga, por parte do Ministério Público do Trabalho (MPT), foi decorrente de irregularidades detectadas, por exemplo, em auditoria da Controladoria Geral da União (CGU) entre janeiro de 2015 e fevereiro do ano seguinte. Ocasião em que Rollemberg era o governador.

A DIVAL, que desde a gestão Rollemberg funciona, sob direção de servidores cedidos do Ministério da Saúde, desde 2014, segundo apontado pelo MPT, ficou sem condições mínimas de trabalho, sem Equipamentos de Proteção Individual (EPI), com manipulação inadequada de veneno, inclusive vencido. Informações essas confirmadas por servidor daquela unidade ao Política Distrital (PD), sob sigilo de identidade.

Ou ainda que nesse mesmo episódio da interdição, amplamente divulgado pela mídia ao longo da última semana, deixa claro que a gestão Rollemberg recebeu R$ 1,2 bilhão do Ministério da Saúde e, pelo descaso com a Vigilância Ambiental, teve que devolver, corrigido, mais de R$ 1,4 bilhão ao governo federal.

Outro fator relevante, em relação ao combate do mosquito Aedes Aegypti, também é relacionado a falta de pessoal. Durante a gestão de Rollemberg, a realização de concurso público para nomeação de 2 mil, Agentes Comunitários de Saúde (ACS), nunca aconteceu, conforme aponta, por exemplo, o Sindicato dos Agentes de Vigilância Ambiental em Saúde e dos Agentes Comunitários de Saúde do DF (SINDVACS-DF), Aldemir Domício da Silva. Segundo Silva, a SES-DF atualmente opera com cerca de 400 Agentes de Vigilância Ambienta (AVAs) e 1.000 ACSs.

Isso com um agravante, a criação do Estratégia Saúde da Família (ESF), e a transferência de médicos especialistas que atendia nas urgências e emergências, para atender na Atenção Básica de Saúde (ABS). Além de desfalcar, a quantidade de ACS em atendimento domiciliar, também colocou tais profissionais em desvio de função.

Ao menos foi o que denunciou o presidente do SINDVACS-DF,  durante audiência pública realizada pelo deputado distrital, Jorge Vianna (Podemos)(21/Mar), que tratou das carreiras dos servidores da Saúde. Na ocasião, Silva foi taxativo ao informar que os profissionais, em vez de realizar visitas residenciais, estavam direcionados a atender pacientes nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), com Classificação de Risco Verde.

Programa Saúde da Família esse que, embora a gestão de Rollemberg tenha divulgado a ampliação na cobertura, de 13% para 69,8%, o próprio Ministério da Saúde, por sua vez aponta que a cobertura total do ESF no DF é de 49%.

Caos na Saúde

Ao tentar se vangloriar com a incidência de um caso de morte em 2018, contra 21, da gestão Ibaneis, algo realmente alarmante, Rollemberg parece se esquecer que durante o período em que esteve a frente do Executivo, o caos era gritante.

Somente com as mortes evitáveis, o DF viu aumentar, entre os meses de outubro de 2015 e setembro de 2016, em 15,24%,  nas unidades de saúde da capital do país. De acordo com dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH) do Sistema Único de Saúde (SUS), somente nesse período, o salto foi de 5.734 para 6.608 óbitos, um total de 874 mortes. Informações essas apresentadas pelo Sindicato dos Médicos do DF (SINDMÉDICO-DF).

Rollemberg, embora se recorde da ampliação dos leitos do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB), parece esquecer, que entre 2016 e o fim do mandato, aproximadamente 20 mil crianças, ficaram retidas na fila do Sistema de Regulação (SISREG), da Secretaria de Estado de Saúde do DF (SES-DF), para atendimento, somente naquela unidade.

Número esse que, de acordo com a SES-DF, à época, representava cerca de 50%, do montante de crianças sem atendimentos em todas as unidades de saúde do DF. Sem contar casos como o fechamento do Pronto Atendimento Infantil (PAI) do Hospital Regional do Gama (HRG) e da própria Pediatria daquele hospital, transferida para o Hospital Regional de Santa Maria (HRSM).

Causas e efeitos

Tudo isso, sem contar que a gestão Rollemberg, que ao mesmo tempo em que alardeou a ‘herança maldita’ de R$ 4 bilhões, negou ter deixado o governo sem problemas financeiros. Isso quando a atual gestão apontou um rombo superior, de quase R$ 8 bilhões. Desses, somente na saúde, uma bagatela de aproximadamente de R$ 1,2 bilhão.

Erros e acertos

Rollemberg pode até estar correto, ao abordar pontualmente a escalada perigosa dos casos de dengue ao analisar a conjuntura política do DF, transcorrida ao longo dos cinco meses, conclusos, da gestão de Ibaneis. E até mesmo, cobrar do novo governador, uma boa gestão da Saúde.

Porém, em uma analise do cenário como um todo, a menos que esteja disposto a permanecer sentado sobre o ‘próprio rabo’, o ex-governador, e talvez postulante a retornar ao Governo do do Distrito Federal, muito provavelmente perdeu, ainda durante a própria gestão, a autoridade para se auto referenciar, bom gestor, no que tange a Saúde do Distrito Federal.