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01 fev 2026 23:33

Vi e assisti: Do assédio, desvalorização, perseguição, furto ao coronavírus

Nós estamos aqui por vocês! ❤ Por Favor! Fiquem em casa por nós!  

Por Kleber Karpov

Enquanto jornalista que cobre saúde pública, em especial do Distrito Federal, este articulista convive, desde 1999, com os diversos dilemas que abrangem ou atingem a sofrida classe de profissionais de saúde. Acompanho o sofrimento, a dor, a resiliência, a dedicação, os ‘arranca rabos’ e, resguardadas as devidas exceções, vi e assisti, de tudo nesse universo. Usarei da liberdade poética para relatar, em uma longa e redundante dissertação, sobre algumas pérolas, para um recado importante, na esperança que uma de minhas linhas vá de encontro a percepção sensorial de você leitor, de modo que possas ajudar a atender um pedido especial.

Vi e assisti, profissional de saúde, ser agredido, verbal e até fisicamente.

Vi e assisti, profissional de saúde, tirar dinheiro do bolso, para comprar medicamento para criança internada em pronto-socorro infantil.

Vi e assisti, profissional de saúde, sentar em cadeira quebrada, manipular ex-paciente em óbito, no necrotério, com serra de cortar barra de ferro, por falta de instrumental.

Vi e assisti, profissional de saúde ser servido com comida com lavas ou estragada.

Vi e assisti, profissional de saúde consumido por superlotações e excessos de pacientes a cuidar em pronto-socorros, UTIs, recepções, triagens ou mesmo em corredores.

Vi e assiti, profissional de saúde implorar para que lhe fosse dadas condições para evitar a morte de bebês recém nascidos, abortos.

Vi e assisti profissional de saúde chorar, por não conseguir medicamento, leito de UTI, ou a manutenção de um equipamento, e saber que sem tais recursos seus pacientes morreriam.

Vi e assisti, pacientes morrerem, pelos mesmos motivos, confirmando a angústia do profissional de saúde.

Vi e assisti, autoridade dizer, incredula, que mandou prender profissional de saúde.

Vi e assisti, profissional de saúde receber voz de prisão, pela impossibilidade de atender, decorrente de omissão do Estado.

Vi e assisti, profissional de saúde a beira do precipício, sufocado em dívidas, muitas vezes, decorrente de atrasos promovidos pelo próprio Estado.

Vi e assisti, por diversos modus operandis, profissionais de saúde serem lesados por quem os devia proteger.

Vi e assisti, enriquecimentos ilícitos e esquemas corruptos de toda natureza, provenientes de recursos desses profissionais de saúde.

Vi e assisti profissionais de saúde, reitero, resguardadas as devidas exceções, serem perseguidas, assediadas, responderem por esses assédios, sem direito a voz.

Vi e assisti, e até sinto na pele, o peso do corporativismo, por ousar dar voz a esses profissionais de saúde.

Vi e assisti, profissional de saúde, se auto-exterminar, por não conseguir lidar com a pressão de um ambiente de trabalho caótico, em que muitas vezes, esse trabalhador se obriga a escolher quem vive ou morre, por falta de estrutura para trabalhar.

E não menos grave que isso, vi e assisti com repugnância, de o Estado, jogar profissional de saúde com a plateia, a pseudo-responsabilidade desses profissionais de saúde, e ter que tentar resistir ao peso dos golpes da opinião pública.

E, de repente, vejo e assisto, algo invisível, chegar, atropelando o poderio das grandes potencias mundiais. Devastar todas as nações, derrubar bolsas, quebrar economias e estabilidades políticas. Não pelo ‘poder de fogo’, mas pela forma silenciosa e rasteira de tirar o ar e a capacidade de reação das pessoas.

De repente, vejo e assisto, um simples vírus, quase impotente com seus 3,5% de letalidade, invadir de oriente a ocidente, e retirar as duas principais condições que melhor resumem o ser humano, a liberdade e a vida.

De repente, vejo e assisto, uma peculiaridade, chamada coronavírus (Covid-19), que lenta mas vorazmente impõe uma letalidade ‘democrática’, por não fazer distinção de cor, gênero, raça, credo e, poder aquisitivo, saltar aos olhos desafiadores desses profissionais de saúde.

De repente vejo e assisto, esse tal Covid-19, ceifar a vida, do presidente de um grande banco em outro continente, tal qual o fez, com uma senhora, que sequer teve a oportunidade de ser testada, diagnosticada e tratada a tempo contra a ação do vírus, para que tivesse alguma chance.

De repente vejo e assisto, em nosso país, que esses profissionais de saúde, alguns em redutos do Estado, até há pouco tempo, considerados incautos, zero a esquerdas, causas dos problemas do inchaço da máquina pública, que não serviam para nada, se tornarem peças fundamentais para se contrapor a ameaça, tentar barrar e reverter o Covid-19.

Então vejo e assisto, o empenho, o desespero e a exaustão provocada pelo cansaço desses profissionais de saúde. Que ao se depararem com o Covid-19, não titubearam, não fizeram corpo mole e tampouco fugiram e foram para o front, para tentar salvar vidas. Mesmo, sabendo que o sistema de saúde, seja ele público ou privado, dificilmente, oferecerá condições para atender a todos.

Então vejo e assisto, com pesar, 20% desses profissionais de saúde, também se tornarem pacientes e sucumbirem ao Covid-19, na tentativa de tirar pacientes de leitos e os mandarem para casa, sãos e salvos.

E, finalmente o motivo desse desabafo, vejo e assisto, esses profissionais de saúde, lutando contra a resistência de alguns, as vezes estimuladas por ações inconsequentes e bossais de outros. Mas unidos para pedir colaboração e paciência, à humanidade, no que se refere a necessidade de imposição de isolamento, para que eles possam atuar na contenção da propagação do Covid-19 e tentar salvar vidas realmente em risco.

Há 21 anos, vejo e assisto, os profissionais de saúde, guerreiros, muitas vezes incompreendidos, por estarem de cara fechada, e não poder revelar que pode ser fruto da exaustão a que são submetidos, na rotineira arte de salvar vidas. Em que, geralmente são obrigados a atender em um ambiente em  que não têm nada, e precisam oferecer o tudo, sobretudo a cura e a vida.

De repente, vi, assisti e senti, o carinhoso pedido dos profissionais da UTI Pediátrica do Hospital Materno Infantil de Brasília, e também do Hospital das Forças Armadas (HFA), ambos situados no Distrito Federal, que de forma singela, e sem rancor apenas lembram:

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