Artigo: O que vale mais: votos ou vidas?

Por Gutemberg Fialho

A notícia se espalhou por todos os jornais do Distrito Federal na semana passada: “Paciente ameaça funcionários de centro de saúde com facão”. O que muitos ainda não sabem, no entanto, é que o ato de violência no Centro de Saúde nº 1  do Recanto das Emas possui, por trás, a constante tentativa de desmonte da saúde pública do Distrito Federal. A mais recente delas, além do desatinado Instituto Hospital de Base, é a imposição de mudanças na Atenção Primária. Alterações essas que em nada contribuem para a ampliação do atendimento à população. Ao contrário. Há, sim, descaso, desperdício de capacidade de trabalho, adoecimento de servidores e desassistência.

Médicos de especialidades como pediatria, clínica médica, ginecologia e obstetrícia estão entre os que mais fazem falta no dia a dia das unidades de saúde do Distrito Federal. Apesar da contradição e da evidente desvinculação do pensamento do gestor em relação ao interesse público, vários deles estão sendo transferidos da ponta do atendimento em Unidades Básicas de Saúde, os antigos centros de saúde, para serviços burocráticos em função das mudanças na Atenção Primária. E o resultado dessa estratégia sem rumo são cenas como a que aconteceu no Centro de Saúde nº 1 do Recanto das Emas. Sim. Porque nem todas chegam ao conhecimento da mídia.

E sobre o ato de violência registrado no Centro de Saúde há, ainda, outro agravante: a diminuição do número de vigilantes nos locais. Informação do próprio diretor de comunicação e imprensa do Sindicato dos Vigilantes (Sindesv-DF), Gilmar Rodrigues. Segundo ele,  além do atraso constante dos salários da categoria, ocorre, hoje, demissão e remanejamentos de vigilantes: mais uma ação sem rumo do governo Rollemberg. Nas seis Unidades de Pronto-Atendimento do DF (UPAs), o GDF reduziu 50% dos seguranças. Já nos Centros de Saúde, em vez de dois por plantão (como sempre funcionou), agora, há apenas um.

Dentro dessas mudanças da Atenção Primária é importante ressaltar também que o GDF não respeita, sequer, as diretrizes do Ministério da Saúde. A atual Estratégia Saúde da Família, que só tem promovido mais desassistência e rendido alguns discursos políticos para Rollemberg, está em desacordo até mesmo com a mais recente versão da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), tanto na constituição das Equipes de Atenção Básica (EAB) quanto na falta de Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF): o que é mais grave na atual situação de contratação de profissionais sem especialização ou experiência na atividade médica para atuar na linha de frente.

Entretanto, mais grave do que essas ações do governador do DF e sua equipe despreparada, é constatar que, além da notória falta de talento para governar, eles jogam com a população. Ao alterar de forma desastrosa a base da saúde pública do DF em prol única e exclusivamente do seu discurso político para as próximas eleições, Rollemberg nos diz em alto e bom som: “suas vidas não me importam”.

Gutemberg Fialho é médico e presidente do Sindicato dos Médicos do DF

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