‘Velejando pela cidadania’: projeto ensina crianças da Estrutural a navegar

Reportagem da série Rede de solidariedade destaca a ação de Paulo Vanzetto, criador do projeto social Velejando pela Cidadania

Por Deborah Fortuna

Arribar, cambar e caçar vela são termos técnicos que não assustam as crianças do projeto social Velejando pela Cidadania. As palavras estranhas, agora, fazem parte do dicionário náutico dos meninos, que são capazes de explicar muito bem cada uma delas. O projeto ocorre nas segundas-feiras, e, em vez do mar ou lago, o barco veleiro resiste e navega nas águas da piscina do Centro Olímpico, localizado na Estrutural. Ali, não há ondas ou perigo, mas o objetivo é que, em algum tempo, todos os pequenos possam arriscar os aprendizados no Lago Paranoá, e levar esses ensinamentos para toda a vida.

De um lado para o outro, o barco vira nas bordas da piscina. Os meninos recebem instruções do professor e obedecem, mexendo a “vela”, ora contra o vento, ora a favor. Os comandos são de Paulo Vanzetto, 56 anos, que criou o projeto. A ideia surgiu da vontade de democratizar o esporte que tanto ama.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
João Matheus Alves (E) Erika Isabela e Erik Henrique (ao fundo): novos horizontes – Foto: Ana Rayssa CB/D.A Press
Apesar de buscar apoio governamental desde 2010, o projeto só saiu do papel em 2016. Em 11 de abril deste ano, as aulas começaram. Ao todo, são 15 crianças de 7 a 14 anos, que têm aula na Estrutural. E outras quatro no mesmo projeto, no Riacho Fundo I. O problema dessa última região administrativa é que ainda há a carência de professores aptos para ajudá-lo a ensinar.
Mas o sonho de mudança existe. Com muita força de vontade, Vanzetto acredita que, com o crescimento do programa, em algum tempo, todos os centros olímpicos possam servir como estrutura para as aulas ocorrerem. Para os próximos meses, está previsto que outras regiões também recebam as aulas, como é o caso de Samambaia, de Ceilândia e do Recanto das Emas. “Um projeto social é feito para alcançar um objetivo. Eu vi um problema na região, que é a falta de lazer. E pensei que tenho que levar lazer para eles. Tenho que levar esse mínimo”, disse.
Em pouco tempo de vida, o projeto conseguiu visibilidade. Tanto o barco, quanto os coletes e bonés são de empresas que apoiam e acreditam no futuro do programa. E não são só as instituições que têm fé de que ainda haverá muita história boa para contar. O aluno João Matheus Alves de Oliveira, 13 anos, gostou tanto das aulas que sonha alto. “Eu quero competir depois. Onde falarem, eu vou. Quem sabe nas Olimpíadas”, garantiu, com um sorriso tímido. Ele frequenta as aulas toda segunda-feira de manhã, horas antes de ir para o colégio. Decidiu experimentar por gostar muito de nadar e de atividades ao ar livre, mas, com isso, descobriu talentos. “Sei fazer jaibe, sei cambar. Quando se sabe fazer, não é mais difícil”, contou.

Profissionais

O aluno Erik Henrique Alves, 9 anos, também tem muita expectativa. Ele descobriu o projeto porque o tio contou. Achou que seria uma boa atividade, convidou a irmã de 6 anos, fez a inscrição, e os dois conseguiram a vaga. “Agora, eu quero ir velejar no Lago Paranoá”, garantiu.
E a ajuda pode ser muito mais do que apenas ensinar uma atividade diferente e lúdica, que não existe perto de onde eles moram. Segundo Vanzetto, Brasília é o terceiro maior parque náutico do país, e, por causa disso, a cidade tem uma necessidade grande de mão de obra profissional. Com isso, o projeto também se torna profissionalizante. “A oportunidade de emprego (dentro do ramo) é muito grande. Quando chegarem aos 14 anos, eles podem virar jovens aprendizes nos clubes, e ganharem uma remuneração. Aos 17, 18 anos, podem assinar uma carteira e ter um emprego digno e manter a família com essa renda”, afirmou.
Para prepará-los para o mundo, Vanzetto diz que as aulas são mais do que apenas ensinamentos sobre como manusear uma vela, ou virar um barco. A palavra “cidadania”, estampada no projeto, mostra que eles aprendem sobre a vida e a educação cívica. “É ensinar a colocar as coisas no lixo, a dizer que coisas encontradas no chão devem ser devolvidas, é diminuir a agressividade e incentivar a cordialidade entre eles. Criei o projeto a fim de trazer dignidade”, concluiu.

Dicionário náutico

Cambar: trocar de bordo velejando em sentido contrário ao vento
Jaibe: trocar de bordo no mesmo sentido do vento
Través: andar de lado ao vento
Andar de popa: navegar de costas para o vento
Caçar vela: buscar o cabo até a vela ficar “cheia”
Arribar: ir na direção do vento
Orçar: ir contra o vento

Fonte: Correio Braziliense

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