Mercado reage com euforia com anúncio de abertura de processo de impeachment de Dilma

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Governo acompanha com lupa o comportamento da bolsa e do dólar diante da decisão do presidente da Câmara de abrir processo para afastar a petista. Em Nova York, assim que a notícia sobre o impedimento chegou, as ações da Petrobras e da Eletrobras subiram

Por Antonio Temóteo

É grande a expectativa do governo em relação ao comportamento do mercado financeiro hoje, que deve ser fortemente influenciado pela decisão do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de iniciar o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. É notório o descontentamento dos investidores em relação à gestão da petista, a quem acusam de ter levado o país para a mais grave recessão em pelo menos 35 anos.

Os primeiros sinais do que pode ser a quinta-feira vieram ontem à noite de Nova York. Assim que a notícia sobre o impeachment de Dilma correu o mundo, as ações de empresas brasileiras negociadas na principal bolsa de valores dos Estados Unidos apontaram forte alta, sobretudo as de estatais, que sofreram muito com as políticas intervencionistas defendidas pela presidente. As ações ordinárias da Petrobras subiram 4,43% e as da Eletrobras apontaram ganho de 7,41%.

Os analistas não descartam que, num primeiro momento, os investidores festejem a possibilidade de impedimento de Dilma. Mas será um movimento passageiro, porque o processo tende a se arrastar, paralisando ainda mais a economia, que afunda na recessão. A tendência será de forte volatilidade nos preços dos ativos. Ontem, a Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) encerrou o dia com baixa de 0,29%, aos 44.914 pontos. O dólar também recuou, cotado a R$ 3,836 (-0,5%).

Para o economista-chefe da TOV Corretora, Pedro Paulo Silveira, o mercado receberá o início do processo de impeachment de Dilma com euforia, e os pregões da BM&FBovespa podem subir por três ou quatro dias seguidos. Entretanto, ressaltou, após esse período os ganhos devem se transformar em perdas, porque nada será definido rapidamente. “Estamos em um ambiente recessivo, de forte queda dos investimentos, com retração do consumo das famílias. Além disso, há toda a expectativa em torno da Operação Lava-Jato”, frisou.

Segundo Ivo Chermont, economista-chefe da Itaim Asset, os analistas estão divididos quanto aos rumos do impeachment. No entender dele, a dificuldade de projetar as chances reais de Dilma ser cassada está no fato de o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, perder o mandato no meio do processo. “O momento político já era ruim. Agora, é extremamente incerto. Esse fato atropelou, por exemplo, a divulgação da ata do Comitê de Política Monetária (Copom), que ocorre nesta quinta-feira. Se a presidente cair, o que a atual diretoria do Banco Central prega deixará de ter sentido”, afirmou.

Entre os analistas, a visão é de que, com o impedimento de Dilma, poderá haver um governo de coalizão, liderado pelo atual vice-presidente da República, Michel Temer. O partido dele, inclusive, lançou recentemente um documento, intitulado Uma ponte para o futuro, uma forma de se colocar como contraponto à desastrosa política econômica do PT. Mas poucos acreditam na possibilidade de Temer sobreviver à queda da chefe do Executivo. “Vivemos uma crise política sem precedentes. Não há um líder capaz de promover as reformas necessárias para o país retomar as bases do crescimento e, pior, a maior parte da República está sob suspeição por causa da corrupção na Petrobras”, disse um nos mais renomados gestores de recursos do país.

Estresse
O Banco Central se preparou para monitorar o mercado, que já vem estressado desde a prisão de André Esteves, dono do BTG Pactual. O banco vem sendo arrastado pela desconfiança, com saques maciços da clientela. Nem mesmo a anunciada saída de Esteves do controle da instituição foi capaz de reverter as retiradas. O BC teme que, com o agravamento da crise política, outros bancos possam entrar na linha de tiro.

“A presidente Dilma partiu para o tudo ou nada. Ela acredita que Cunha não terá força para levar o processo de impeachment adiante. Com isso, enterrará qualquer possibilidade de não terminar o mandato”, admitiu um integrante do Palácio do Planalto. Na visão dos especialistas, trata-se de uma jogada arriscada, uma vez que a presidente não conta com apoio popular. O descontentamento das ruas em relação ao governo é enorme. “Teremos dias de muita tensão pela frente. Acredito que nem o recesso de fim de ano do Congresso será suficiente para reduzir o nervosismo”, assinalou um dirigente de um dos maiores bancos privados do país.

Fonte: Correio Braziliense