Print Friendly, PDF & Email

SÉRIE DE REPORTAGENS: QUEM AMA QUER SAÚDE NO GAMA

Com transferência população fica definitivamente desassistida de atendimento infantil. Tentativa de homicídio em massa?

Por Kleber Karpov

Foto: Taciano

Na quinta-feira (3/Mai), o dia foi de tristeza, mas sobretudo de revolta à comunidade do Gama, em especial aos servidores do Hospital Regional do Gama (HRG). A Secretaria de Estado de Saúde do DF (SES-DF) terminou de assinar atestado de incapacidade de gestão com a transferência da Pediatria do HRG para o Hospital Regional de Santa Maria (HRSM).

Um vídeo gravado por um servidor da unidade, sem identificação, publicado nas redes sociais mostra a ala pediátrica, completamente esvaziada e caminhão abastecido com móveis para serem transferidos para o HRSM.

Publicidade

No vídeo, que teve o áudio removido para preservar a identidade  do servidor, o profissional de Saúde critica a falta de gestão por parte do governo de Rodrigo Rollemberg (PSB). “Covardia muito grande desse governo. O governador do Distrito Federal, não tem um plano de gestão para a Saúde. Aqui onde era o local das internações, vazio, totalmente vazio. O pessoal nesse momento está fazendo as mudanças para levar para Santa Maria. Uma vergonha, a pediatria do Gama fechada. Vocês podem ver o pessoal está levando tudo para Santa Maria, infelizmente.”, disse.

Controle Social?

Questionada sobre o assunto, a SES-DF ‘tira o corpo fora’ ao atribuir as mudanças a um “acordo firmado com os Conselhos Regionais de Saúde das duas regiões administrativas”. A SES-DF trata a questão do fim da pediatria no HRG, apenas sob a ótica da distribuição regional das sete superintendências de Saúde do DF, ao observar que “o atendimento em pediatria na Região Sul passará a ser realizado  no Hospital Regional de Santa Maria.”.

Porém, no mesmo parecer a SES-DF também justifica a falta de pessoal “neste momento, a reabertura dos serviços de pediatria na Região de Saúde Sul, que engloba Gama e Santa Maria, só pode ocorrer em uma das duas regiões administrativas, em razão da indisponibilidade, temporária, de recursos humanos.”.

Ainda segundo a pasta, “o espaço anteriormente ocupado pelo pronto atendimento infantil, no Hospital Regional do Gama, será readequado para alojar um centro de parto normal. A iniciativa atende proposta homologada na Conferência Distrital da Mulher, realizada no ano passado.”

Contradição

Porém, a versão da SES-DF é contestada por uma médica, sem identidade revelada, que sobre o real acordo firmado entre os conselheiros regionais de Saúde. “Já discutimos em Plenária e o que acatamos (está em ata) foi a proposta de reforçar o HRSM em referência de parto de alto risco, com funcionamento de um PAI (Pronto Atendimento Infantil), com o HRG recebendo partos de baixo risco e um CPN [Centro de Parto Normal].”, afirmou.

Conselheiros criticam

Em contato com Política Distrital (PD), conselheiros criticaram a mudança e se mobilizam para tentar reverter tais mudanças. Sob sigilo de identidade, um dos membros do Conselho Regional de Saúde do Gama (CRSG) se pronunciou sobre o assunto.

“Eu e mais alguns conselheiros estamos tentando reverter esta situação vamos entramos com uma ação popular para reabriremos o pronto-socorro infantil do gama e também já pedi uma Assembléia extraordinária mas até agora não tive resposta do presidente do conselho se possível para esta semana.”, disse.

O conselheiro lembra que para receber atendimento pediátrico as famílias que mora no Gama precisarão fazer um trajeto de, no mínimo 17 quilômetros. Isso, sem contar aquelas sem recursos, “que terão que descer na BR, e andar ao menos um quilômetro a pé, porque nem todos os ônibus que saem do Gama passam próximos no Hospital de Santa Maria.”, disse ao observar que “imagine um pai ou mãe de família que tiver uma emergência a noite e não tiver recursos, como fica?”, questionou.

Apoio popular

Além dos conselheiros, servidores da Saúde também criticaram a mudança. Uma profissional, que não será identificada por PD publicou em uma rede social. “Antes de fechar um reporter da Globo veio filmou, fotografou mostrou a reportagem no DFTV e outros telejornais e nada aconteceu, agora é tarde, tiraram tudo que dizia respeito à pediatria do Gama e levaram pra Sta Maria e ainda disseram que vai abrir um PAI lá e aqui será casa de parto e que foi sedida uma parte para a cardiologia, agora como vão dividir um setor barulhento e movimentado com a cardiologia? Além do que não comporta 2 setores no local do PAI, onde andam as crianças que lotavam o PAI? Não tem mais crianças no Gama e entorno ? Ou estão morrendo e ninguém toma conhecimento?
Afinal são pobres,  não fazem diferença pros manda-chuvas.(SIC)”, questionou.

O caso também chamou atenção do Fórum Comunitário do Gama-DF.  Por meio de um convite, o Fórum quer do CRSG, explicações sobre os acontecimentos recentes em relação à Pediatria e também do Centro Obstétrico do HRG. Uma reunião foi agendada para a próxima terça-feira (8/Mai),com objetivo de mobilizar a comunidade local para denunciar e tentar reverter o problema.

Um dos membros do Fórum é o advogado, Juan Ritchelly que condenou as mudanças por parte da SES-DF e, pretende entrar com ação civil pública para questionar a transferência da pediatria do HRG para o HRSM. “Estou reunindo lideranças interessadas, levantando informações e dados, provocar uma reunião junto a Promotoria de Saúde, exigir uma audiência pública e aí caso essa tendência persista, entrar com uma Ação Popular em defesa da Saúde, pois não faz nenhum sentido uma cidade de 200 mil habitantes não ter pronto atendimento infantil.”, disse ao PD.

PAI

O caso ocorre, cerca de um ano após o secretário de Estado de Saúde do DF (SES-DF), Humberto Lucena Pereira da Fonseca anunciar a reabertura do Pronto Atendimento Infantil (PAI), no HRG. Unidade reaberta com pompa, juntamente com Rollemberg, dois dias depois apresentar problemas e, em apenas dois meses, ser desativado, pela segunda vez durante o atual governo.

Risco de disseminação de doenças

Em um grupo do Whatsapp, outra servidora, não identificada por PD aponta riscos no processo de transferência. Isso porque a ala pediátrica do HRSM foi instalada no mesmo setor em que funciona o atendimento a adultos, esses que foram parar no corredor, o que, na avaliação da profissional de Saúde, pode servir de foco para disseminação de doenças.

“Tiraram uma ala que atendia os adultos lá em Santa Maria para colocar as crianças. Aqui no gama tem aquele pronto socorro que foi feito, reformado, está vazio, tudo arrumadinho, mas vazio. E tinha a antiga pediatria, que agora o NAMID [Núcleo de Atenção Médica a Internados em Domicílio] que está funcionando lá em cima. Dois locais excelente que poderia colocar as crianças bem longe dos adultos. Agora não, vão enfiar as crianças lá no hospital de Santa Maria, um corredor antes dos adultos, e agora os adultos ficaram espalhado pelo corredor inteiro. O corredor de onde funcionada o PS observação misturou com o PS. Os pacientes agora estão todos misturados e vão colocar as crianças próximos dos adultos para todo mundo pegar as doenças um do outro.”, apontou.

Pediatria do HRG em 2017

Explicações

A transferência da pediatria do HRG para o HRSM chamou atenção, também do meio político. A deputada distrital Celina Leão (PP) recebeu a notícia com “estranheza” e deve cobrar explicações do chefe do Executivo e do secretário de Saúde.

“Vejo com muita estranheza essa transferência da pediatria do hospital do Gama para o hospital de Santa Maria. Nessa semana o governador do DF realizou ato de posse para 1600 servidores, desses, 108 pediatras e pelo que entendi, 84 neonatologistas. Agora como o governo, que anuncia mais de 100 nomeações de pediatras, em vez de colocar a pediatria do hospital do Gama para dar assistência aos 200 mil habitantes da cidade, fecha a unidade? Vejo com muita estranheza esse fechamento da pediatria do hospital do Gama e vamos cobrar explicações do governador Rodrigo Rollemberg e do senhor secretário de Saúde, que parecem não se preocupar nem um pouco com a população do DF.”, disse Celina Leão.

Atualização: 6/5/18 às 19h38

1

Comentário