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SÉRIE DE REPORTAGENS: QUEM AMA QUER SAÚDE NO GAMA

Superlotação de Centro Obstétrico é causa de sobrecarga, assédio moral, omissão de gestores com resultados devastadores. Secretaria nega problemas

Por Kleber Karpov

No sábado (5/Maio), a tristeza dos servidores com a transferência da pediatria do Hospital Regional do Gama (HRG), para o de Santa Maria (HRSM) (3/Maio) foi sufocada por outro problema. Superlotação no Centro Obstétrico (CO) do HRG, deixam médicos e demais profissionais de saúde, desesperados.

Ainda pela manhã de sábado, no CO do HRG, os servidores tentavam administrar o atendimento de 33 puérperas – mulheres que deram à luz ha pouco tempo – no PPP [Pré e Pós-Parto], 16 gestantes com outras cinco aguardando entrada no Centro Obstétrico. Isso, com a unidade operando acima da capacidade normal.

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“Estamos nesse momento com 33 puérperas, 16 gestantes + 05 gestantes aguardando p entrar e não temos condição. Estamos com 8 gestantes dentro do PPP 5 e 3 gestantes em cada um dos PPPs de 1 a 4”, informou uma servidora do HRG, observar que no dia anterior (4/Mai), 28 mulheres deram entrada na unidade em trabalho de parto. Porém, sem estrutura e pessoa em quantidade adequada para prestar atendimento.

Ao Política Distrital (PD), um um profissional do CO do HRG que, sob sigilo de identidade reclamou da falta de estrutura na unidade. “Está um caos total, os funcionários não sentem vontade nem de ir trabalhar. Você passa o dia vestido em capote e máscaras, em salas sem ar condicionado, chega a passar mal e não tem sequer a quem recorrer.”, explicou.

Caos

Outra servidora do CO, também sob sigilo de identidade, falou sobre os constantes problemas da unidade. “É sempre assim, Todos os dias enfrentamos as mesmas coisas, as mesmas brigas. Há mais ou menos uma semana, a retaguarda do CO, onde ficam os bebês mais graves, teve que chamar o delegado da Polícia Civil para abrir boletim de ocorrência, pessoalmente, no centro obstétrico.”, disse.

Falta de suporte

A servidora mencionou ainda a falta de suporte, por parte dos gestores da unidade. “Uma colega chegou a mandar fotos e mensagens por Whatsapp, implorando a ajuda para que a superintendência da região sul, pois a equipe, até a médica, estava desesperada.”.

Ainda segundo a fonte, sem suporte, as equipes ficam impedidas de tomar medidas mais drásticas, no caso, a suspensão do atendimento. “Hoje [5/Mai] a chefia da equipe, responsável pelo hospital, teve a coragem de dizer, no auge da superlotação, que era para continuar internando porque só quem pode fechar a porta é o secretário de saúde [Humberto Lucena Pereira da Fonseca] ou o governador [ Rodrigo Rollemberg] e, que não estava conseguindo falar com ninguém da direção.”, explicou.

Morte de recém-nascidos

De acordo com a servidora, o motivo de tanto desespero está ligado a mortes de recém-nascidos, por falta de atendimento adequado. “O desespero baseia-se no fato  do aumento absurdo que estamos tendo de mortes neonatais por falta de assistência de qualidade. A equipe tem ciência da falha e nada consegue fazer.”, disse.

O relato da servidora coincide com o de um conselheiro saúde do Gama. Sob sigilo de identidade, mencionou a posição de uma pediatra do HRG. “Esse ano já perdemos oito RNs.”, disse ao relembrar que “A equipe tenta de tudo para resolver. O problema é a alta gestão.”, disse.

Sobrecarga

PD teve acesso, sob compromisso de não publicar, a um pedido de restrição de atendimento. No documento, uma servidora explica que sozinha, em plantão superlotado, com retaguarda do CO com seis bebês, na unidade com capacidade de cinco, e desses, dois com cardiopatias, além de maternidade, ginecologia e puerpério lotados. A profissional de saúde relatou ainda que das crianças internadas, 15 crianças aproximadamente “não foram examinadas e prescritas”, por falta de pessoal.

Desespero

O caos no CO do HRG, de acordo o conselheiro de saúde, o problema alcança proporções “devastadoras” que podem resultar em “devem resultar em desgraças para os servidores e familiares”,  caso o poder público permaneça de ‘olhos vendados’ em relação ao que acontece no hospital.

Isso porque, de acordo com o conselheiro, em decorrência da omissão dos gestores, da pressão sobre os servidores e, do assédio moral, a unidade teve casos de tentativas de suicídios recentes de profissionais de saúde. “Houve pelo menos quatro tentativas de suicídio de servidores no HRG nos últimos dias. Pressão de todos os lados, mas, certamente, a grande angústia é se perceber impotente diante dos desafios para salvar pacientes, inclusive as criança.”, explicou.

Poder Público

Questionado sobre o caos no atendimento do HRG, o vice-presidente do Sindicato dos Auxiliares e Técnicos em Enfermagem do DF (SINDATE-DF), Jorge Vianna, comentou que por diversas ocasiões tem denunciado a falta de servidores no Hospital. “Nós temos denunciado por diversas ocasiões os problemas nos hospitais, inclusive o do Gama. E nós temos que lembrar que esse problema de sobrecarga, nós inclusive já levamos o caso para o Ministério Público do DF [e Territórios (MPDFT)], mas até o momento, acho que não houve nenhum encaminhamento concreto.”, disse Vianna.

A outra parte

Sobre o assunto, a SES-DF afirmou, ainda no sábado, “que o cenário descrito em relação ao atendimento de gestantes e puérperas foi normalizado ainda nesta tarde, sem necessidade de suspender o atendimento.”. A pasta explicou ainda que a unidade realiza 600 partos por mês, quando a estimativa era de apenas 300.

Em relação à pressão, a SES-DF afirmou existir, “em função do compromisso ético-profissional e humanitário dos profissionais de saúde.”. Porém, a pasta refutou as alegações de práticas de assédio moral e, ainda, as tentativas de suicídio. “A direção-geral do Hospital Regional do Gama esclarece que não procedem as alegações de supostas ocorrências de assédio moral e de suicídio em função de sobrecarga de trabalho na unidade.”.

Mas…

Embora a SES tenha apontado a normalidade do atendimento, ao atualizar com as fontes as condições de atendimento neste domingo (6/Mai), a informação obtida é que o caos voltou a se instalar no CO do HRG. Isso a ponto de um novo boletim de ocorrência ser registrado pela Polícia Civil.

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