Sucateamento do setor oncológico contribui para morte de 2,5 mil pessoas

Faltam médicos, remédios e aparelhos. Governo afirma que existe um plano para acabar com a demanda na capital

Por Otávio Augusto

Desde que descobriu um câncer na boca, em dezembro do ano passado, a pensionista Maria Henriqueta de Castro, 86 anos,percebeu que ter a doença na capital é quase um atestado de óbito. “Parece que a gente está condenado a morrer devagarinho”, reclama a idosa, moradora do Núcleo Bandeirante, que passou a integrar o grupo de 5,8 mil novos casos do mal identificados anualmente. O sofrimento de dona Henriqueta é resultado de um tratamento oncológico que ficou estagnado na década de 2000. Há 15 anos, a estrutura é exatamente a mesma. O sucateamento reflete diretamente no índice de mortes pela doença na cidade: 43% dos pacientes diagnosticados com o mal não resistem — essa é a segunda principal causa de óbito no DF, perdendo apenas para problemas cardiovasculares.

Os gargalos impedem cerca de 1,3 mil pessoas de iniciarem os cuidados de radioterapia e quimioterapia. Para se conseguir uma cirurgia oncológica no Hospital de Base, por exemplo, a espera ultrapassa 90 dias — acima da recomendação do Ministério da Saúde, de, no máximo, 60 dias. Atualmente, apenas metade da demanda é atendida — deficit reconhecido pela Secretaria de Saúde. As estatísticas são todas negativas. O Executivo local realiza 51,4% menos cirurgias do que o necessário. Por ano, 1,8 mil pacientes chegam ao centro cirúrgico. Entretanto, deveriam ocorrer 3,5 mil procedimentos. A cidade possui três aparelhos de radioterapia, mas seriam recomendados, no mínimo, sete.

Três hospitais recebem pacientes dessa especialidade. O Ministério da Saúde preconiza que haja uma unidade especializada para cada 500 mil habitantes — a capital tem 2,9 milhões de habitantes. Integram o quadro do setor 24 oncologistas para assistir à procura das 31 regiões administrativas. Cinco medicamentos usados no tratamento estão com o estoque zerado na rede. A sangria não se restringe à alta complexidade do tratamento. A assistência básica, na qual os casos deveriam ser identificados precocemente, cobre 52% da população da capital. Com isso, os diagnósticos aparecem tardiamente e exigem cuidados mais efetivos. A estimativa da Secretaria de Saúde é de que cerca de 30% das situações poderiam ser evitadas. O efeito cascata é sentido da quimioterapia. A pasta executa 10% mais sessões que o necessário.

Fonte: Correio Braziliense

 

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