Por Kleber Karpov
Um estudo publicado em fevereiro na revista científica The Lancet revelou que, apesar dos avanços na vacinação contra o HPV na América Latina, a região ainda enfrenta mortes por câncer de colo do útero devido a falhas nos sistemas de rastreamento. A análise, que abrangeu 35 países e territórios da América Latina e do Caribe, aponta o modelo de rastreamento oportunístico como o principal obstáculo para o diagnóstico precoce e o tratamento eficaz da doença, que é considerada altamente prevenível.
O principal problema identificado por especialistas é a predominância do rastreamento oportunístico, no qual o exame preventivo é realizado apenas quando a mulher busca um serviço de saúde por outros motivos. Segundo a consultora médica da Fundação do Câncer, Flavia Miranda Corrêa, este modelo é significativamente menos eficaz que o rastreamento organizado, que prevê a convocação ativa da população-alvo, composta por mulheres de 25 a 64 anos.
“A gente sabe que esse modelo de rastreamento oportunístico é muito menos eficiente do que um rastreamento organizado, que tem todos os critérios a serem seguidos e é um rastreamento de base populacional”, explicou Flavia Miranda.
Esse formato contribui para diagnósticos tardios e, consequentemente, para uma maior mortalidade. O modelo organizado, por outro lado, inclui a busca ativa de pacientes que não comparecem aos exames e a integração de sistemas para garantir o acompanhamento completo dos casos. “Não adianta rastrear sem garantir diagnóstico e tratamento”, destacou a médica.
Flavia Corrêa reforçou que a ausência de um programa organizado compromete a disponibilidade de todos os procedimentos necessários para a linha de cuidado da paciente, desde o diagnóstico até a conclusão do tratamento.
Cobertura vacinal
A vacinação contra o HPV, vírus responsável pela infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo, apresenta uma cobertura desigual na região. Na América Latina, os índices variam de 45% a 97%, enquanto no Caribe a variação é ainda maior, de 2% a 82%. Apenas a Venezuela ainda não introduziu o imunizante em seu programa nacional.
No Brasil, onde a vacina foi incluída no Calendário Nacional de Vacinação em 2014, a cobertura em 2024 alcançou 82,83% entre meninas e 67,26% entre meninos de 9 a 14 anos. Para 2025, o Ministério da Saúde anunciou a adoção de dose única e a ampliação do público para jovens de 15 a 19 anos que não foram vacinados.
“A gente está se aproximando da meta global de 90% de meninas vacinadas até os 15 anos, que é o que a OMS propõe para eliminação do câncer do colo de útero, e acredito que a gente chegará lá”, disse Flavia Corrêa.
A especialista também ressaltou a importância da vacinação masculina para a proteção contra cânceres de ânus, pênis, garganta e pescoço, além de verrugas genitais, todos causados pelo HPV.
Avanços tecnológicos
Em janeiro, a Fundação do Câncer lançou uma atualização do Guia Prático de Prevenção do Câncer do Colo do Útero, recomendando a substituição gradual do exame Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV. O novo teste já foi implementado em países como Argentina, Brasil, Chile e México.
Apesar do avanço tecnológico, a integração dos sistemas de saúde representa um grande desafio. No Brasil, o encaminhamento da paciente da atenção primária para a secundária (diagnóstico) e terciária (tratamento) ocorre em sistemas de informação que não dialogam entre si.
“Se a gente não tiver a interoperabilidade desses sistemas, a gente pode perder a navegação da mulher e ela não concluir o tratamento, o que é o maior problema no Brasil”, alertou Flávia Miranda Corrêa.
Estratégia global
O diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni, defende a transição para programas de rastreamento organizados, citando o sucesso de países como Austrália, Canadá, Escócia e Dinamarca na redução da incidência da doença. A estratégia global da Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece a meta 90-70-90: 90% das meninas vacinadas, 70% das mulheres rastreadas e 90% dos casos tratados.
As lesões que antecedem o câncer de colo do útero podem levar de 10 a 20 anos para evoluir, o que oferece uma ampla janela para o diagnóstico precoce e tratamento com altas taxas de sucesso. Sintomas como sangramentos atípicos e corrimento persistente podem indicar a presença da doença. Segundo projeções da OMS, o cumprimento das metas globais pode reduzir a incidência do câncer a níveis residuais nas próximas décadas.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal.











