“É um jogo de vida ou morte e nesse jogo, a vida tem prioridade”, aponta Jorge Vianna sobre críticas ao lockdown no DF

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Por Kleber Karpov

Nesta segunda-feira (1o/Mar), o Distrito Federal foi tomado por manifestações de representantes do setor produtivo com apoio de políticos. O caso chama atenção, com a manifestação do Conselho Regional de Medicina do DF (CRM-DF) que também se posicionou contrário ao decreto do governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), que instituiu o lockdown (28/Fev).

No DF, a deputada distrital, Júlia Lucy (Novo), que aparece ao lado da deputada federal, Bia Kicis (PSL-DF), se posicionou publicamente e participou ativamente da mobilização dos empresários, contra o lockdown, por considerar que o governador cometeu uma série de falhas, no que diz respeito a gestão de combate a pandemia, dentre essas, a desativação do Hospital de Campanha do Estádio Mané Garrincha. A deputada defende ainda a reabertura das escolas, ao apontar o “limbo do analfabetismo funcional”, a que estão submetidas as crianças do DF.

“Os trabalhadores e o setor produtivo do DF, que já enfrentavam uma situação crítica, vão ficar jogados à própria sorte com essa decisão arbitrária de lockdown, fruto da falta de planejamento e gestão do governo. Por isso mesmo, não devem ser punidos por ela.”, publicou na rede social Instagram.

Por meio de um vídeo, o senador Izalci Lucas (PSDB), também criticou o lockdown e cobrou do governador, a falta de planejamento para lidar com a pandemia. De Acordo com Lucas, o GDF conta com recursos provenientes de várias fontes, a exemplo de R$ 1 bilhão do Fundo Constitucional do DF (FCDF), além de outros milhões, destinadas por outras fontes, que poderiam ser utilizados por Rocha, no combate ao coronavírus.

CRM-DF

Uma das manifestações controversas partiu por parte do CRM-DF, o conselho de classe publicou e, encaminhou nota ao governador, em que condenou o lockdown, sob alegação de ser uma medida que pode gerar outras doenças à população do DF, além de provocar um prejuízo irremediável à economia.

Fora de contexto

Na nota, o CRM-DF, se apropriou de uma manifestação do médico David Nabarro, enviado especial da Organização Mundial de Saúde (OMS) para assuntos associados a pandemia do coronavírus, ao afirmar que “O lockdown não salva vidas e faz os pobres muito mais pobres.”.

Porém, estranhamente, o CRM-DF comente o mesmo erro que a deputada Major Fabiana (PSL/RJ), cometeu ao postar a mesma frase no Twitter. Postagem essa que ganhou passou pelo crivo da checagem de fatos, por exemplo de, Estadão Verifica, (Veja aqui), por ser utilizada fora do contexto.

Conforme aponta Estadão Verifica, na entrevista em que foi proferida tal frase, Nabarro afirmou que “os lockdowns são justificados em momentos de crise, para reorganizar os sistemas de saúde e proteger os profissionais que estão na linha de frente do combate à doença. A ideia desta prática é ‘achatar a curva’ de contágio, evitar a superlotação de hospitais e, depois, permitir a reabertura das economias.”, o que aparentemente é o critério estabelecido por Ibaneis, para lidar com o crescente número de casos de covid-19, no DF, além do colapso dos leitos de UTIs.

Confira a entrevista de Nabarro


Secretários de Saúde querem mais restrições

As declarações do CRM-DF, também vão na contramão da posição dos secretários de saúde de todo país, membros do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). Preocupados com o aumento do número de casos de covid-19 no país, em carta aberta à nação, pediram maior rigor nas medidas de restrição das atividades não essenciais. O pedido inclui restrição total nas localidades onde a ocupação de leitos estiver acima de 85% e houver tendência de elevação no número de casos e óbitos por covid-19.

No documento, os secretários solicitaram a proibição de eventos presenciais como shows, congressos, atividades religiosas, esportivas e similares em todo o país. O conselho também requer a suspensão das aulas presenciais em todos os níveis da educação do país e toque de recolher nacional de segunda a sexta, das 20h até as 6h, e durante os fins de semana. O documento solicita também o fechamento de praias e bares, a adoção de trabalho remoto e o aumento da testagem contra a doença.

Apoio ao lockdown

Mesmo que em discordância da condução por parte do governo, a deputada distrital, Arlete Sampaio (PT), durante sabatina do ex-ministro da Saúde, Gilberto Occhi, indicado para assumir a gestão do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (IGESDF), se manifestou favorável ao lockdown instituído por Ibaneis.

Presidente da Comissão de Educação, Saúde e Cultura (CESC), da Câmara Legislativa do DF (CLDF) e médica sanitarista, Arlete Sampaio, também criticou o fechamento e falhas na gestão de leitos, mas considerou extremante necessário o lockdown, além de condenar a postura do CRM-DF.

Outro a apoiar a iniciativa, foi o deputado distrital, Jorge Vianna (Podemos), técnico em enfermagem e enfermeiro, Vianna também se contrapôs a postura da colega, Júlia Lucy, durante sabatina de Gilberto Occhi, por julgar o momento extremante crítico, o que, na visão do parlamentar, justifica a instituição do lockdown.

Vianna postou ainda um vídeo gravado no Hospital Regional de Santa Maria (HRSM), uma das unidades de saúde, referencia no tratamento de pacientes com covid-19 no DF, em que apontou a falta de leitos. “É um jogo de vida ou morte e nesse jogo, a vida tem prioridade”, aponta Jorge Vianna sobre críticas ao lockdown no DF.

 

Lockdown funciona ou não?

Mais que opiniões, cases podem nortear a percepção sobre a efetividade do lockdown. Nesse contexto, Reino Unido e Portugal, são dois exemplos de países que tiveram que endurecer as regras de restrições, com amplo apoio da população que ao final de dois meses apontaram casos surpreendentes.

Após ter estabilizado o número de casos, até o final de setembro de 2202, e impactado pela segunda onda, com um pico de mais de 68 mil casos, em 8 de janeiro, o país reduziu para cerca de 6 mil casos, o número de infecções em 28 de fevereiro. Isso, após
o premiê britânico, Boris Johnson, decretar a volta do lockdown na Inglaterra, em 5 de janeiro.

Portugal que era uma das principais referências no combate ao covid-19 no mundo, também passou por experiência semelhante no final de 2020. Referencial turístico, após ter a sequência das férias de verão e, ‘afrouxado’ em relação as regras sanitárias, o país teve uma escalada de casos, com ápice de aproximadamente 17 mil casos. Após declarar fechamento de fronteiras e lockdown, em 15 de janeiro desse ano, o país reduziu, em 28 de fevereiro, a quantidade para 718 casos confirmados.

Números

Vale observar que o país contabiliza, segundo dados do Ministério da Saúde (MS),  mais de 250 mil óbitos e 10 milhões de casos confirmados por covid-19. E DF, por sua vez com 298 mil registros de infecções por coronavírus com 4,8 mil mortes. No DF pouco mais de  4,5% da população foram vacinados até o momento, de acordo com dados da SES-DF.