Dia Internacional da Enfermagem: Profissionais de saúde do DF realizam ato em memória das vítimas da Covid-19

Constantes vítimas de insultos, descasos e agressões, após reconhecimento da população, profissionais de Enfermagem cobram valorização do Estado

Por Kleber Karpov

Auxiliares, Técnicos, Enfermeiros e profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) realizaram ato, em frente ao Museu da República, em memória das vítimas do coronavírus (Covid-19). A manifestação ocorreu na tarde desta terça-feira (12/Mai), data em que se comemora o Dia Internacional do Enfermeiro e dá início a Semana da Enfermagem.

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O ato, organizado por diversas entidades ligadas à enfermagem, Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), Conselho Regional de Enfermagem do DF (COREN-DF), Sindicato dos Enfermeiros do DF (SINDENFERMEIRO-DF), Sindicato dos Auxiliares e Técnicos em Enfermagem do DF (SINDATE-DF), Fundação Nacional dos Enfermeiros (FNE), Associação Brasileira de Enfermagem (ABEN) e Associação Brasileira de Enfermagem em Terapia Intensiva (ABENTI), contou com cerca de 80 profissionais da categoria.

 

Em performance, silenciosos, com jaleco branco ou vestimenta do SAMU, os profissionais de enfermagem tinham nas costas, um nome de um colega, vítima da Covid-19, e portavam uma lanterna, símbolo da Enfermagem. 

Cada uma dessas pessoas, falecidas, tiveram os nomes projetados na concha do Museu da República. O profissional de Enfermagem, em representação ao colega morto, se deitava ao chão, sobre uma túnica negra, com pernas fechadas e braços abertos em alusão a uma cruz.

Agressões

Constantemente agredidos, sejam verbal ou fisicamente, os profissionais de Enfermagem, antes da pandemia, sempre foram vítimas da falta de estrutura por parte do Estado. Responsáveis por zelar de juramento realizado perante Deus e a sociedade. Esses trabalhadores, são reféns de um mercado que pagam baixos salários. Mais que isso, da total falta de condições de trabalho, além de trabalharem, em ambientes insalubres e sobrecarregados, devido as superlotações nas unidades de saúde.

“Dedicar minha vida profissional a serviço da humanidade, respeitando a dignidade e os direitos da pessoa humana, exercendo a enfermagem com consciência e fidelidade; Guardar os segredos que me forem confiados; Respeitar o ser humano desde a concepção até depois da morte; Não praticar atos que coloquem em risco a integridade física ou psíquica do ser humano; Atuar junto à equipe de saúde para o alcance da melhoria do nível de vida da população; Manter elevados os ideais de minha profissão, obedecendo os preceitos da ética, da legalidade e da moral, honrando seu prestígio e suas tradições”.

A recente pandemia, reservou aos profissionais de Enfermagem, um cenário ainda mais sombrio. O coronavírus passou a submeter a esses trabalhadores, o convívio, com outro tipo de agressão, a intolerância. Na última semana, no dia 1º de Maio, Dia do Trabalhador, técnicos em enfermagem e enfermeiros foram surpreendidos com a agressão de defensores do presidente, Jair Bolsonaro. 

Vestidos de verde e amarelo, empunhados com bandeiras do Brasil, o engenheiro eletricista, Renan da Silva Sena e a empresária Marluce Gomes, de 44 anos, partiram para cima dos trabalhadores, durante protesto, também, silencioso, em que homenageavam as vítimas da Covid-19, na Praça dos Três Poderes.

Caso que gerou revolta dos profissionais de saúde e da população, a serem repercutidos pela imprensa e resultou em pedidos de investigação, por parte do COFEN e COREN-DF, à Polícia Civil do DF (PCDF) e ao Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT).

Mortes

Reconhecimento esse recebido com gratidão, mas a um custo de muita dor. No dia em que o Brasil completa 177.589 pessoas contaminadas e 12.400 óbitos de pessoas, vítimas da Covid-19, o país contabiliza 884 trabalhadores da saúde no sistema como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), sendo 276 hospitalizados. Desses, a Enfermagem registra, de acordo com o Cofen, 14,4% distribuídos em 13 mil enfermeiros e mais de 13 mil técnicos diagnosticados com o coronavírus, e 1,59% das mortes, 98 e 100 mortos, respectivamente.

Para o presidente do COFEN, Manoel Neri, muitas dessas mortes, evitáveis, caso os profissionais de enfermagem tivesse acesso, adequadamente, aos Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs).

“É inadmissível que estivessem expostos na linha de frente, contrariando as diretrizes sanitárias indicadas pelo Ministério da Saúde. Somos seres humanos, sujeitos aos mesmos fatores de risco de qualquer pessoa, não somos máquinas. A escassez de Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs) e o subdimensionamento das equipes também contribuem para o agravamento da pandemia entre profissionais de Enfermagem”.

Para o diretor do SINDATE-DF, Newton Batista, a categoria dos técnicos em enfermagem, tradicionalmente, são os profissionais mais expostos, que agora se tornam vítimas fatais da Covid-19. Para o sindicalista, a falta de EPIs, está diretamente ligada ao alto número de óbitos

Newton Batista, Diretor do Sindate-DF – Foto: Divulgação

“O número de auxiliares e técnicos em enfermagem mortos com a Covid-19 é assustador, são os profissionais de saúde que mais perdem a vida, por estarem mais expostos. Por sermos aqueles que estão 24 horas ao lado dos pacientes, desde o nascimento até o preparo do corpo, no pós-morte. Por isso é necessário que os gestores não poupem esforços para garantir a distribuição de EPIs aos auxiliares e técnicos em enfermagem. Essa tem sido a nossa bandeira para que nossos trabalhadores tenham segurança para executarem suas tarefas diante dessa epidemia. Essa é a nossa homenagem as famílias que perderam seus parentes em meio a essa pandemia do coronavírus.”, disse Batista.

Reconhecimento

Mas, além do clima de angústia para os profissionais de enfermagem, por estarem na linha de frente, entre os trabalhadores da Saúde, que lidam com a pandemia. A Covi-19, também mostrou um lado positivo. No DF, assim como no restante do mundo, a Enfermagem, assim como os profissionais de saúde, como um todo, foram enaltecidos.

Os profissionais de enfermagem, embora em uma ocasião amarga à sociedade, foram reconhecidos, parabenizados e homenageados com músicas e mensagens de carinho. Um reconhecimento, por mais tardio que pareça, capaz de demonstrar o verdadeiro papel dos profissionais de Enfermagem, salvar vidas. Para se ter certeza disso, basta ver a expressão de sorriso, a reverência, o corredor de alegria e a satisfação com que dizem adeus a um paciente recuperado, na Covid-19.

Frustração

Embora aceitem com gratidão, o carinho oferecido pela população acolhida pelos profissionais de Enfermagem, a categoria, que chegou a comemorar a aprovação, na Câmara Federal, do Projeto de Lei Complementar (PLP) 39/20, do Senado, que destina ajuda de R$ 125 bilhões para os estados, ao DF e os municípios em razão da pandemia de Covid-19.

O PLP garantia a exclusão de congelamento salarial, pelos próximos 18 meses, dos servidores da saúde, da segurança pública e das Forças Armadas. Porém, na última semana, após recomendação do ministro da Economia, Paulo Guedes, o presidente anunciou que pretende seguir recomendação de Guedes e vetar dispositivo que excepcionava e garantia de reajuste a tais categorias.

30 horas

No entanto, a luta dos profissionais de Enfermagem, por reconhecimento, vem de longa data. A categoria, há cerca de 20 anos, trava outra batalha. A apreciação do Projeto de Lei (PL) 2295/2000, que estabelece a jornada de trabalho para os profissionais de enfermagem, em 30 horas semanais.

Uma reivindicação antiga, encalhada nas gavetas, ora do recôncavo, ora do convexo, no Congresso Nacional, que nem por força de preces e pedidos, a exemplo, do deputado Frei Anastácio (PT/PB) ou do senador Paulo Pain (PT-RS), defensores da redução da carga horária para 30 horas semanais aos enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, conseguem colocar o PL em votação.

Essa cobrança, que no DF, ocorre sobremaneira por parte dos profissionais de enfermagem, da rede privada, começou a ser levantada pelo deputado distrital, Jorge Vianna (Podemos). Egresso da Enfermagem, Vianna um outdoor de homenagem a categoria, recorreu ao reconhecimento para cobrar dos deputados federais, a aprovação das 30 horas semanais. “E agora, a Enfermagem merece reconhecimento? Deputados federais aprovem as 30h semanais! Enfermagem na Serra e Salvando Vidas. Gratidão.”.

Um dos nomes de expressão, na esfera nacional, em defesa da aprovação das 30 horas semanais da enfermagem, Vianna aponta que esse é um momento, sobretudo por parte da classe política, no Congresso Nacional, demostrar o reconhecimento, constantemente pregado na mídia.

“Sou enfermeiro e técnico em enfermagem, sindicalista e agora atuando em defesa da categoria na Câmara Legislativa, sei da importância, aos profissionais de enfermagem do reconhecimento da população e da classe política, da importância do profissional de Saúde. Mas, até por conhecer profundamente a realidade desses profissionais, que sempre estiveram na linha de frente atendendo os pacientes, e agora então com a pandemia do coronavírus, nada mais importante, que os nossos políticos, demonstrem, efetivamente, que valorizam a categoria da enfermagem, desengavetando e votando as 30 horas aos profissionais de enfermam.”, disse Vianna.

Na terça-feira, Vianna esteve em uma série de atividades, em homenagem aos profissionais de enfermagem. O deputado realizou distribuição de flores, em hospitais do DF e na rodoviária da capital do país, além de participar do ato realizado no fim da tarde, em frente ao Museu da República. Do parlamentar, fica a mensagem, também em homenagem aos profissionais de enfermagem em todo país.

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