O sorriso de Lula

Por Luciene Rodrigues

Ficou claro e indiscretamente notável, nas últimas imagens de Lula, uma expressão que não é comum nele. Muito mais sério, preocupado, longe das feições serenas e risos fáceis dos outros dois mandatos, Lula não sorri. Mesmo na posse e no primeiro dia de trabalho, estavam marcados os vincos de preocupação, de inquietação. A explicação é simples, porém demonstra um quadro cruel.

Um país mergulhado no caos pesando sobre as costas do homem de 80 anos. No primeiro mandato, Lula recebeu um governo em andamento. FHC não conseguiu acabar com a fome, com a dívida externa, e estava a ponto de perder as rédeas da inflação que ele próprio havia dominado nos anos anteriores, mas ainda assim entregou o país com um governo funcional, com estruturas sólidas e organizadas, que apesar de rastros e mais que rumores de corrupção, mantinha as bases democráticas intocadas.

Lula fortaleceu essas bases, combateu inflação e fome, distribuiu direitos e benefícios a todos, em especial aos mais pobres, fortaleceu instituições, empresas privadas, bancos, e o sistema público. A corrupção institucional (palavras que nem deveriam estar correlacionadas) passou a ser combatida.
Em seu segundo mandato, manteve a linha e passou para sua sucessora o país em franco crescimento. Não atoa, saiu com a maior aprovação de um presidente na história, depois da redemocratização. Hoje o quadro é radicalmente diferente.

Lula não assumiu simplesmente a pátria caótica, mas destroçada em seus sistemas mais básicos.
Recebeu a fome novamente, a insegurança, o povo mergulhado no medo e no ódio criado e estimulado por um projeto de ditadura que foi (felizmente) abortado. Lula não sorri espontaneamente, e mesmo quando o faz por diplomacia, a tristeza e preocupação estão claras como água em seus olhos.

Em seu antecessor, no entanto, há uma aberração estampada na face: o riso frio e cruel dos que não se importam. Se chorou em algum momento, se demostrou emoções, foi puramente pelo narcisismo e egoísmo de não saber perder no jogo democrático.

Ao homem de 80 anos, cansado e triste, passamos a responsabilidade de reconstruir essa nação, trabalho que ele já havia concluído – ao menos a parte que lhe era devida – e foi covardemente destruído.
Quando Lula voltar a sorrir, saberemos que o Brasil voltou aos eixos.

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