Grupo pede “fim dos privilégios para deficientes” em outdoor e redes sociais

Sobre movimento contra benefícios aos portadores de deficiência: “conviva com um deles e entenda o que é privilégio”

Por Carolina Wanzuita

Parece até piada de mau gosto ou alguma ação de marketing mal planejada.  O fato é que circula pelas redes sociais a imagem de um outdoor colocado na rua Santa Cecília, no bairro Vista Alegre, em Curitiba, em que pede-se o “fim dos privilégios para deficientes“. Na página do Facebook “Movimento Pela Reforma de Direitos“, o grupo diz que “luta apenas por uma sociedade mais justa“.
Isso, na opinião deles, seria a redução de 50% das vagas para deficientes, fim das cotas em concursos e isenção de impostos em carros para deficientes. E questionam: “agora eu vou ter que ser prejudicado porque não tenho nenhum problema?” Como se a deficiência fosse privilégio.

Ao dono do outdoor e da página na rede social, a qual mandei mensagem e ainda não obtive resposta, deixo um convite: conviva  com um portador de deficiência e entenda o que significa privilégio. Se não encontrar nenhum em seu círculo social, dou a sugestão de passar algumas horas na minha casa.

Lá você vai acompanhar a rotina de quem tem uma irmã com necessidades especiais, que não fala, não anda e não enxerga.  Você pode ajudar a tirar ela do quarto ao acordar — se você conseguir, claro, porque é bem complicado retirar da cama uma menina de 25 anos que se comporta como um bebê. Mas não se canse porque ainda falta o banho, o passeio na cadeira de rodas e a alimentação.

Se você tiver sorte, ela vai comer direitinho. Caso contrário, ela vai usar toda a força que tem para jogar a comida longe e te arranhar. Mas não desista, ela precisa se alimentar. Afinal, tem que ter algo no estômago para tomar os remédios que usa desde que nasceu. Ah, os medicamentos! Se não seguir a receita certinho, nos ajude a acalmar uma crise convulsiva. Se a convulsão demorar a passar, temos que correr ao hospital. E torça para ter uma vaga para deficientes disponível, porque cada minuto é crucial para a vida da minha irmã.

Quando o susto passar, vamos para casa, de volta à rotina de fraldas, remédios, tratamentos e dedicação total. E tudo isso custa um bom dinheiro, gasto que uma pessoa sem deficiências não tem.

E, mesmo assim, a rotina é de superação a cada dia, de sorrisos, sensibilidade e carinho sincero. Creio que a visita fará você entender que somos diferentes e que esta não é uma questão de privilégios, mas de direitos.

Reprodução/Facebook

Carolina Wanzuita é jornalista
e irmã de portadora de necessidades especiais

Fonte: Clicrbs

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