Universidades federais fomentam ações de solidariedade no combate à fome

Instituições se conectam com a sociedade e atuam em defesa da vida para enfrentar problema que hoje atinge mais de 15% das famílias brasileiras

Mesmo com todo o potencial do setor agro no Brasil, o terrível fantasma da fome volta a assustar o país, fruto de uma equação que soma instabilidade econômica, inflação e pandemia, entre outros fatores. Hoje, são 33,1 milhões de brasileiros passando fome, na chamada zona de insegurança alimentar grave, o que representa tristemente mais de 15% das famílias brasileiras. Para tentar combater esse cenário dramático, as universidades federais atuaram e seguem atuando fortemente em diversas ações solidárias voltadas principalmente para pessoas em situação de vulnerabilidade. É o que revela levantamento realizado pelo centro SoU_Ciência, em parceria com a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), divulgado recentemente.

De acordo com o estudo que integra o painel “Universidades Federais em defesa da vida: atuação na pandemia da Covid-19”, essas instituições públicas de ensino superior realizaram inúmeras ações em todas as regiões do país. Entre as iniciativas mais avançadas e inovadoras estão aquelas que conectaram toda a cadeia produtiva por meio dos projetos de extensão e incubadoras, gerando renda no combate à fome.

“A ação mobilizou das lojas de insumos agrícolas e pequenos produtores rurais, a empresas de transporte e distribuição, doadores e, claro, as comunidades beneficiadas na ponta. Todos esses parceiros recebiam, além de alimentos, informações preventivas e orientação de cuidado dos universitários”, explica o professor Pedro Arantes, um dos coordenadores do SoU_Ciência e do painel.

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Conexão direta com a sociedade

Entre as ações que conectaram diretamente universidades federais e sociedade no combate ao crescente quadro de insegurança alimentar grave pode-se destacar alguns. Na região Norte, por exemplo, a Universidade Federal do Acre (UFAC) participou da entrega de cestas básicas doadas pela ONG Ação da Cidadania nas cidades de Feijó e Rio Branco, distribuindo cerca de 20 toneladas de alimento para mais de 6 mil pessoas. A Federal do Amazonas (UFAM) também se engajou em doação de cestas de alimentos para famílias indígenas no Parque das Tribos, na Associação Indígena Unindo as Etnias (AIUE), e em diversas comunidades indígenas urbanas em Manaus.

No Pará, comunidades quilombolas e famílias de baixa renda impactadas pela pandemia tiveram acesso às cestas de alimentos agroecológicos em ação que contou com a mobilização da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e também com a Universidade Federal do Pará (UFPA). O mesmo aconteceu em Tocantins, com ações da UFT (Universidade Federal de Tocantins).

Comunidades e famílias desassistidas do Nordeste também foram atendidas em ações de instituições de ensino como a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), no Ceará, as Universidades Federais do Rio Grande do Norte (UFRN), de Alagoas (UFAL) e de outros estados, como a Bahia, com sua rede de instituições federais de ensino superior.

Iniciativas construídas comunidade a comunidade também foram elencadas no levantamento do SoU_Ciência e da Andifes nas demais regiões do país. A Universidade Federal do ABC paulista (UFABC), por exemplo, atuou no apoio social, jurídico e no fornecimento de cestas básicas para população de rua e LGBT em situação de vulnerabilidade. O combate à desnutrição também fez parte das ações da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), assim como da Federal do Espírito Santo (UFES), mesmo caminho seguido pela Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Federal de Viçosa (UFV), que articulou projetos de extensão, incubadoras e agricultores numa rede de solidariedade e doou alimentos dos restaurantes universitários (fechados com o ensino remoto) para instituições filantrópicas e hospitais. A Federal de Lavras (UFLA), também em Minas, ainda desenvolveu projetos e ações de extensão voltadas para a construção de hortas comunitárias nos bairros com maior índice de vulnerabilidade socioeconômica, permitindo a produção de verduras e legumes para os moradores.

O protagonismo das universidades no campo da solidariedade e do combate à fome pode ser visto também no Centro-Oeste e no Sul do país, onde instituições como a UFMS, de Mato Grosso do Sul, a UNB, de Brasília, e a UFG, de Goiás, além da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), a Unipampa (Universidade Federal do Pampa), a UFPel, em Pelotas, a UFCSPA, de Porto Alegre, e a UFSM de Santa Maria (RS) arrecadaram alimentos para comunidades e pessoas em situação de vulnerabilidade, essa última também responsável pela difusão e fortalecimento das chamadas hortas urbanas.

“É uma pena que mesmo diante de tanta contribuição e da relevância pública e social da presença das instituições federais nas diversas regiões do país, – foram mais de mil ações em mais de 500 municípios durante a pandemia -, existe um verdadeiro ataque do governo às instituições, por meio da agressiva política de cortes e contingenciamento de recursos”, ressalta Arantes.

De fato, um segundo levantamento também divulgado recentemente pelo centro SoU_Ciência em parceria com o Instituto Serrapilheira identificou que nos últimos anos, as universidades sofreram com mais de 50% de queda nos recursos de custeio e de 96% nos recursos de investimentos. Dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), quase R$ 35 bilhões (R$ 34.887.579.013,69) dos R$ 64 bilhões arrecadados pelas fontes financiadoras do FNDCT deixaram de ser destinadas às políticas de Ciência e Tecnologia nos últimos anos no Brasil (em termos nominais), e grande parte desta verba utilizada para amortização da dívida pública por dois anos.

Para Soraya Smaili, que também coordena o SoU_Ciência, “trata-se de recursos que foram arrecadados especificamente para serem investidos na ciência, mas que foram ‘confiscados’ por uma manobra do atual governo e redirecionados para o Tesouro, prejudicando novamente a ciência e a educação, que andam ou deveriam andar juntas com a sociedade em prol do desenvolvimento do país, com melhores condições de vida”, finaliza.

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