Bolsonaro é criticado por sugerir, em live, invasão de hospitais para verificar ocupação de leitos

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“Arranja uma maneira de entrar e filmar. Muita gente tem feito isso, mas mais gente tem que fazer pra mostrar se os leitos estão ocupados ou não”, sugeriu Bolsonaro

Por Kleber Karpov

Em transmissão ao vivo pelas redes sociais,  na quinta-feira (11/Jun), o presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido), sugeriu à população a invasão em hospitais públicos ou de campanha para filmar leitos destinados ao tratamento do Covid-19, para saber se estão vazios, ou não. Após o pedido, invasões foram constatadas, o que causou revolta de políticos e entidades ligadas à saúde em todo país.

Ainda na live, Bolsoro afirmou que as imagens colhidas, pelos invasores, serviriam de ‘denúncias’ a serem publicadas nas redes sociais do presidente, a serem apuradas pela Polícia Federal (PF) ou Agência Brasileira de Inteligência (ABIN).

Governadores

Em carta aberta, nove governadores: Rui Costa (BA), Renan Filho (AL), Camilo Santana (CE), Flávio Dino (MA), João Azeredo (PB), Paulo Câmara (PE) Wellington Dias (PI), Belivaldo Chagas (SE) e Fárima Bezerra (RN), condenaram a cultura negacionista, adotada pelo governo federal, capitaneada por Bolsonaro.

Os governadores apontam que o governo insiste em “não reconhecer a grave crise sanitária enfrentada pelo Brasil”, mesmo diante de mais de 800 mil casos confirmados de Covid-19. Além de observar o desrespeito aos protocolos médicos e por colocarem a vida, sobretudo dos pacientes, em risco.

Confira a nota na íntegra

“Os governadores de Estado têm lutado fortemente contra o coronavírus e a favor da saúde da população, em condições muito difíceis.

Ampliamos estruturas e realizamos compras de equipamentos e insumos de saúde de forma emergencial pelo rápido agravamento da pandemia. Foi graças à ampliação da rede pública de saúde, executada essencialmente pelos Estados, que o país conseguiu alcançar a marca de 345 mil brasileiros recuperados pela Covid-19 até agora, apesar das mais de 41 mil vidas lamentavelmente perdidas no país.

Desde o início da pandemia, os Governadores do Nordeste têm buscado atuação coordenada com o Governo Federal, tanto que, na época, solicitamos reunião com o Presidente da República, Jair Bolsonaro, que foi realizada no dia 23/03/2020, com escassos resultados. O Governo Federal adotou o negacionismo como prática permanente, e tem insistido em não reconhecer a grave crise sanitária enfrentada pelo Brasil, mesmo diante dos trágicos números registrados, que colocam o país como o segundo do mundo, com mais de 800 mil casos.

No último episódio, que choca a todos, o presidente da República usa as redes sociais para incentivar as pessoas a INVADIREM HOSPITAIS, indo de encontro a todos os protocolos médicos, desrespeitando profissionais e colocando a vida das pessoas em risco, principalmente aquelas que estão internadas nessas unidades de saúde.

O presidente Bolsonaro segue, assim, o mesmo método inconsequente que o levou a incentivar aglomerações por todo o país, contrariando as orientações científicas, bem como a estimular agressões contra jornalistas e veículos de comunicação, violando a liberdade de imprensa garantida na Constituição.

Além de tudo isso, instaura-se no Brasil uma inusitada e preocupante situação. Após ameaças políticas reiteradas e estranhos anúncios prévios de que haveria operações policiais, intensificaram- se as ações espetaculares, inclusive nas casas de governadores, sem haver sequer a prévia oitiva dos investigados e a requisição de documentos. É como se houvesse uma absurda presunção de que todos os processos de compra neste período de pandemia fossem fraudados, e governadores de tudo saberiam, inclusive quanto a produtos que estão em outros países, gerando uma inexistente responsabilidade penal objetiva.

Tais operações produzem duas consequências imediatas. A primeira, uma retração nas equipes técnicas, que param todos os processos, o que pode complicar ainda mais o imprescindível combate à pandemia. O segundo, a condenação antecipada de gestores, punidos com espetáculos na porta de suas casas e das sedes dos governos.

Destacamos que todas as investigações devem ser feitas, porém com respeito à legalidade e ao bom senso. Por exemplo, como ignorar que a chamada “lei da oferta e da procura” levou a elevação de preços no MUNDO INTEIRO quanto a insumos de saúde?

Ressalte-se que, durante a pandemia, houve dispensa de licitação em processos de urgência, porque a lei autoriza e não havia tempo a perder, diante do risco de morte de milhares de pessoas. A Lei Federal 13.979/2020 autoriza os procedimentos adotados pelos Estados.

Estamos inteiramente à disposição para fornecer TODOS os processos administrativos para análise de qualquer órgão isento, no âmbito do Poder Judiciário e dos Tribunais de Contas. Mas repudiamos abusos e instrumentalização política de investigações. Isso somente servirá para atrapalhar o combate ao coronavírus e para produzir danos irreparáveis aos gestores e à sociedade.

Deixamos claro que DEFENDEMOS INVESTIGAÇÕES sempre que necessárias, mas de forma isenta e responsável. E, onde houver qualquer tipo de irregularidade, comprovada através de processo justo, queremos que os envolvidos sejam exemplarmente punidos”.

Espírito Santo

Deputados fazem visita surpresa ao Dório Silva, sem paramentação adeaquada. Da esquerda para a direita: Carlos Von, Danilo Bahiense, Lorenzo Pazolini, Vandinho Leite e Torino Marques. Foto: Reprodução/Redes sociais

Após o ‘pedido’ de Bolsonaro, cinco deputados estaduais de Espírito Santo (ES) resolveram fazer uma visita surpresa, na tarde de sexta-feira (12/Jun), ao Hospital Estadual Dório Silva, sob argumento de investigar denúncias de “condições de trabalho precárias”. De acordo com a Secretaria de Saúde (SESA), a unidade está com quase 100% dos leitos ocupados por pacientes de Covid-19.

Nas redes sociais, o secretário de Saúde, Nésio Fernandes, afirmou se tratar de atitude inadmissível além de classificar o comportamento como “radical, xiita e de baixo perfil”. Os parlamentares e Carlos Von (Avante), Danilo Bahiense (PSL) Lorenzo Pazolini (Republicanos), Torino Marques (PSL),  Vandinho Leite (PSDB),  foram entraram, segundo a SESA, em áreas destinadas a pacientes com Covid-19 além de outras enfermidades.

Genocida

Por meio de Nota Pública, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) repudiou a fala de Bolsonaro (Veja na íntegra aqui), por desrespeitar os profissionais de saúde e incitar o ódio, no dia em que o país contabilizou 41 mil óbitos de pessoas, por Covid-19. Para o CNS, “O ataque sistemático do governo a servidores públicos, às universidades públicas, aos direitos trabalhistas, previdenciários, com desfinanciamento de políticas públicas e priorização escancarada dos interesses do mercado em detrimento das vidas das pessoas, torna-se ainda mais cruel nesse contexto de pandemia, especialmente para as pessoas mais vulnerabilizadas, que sequer conseguem ter acesso ao auxílio emergencial, sendo expostas à fome e à morte.”.

O CNS aponta que o “governo federal continua assumindo sua atitude genocida, negando a pandemia, colocando-se como adversário da ciência”, o que classificou de atitude de “total desprezo pela vida da população”, e de atitude “genocida”, ao negar a pandemia do coronavírus no país.

Descabida

O conselheiro do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), Gilney Guerra, classificou a incitação de invasão de hospitais de “descabida”. Guerra alertou que eventuais captações de imagens, podem ser consideradas ilegais e clandestinos, além de chamar atenção a existência de órgãos que têm por finalidade apurar tais denúncias.

“É descabida estimular as pessoas a entrarem em hospitais e fazerem vídeos. Até porque podem ser produzidos vídeos ilegais e clandestinos. É um estímulo a produção de fake news. Há meios legais para investigar se há desvios. Tem Ministério Público, tem a polícia. É descabido o presidente incentivar esse tipo de ato, que consideramos algo clandestino.”, afirmou Guerra.

Invasor do bem

No DF, o deputado distrital, Jorge Vianna (Podemos), visitou o Hospital Regional de Taguatinga (HRT), na manhã de sábado (13/Jun)(Veja Aqui). O parlamentar visitou obras de reforma na unidade de saúde que deve permitir a destinação do Pronto-Socorro (PS) para pacientes com Covid-19.

Com paramentação adequada, Deputado distrital, Jorge Vianna realizou fiscalização no hospital de Campanha do Estádio Nacional Mané Garrincha: Foto Divulgação

Vianna, que preside a Comissão de Educação, Saúde e Cultura (CESC), da Câmara Legislativa do DF (CLDF), já foi taxado de invasor, por visitar unidades de saúde, a exemplo da realização de fiscalização no Parque de Apoio, ou ainda no hospital de campanha instalado no Estádio Nacional Mané Garrincha. Porém, em ambos os casos, o deputado fiscalizava denúncias de falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

Vale observar que, no que tange a pandemia do coronavírus, no DF, Vianna, sempre se posicionou, com firmeza, para garantir que os trabalhadores da saúde, recebam EPIs, para lidar na linha de frente no controle da pandemia. E, em todos os casos, o parlamentar esteve com a devida paramentação, para adentrar  as unidades de saúde.

Um exemplo do resultado dessas fiscalizações, ocorreu no Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), em que por intervenção do deputado, juntamente com o Sindicato dos Auxiliares e Técnicos em Enfermagem do DF (SINDATE-DF), Vianna conseguir intermediar, a transferência, por parte da Diretoria de Vigilância Ambiental do Distrito Federal (DIVAL), ligada a Subsecretaria de Vigilância Sanitária (SVS) da SES-DF, o envio de 100 macacões impermeáveis, aos servidores do HRAN, que atendiam pacientes internados na UTI do hospital, sem paramentação adequada.

Protocolos de segurança

Vianna, que é enfermeiro e técnico em enfermagem, alertou para os riscos de pessoas que eventualmente, deem ouvidos à sugestão de Bolsonaro, de invadir unidades de saúde, sobretudo no momento em que o país lida com a pandemia do coronavírus.

“Aqui no DF, volta e meia, sou chamado de invasor, mas não tenho em minha agenda visitas a serem feitas a unidades de saúde. Quando vou a alguma delas é para apurar denúncias graves. Como sou enfermeiro e técnico em enfermagem, conheço e respeito os protocolos de segurança, então quando adentro uma unidade de saúde, o faço, devidamente paramentado. E, nesse momento, em que convivemos com a pandemia do coronavírus, entrar em uma unidade que atende pacientes de Covid-19, coloca o risco pacientes, servidores e as próprias pessoas.”, afirmou.