Bolsonaro: de sabotador do coronavírus a sabotado por Trump

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Por Kleber Karpov

Com as alcunhas de negacionista em relação a pandemia do coronavírus (Covid-19), e, desinformado por afirmar que o país teria no máximo 800 mortes, ao utilizar a epidemia do H1N1, como referencia, o presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido), conquistou a pecha de sabotador da luta para o combate ao Covid-19 no país.

Ao som de frases: “E daí”, “não sou coveiro”, “é uma ‘gripezinha’” ou “é o destino”, para se referir a números de casos, ou de óbitos causados pelo Covid-19, a população brasileira e o mundo assistem, estarrecidos, a escalada para mais de 600 mil casos confirmados, e mais de 34 mil óbitos no país.

Números esses que colocam o país, na segunda posição em número de casos confirmados, e de mortes por Covid-19, em um único dia. Escalada que também projetam o Brasil ao novo epicentro da pandemia.

Aliás, a negação de Bolsonaro é um dos diversos fatores que corroboram para as diversas medidas que o lançaram ao título de sabotador da pandemia. Caso esse que se somado a ineficiência, deliberada ou não, de órgãos subordinados a vontade do presidente, contribuem para elevar o país a um caos sanitário, quase exclusividade do Brasil e potencializar um econômico, a ser menos sentido, por mais impactante que seja, em todo mundo. Uma total falta de exemplo, ao povo brasileiro e ao mundo, em relação a como se comportar, na condição de liderança e expressão máxima do país, situações que valem a pena serem pontuadas:

  • Seja em relação ao isolamento social, sempre a promover ou se misturar a aglomerações de admiradores;
  • A falta de uso de máscara para proteção pessoal e dos interlocutores que interagem diariamente com o presidente;
  • Ao liberar ‘a conta-gotas’, recursos que serviria de suporte a estados e municípios para lidar com a pandemia;
  • Ao tentar responsabilizar esses entes institutos, dado a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), pelo insucesso da contenção da disseminação do vírus;
  • O descaso inicial em relação a assistência à população, por meio do auxílio emergencial ao sugerir a oferenda de R$ 200 à camada vulnerável da população brasileira, alterado para R$ 600 após ameaça do Congresso aprovar R$ 500;
  • A falta de atuação enérgica, para garantir a chegada dos recursos desse socorro, a quem de fato precisa, em tempo hábil e sem promover aglomerações em filas de bancos em todo país;
  • As trocas do ministro da saúde, em meio a pandemia, e a manutenção de um general especializado em logística, na condição de interino à frente do Ministério da Saúde, no auge da crise do coronavírus;
  • Tentar impor a Cloroquina e Hidroxicloroquina, por mais controverso que seja, sem endosso científico quanto a eficiência, além de poder causar efeitos colaterais graves e até mortes, como método de tratamento para curar casos de infecções por Covid-19;
  • A falta de suporte, burocracia e baixa liberação de recursos e de acesso a créditos a empresários para possibilitar dar sobrevida aos negócios, minimizar demissões e garantir manutenções de empregos;
  • O estímulo aos empresários para pressionarem governadores e prefeitos para a reabertura de comércio, durante e no auge da pandemia;
  • A tentativa de positivar um estado caótico, ao tentar contrapor mortes de milhares de pessoas em contraponto as salvas, sobretudo porque é de conhecimento público que apenas um percentual pequeno de pessoas que precisam de intervenção médica intensiva, de fato vão a óbito;
  • A tentativa de dificultar à imprensa, a divulgação de números consolidados, das secretarias estaduais de saúde, para a população, como se tal medida, mudasse a realidade ou impossibilitasse que tais dados sejam apurados nos estados;

Enfim, em cinco, seis meses, desde a chegada da pandemia do Covid-19, no país, embora com alguns tropeços, o Brasil se moveu, em um primeiro momento, a exemplo dos demais países. Mas sob o discurso da negação e da manutenção da economia, Bolsonaro conseguiu enterrar o próprio governo.

Ao impor vontades, se contrapor à práticas que se mostraram eficientes em outros países, questionar a Organização Mundial de Saúde (OMS), Bolsonaro engatou o país em uma marcha-ré.

Ao se expor, física e politicamente, o líder máximo da nação mandou aos cidadãos comuns, um simples “E daí?”, em relação a pandemia, quando deveria reforçar a velha prática dos bons quartéis, do “vamos manter a casa em ordem”.

Com isso, Bolsonaro apenas ampliou, duas, talvez três vezes, o tempo necessário para estancar a pandemia no país, e o mais, grave, aumentou gastos, de forma ineficiente, tanto com auxílio emergencial como ao suporte aos novos desempregados. Além de ampliar o caos econômico, por comprometer e retardar temporalmente a retomada das atividades comerciais no país e o fechamento de vários CNPJs.

Por outro lado, sem adentrar a questão econômica, do topo da pirâmide, e em situação mais confortável, o presidente dos EUA, Donald Trump, reitera e acentua um duro recado a Bolsonaro, um dos principais adoradores do Tio Sam.

“Se você olha para o Brasil, eles estão num momento bem difícil. E, a propósito, eles falam muito da Suécia. Isso voltou a assombrar a Suécia. A Suécia está tendo um momento terrível. Se tivéssemos agido assim, teríamos perdido 1 milhão, 1,5 milhão, talvez 2,5 milhões ou até mais”, disse Trump.

No início, o chefe da nação brasileira minimizou a pandemia, ao sugerir que o país dificilmente alcançaria de 800 mortes, ao fazer referência a epidemia do H1N1. Ainda nessa semana, o Brasil deve chegar os 35 mil.

Mas Trump, a exemplo do discursos de vários especialistas, sabe que com o escalonamento progressivo, chegar a um milhão, dois milhões de óbitos é possível. Resta saber, se Bolsonaro, diante desse cenário, deve apenas voltar a lamentar, determinar a obrigatoriedade do uso da cloroquina, ou ter mais uma ‘gripezinha’, ou fazer curso de coveiro para ajudar a enterrar os mortos.

Embora meio tardio, um bom caminho, colocar os 26 estados da federação à mesa, além do Distrito Federal, e tratar a pandemia com a seriedade que o coronavírus exige. Só assim para acabar com o Covid-19 no Brasil.