Reinauguração de  Pediatria do Gama pode demonstrar fragilidade na reformulação da Atenção Primária

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Sem efetivo de médicos da família, presidente do SINDMÉDICO-DF e Jofran Frejat mostram fragilidades do ‘reinventar da roda’

Por Kleber Karpov

Um dia após a reinauguração da pediatria no Hospital Regional do Gama (HRG), a Rede Globo constatou que mães com bebês com menos de um ano tiveram que, com classificação de risco amarela, aguardar até nove horas para receber atendimento. Ao ser procurado pela reportagem do DFTV DF, após exibição dos problemas no Bom Dia DF, o secretário de Estado de Saúde do DF (SES-DF), Humberto Lucena Pereira da Fonseca, atribuiu o problema ao excesso de demanda, mas também apontou outra fragilidade, criticada por especialistas em Saúde, em relação as mudanças naAtenção Primária à Saúde (APS).

Na ocasião da inauguração, Fonseca anunciou a capacidade de atendimento da pediatria do HRG. “Conseguimos os médicos o suficiente para fechar todas as escalas do Hospital do gama que reabre hoje com 100% da sua capacidade para atendimento da pediatria.” afirmou Fonseca.

Porém, ao ser questionado pela equipe do DFTV sobre a demora nos atendimentos, além de mencionar o excesso de demanda, com atendimento de 129 crianças, dessas 60 no período noturno, por ocasião da reabertura da pediatria, Fonseca também apontou a inexperiência dos pediatras contratados para atender na unidade.

“A implantação do serviço, é um  novo serviço, com novos servidores, tem gerado um tempo maior de atendimento. Mas nós já estamos enviando servidores mais experientes para auxiliar as novas servidoras que foram incorporadas como pediatras no Hospital para  com isso aumentar a velocidade do atendimento e com isso, dar conta da fila.”, afirmou Fonseca.

Me Desculpe

A boa notícia é que, aparentemente, a SES-DF demonstra que cometeu um erro. Ao menos o deixou transparecer com a publicação de Nota de Esclarecimento, publicado no site da Secretaria.

“A reabertura da pediatria do Hospital Regional do Gama acabou gerando uma demanda muito acima do esperado, de pacientes vindos principalmente das cidades do entorno e classificados como de baixa gravidade (verdes e azuis). Tal situação vem causando lentidão no atendimento. A Secretaria de Saúde está envidando todos os esforços, inclusive com reforço das equipes, para lidar com essa situação. Pede, porém, desculpas à população por eventuais problemas. A Secretaria de Saúde reforça pedido à população para que, nos casos de menor gravidade, evite o Hospital e procure as unidades básicas de saúde durante a semana, como forma de evitar demoras desnecessárias.”.

Mas, na Atenção Primária…

A SES-DF conta com cerca de 70 médicos com formação em Medicina da Família, número insuficiente, segundo especialistas em Saúde Pública, para a SES-DF aumentar a cobertura da APS de cerca de 30% para 70% em um ano.

Nesse contexto, o presidente do Sindicato dos Médicos do DF (SINDMÉDICO-DF), Gutemberg Fialho, em entrevista ao ex-secretário de Saúde do DF, Jofran Frejat, responsável pela estruturação da saúde do D na década 60. Ambos acenderam o sinal de alerta vermelho para a reformulação da APS.

Entre as críticas, além da falta de médicos da família e de outras especialidades, a proposta paliativa de ‘especializar’ médicos em um período de seis meses, na opinião de ambos, podem aumentar ainda mais o gargalo do atendimento na AP, uma vez que Fonseca pretende converter os atuais Centros de Saúde no Programa Saúde da Família.

“Estão  propondo essas medidas que estão causando uma série de transtornos e diminuindo a assistência porque esse modelo que querem implantar tirando especialistas não vai melhorara a assistência não. Vai aumentar a desassistência, vai diminuir a resolutividade e com certeza os indicadores de saúde da cidade, vão diminuir.”, afirmou Fialho.

O sindicalista apontou ainda uma suposta ‘pegadinha’ na Estratégia Saúde da Família (ESF). Para Fialho, em vez de aumentar a quantidade de médicos da família, a gestão da SES-DF pretende chegar ao número ‘mágico’ de 70% de cobertura, migrando especialistas da rede para atuar na ESF.

“A assistência hoje cobre 30% da Estratégia Saúde da Família. O restante, da cobertura para chegar aos 60% a 70% hoje, são dos especialistas que ele quer levar para os hospitais. O modelo vigente hoje, foi eficiente, foi eficaz, não está sendo por uma questões de gestão, até porque não tivemos até agora uma gestão eficaz nesse governo e está querendo se mudar de uma forma radical, atropelando, causando precarização de salário com corte de gratificações, remanejamento de servidores para exatamente, fazer de conta que fez a cobertura com equipes que não vão dar conta de atender a demanda da região e conseguir aumentar a arrecadação através do financiamento do sistema público de saúde.”.

Questionado pelo presidente do SINDMÉDICO-DF, Frejat, por sua vez lembrou a descontinuidade da falta de planejamento, uma vez que a cidade teve, por exemplo, o crescimento populacional, sem a readequação da Saúde do DF para comportar essa nova realidade. O ex-secretário falou ainda sobre a preocupação com a APS. Frejat foi categórico ao afirmar que a APS “caiu muito de padrão”, e explicitou a preocupação em relação a possível ‘intenção’ por trás de tal reformulação.

“Eu fico preocupado Gutemberg, eu quero dizer aqui minha preocupação, quando eu vi isso aí. Preocupado que o objetivo seja simplesmente para arrecadar mais, porque na verdade, quanto mais, grupos você tem completo do Saúde da Família, mais você recebe do ministério da Saúde, Eu não sei se é esse o programa, agora, seguramente, isso não é recurso o suficiente para melhorar a saúde não.”, ponderou Frejat.

Confira a entrevista com Frejat

TV SindMédico entrevista Jofran Frejat (21/02/2017)

#TVSindMédico: Ex-secretário de Saúde, Jofran Frejat, fala sobre Atenção Primária à Saúde no DF e responde perguntas, ao vivo, às 20h.

Posted by SindMédico-DF on Tuesday, February 21, 2017

Comissão Geral

O PSA e outras iniciativas da SES-DF deve ser debatido na próxima semana, dia 9 de março, às 15 horas, durante Comissão Geral na Câmara Legislativa do DF (CLDF). A Comissão foi referida pela deputada Celina Leão (PPS).

Com informações de SindMédico

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