Por Kleber Karpov
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes determinou a transferência imediata do ex-presidente Jair Bolsonaro para a Sala de Estado Maior do 19º Batalhão da Polícia Militar (PMDF), conhecida como ‘Papudinha’, nesta quinta-feira (15). A decisão frustra a estratégia da defesa, que pleiteava prisão domiciliar humanitária, e estabelece o local de cumprimento da pena de 27 anos e três meses por tentativa de golpe de Estado. O magistrado ordenou ainda a avaliação imediata de uma junta médica oficial.
Ironia do destino
A transferência expõe um contraponto histórico entre diversos discursos punitivistas sustentados por Bolsonaro ao longo da trajetória política e a realidade de sua custódia. O ex-mandatário do Palácio do Alvorada, que notabilizou-se por frases como “bandido bom é bandido morto”, “a Papula lhe espera”, além de críticas severas a direitos humanos aos presidiários, acabou por ter pedidos de regalias negados pelo STF.
Entre as solicitações recusadas, constava o acesso a uma Smart TV com YouTube. A defesa alegava que a cela anterior, na Superintendência da Polícia Federal, não oferecia “condições mínimas de dignidade”, apesar de contar com ar-condicionado, frigobar e 12m².
“Ressalte-se, entretanto, que essas condições absolutamente excepcionais e privilegiadas não transformam o cumprimento definitivo da pena […] em uma estadia hoteleira ou em uma colônia de férias”, escreveu Moraes na decisão, ao rebater as reclamações familiares sobre o “cativeiro”.
Estrutura na ‘Papudinha’
O novo alojamento no Complexo Penitenciário da Papuda oferece condições superiores às do sistema prisional comum, frequentemente criticado por superlotação. A Sala de Estado Maior possui 64,83 m², divididos entre área coberta e externa, com quarto, sala, cozinha, lavanderia e banheiro privativo com água quente.
Bolsonaro passa a contar com a companhia, em celas individuais na mesma área, de antigos aliados: Anderson Torres, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, e Silvinei Vasques, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal (PRF). A decisão permite a instalação de equipamentos de ginástica custeados pela defesa, mas mantém a proibição de comunicação livre com o ambiente externo.
Protocolos de saúde e visitas
A saúde do ex-presidente será monitorada por uma junta da Polícia Federal, com laudo previsto para os próximos dez dias. Moraes autorizou assistência médica integral e, em casos de urgência, o deslocamento imediato para hospitais. A alimentação poderá ser fornecida diariamente pela família, mediante cadastro prévio de responsável.
O regime de visitas foi estritamente regulamentado. A esposa, Michelle Bolsonaro, os filhos e a enteada terão acesso semanal às quartas e quintas-feiras. O ministro vetou a flexibilização irrestrita de horários, reiterando que as demais visitas devem seguir as normas padrão do sistema penitenciário do Distrito Federal.
Repercussão jurídica
A manobra da defesa, que utilizou as críticas às instalações da PF para fundamentar o pedido de prisão domiciliar, resultou em uma solução intermediária. Juristas avaliam que a concessão da Sala de Estado Maior cumpre a prerrogativa legal sem ceder à pressão política por cumprimento de pena em casa.
O episódio marca o início definitivo da execução penal do ex-presidente em um complexo prisional, simbolizando o revés institucional daquele que governou o país sob a bandeira do endurecimento penal.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal.










