A Amnésia do Capitão

Por Gustavo Frasão

Jair Bolsonaro, o homem que passou quatro anos dizendo que não tem filtro e agora finge que nunca disse nada, voltou à cena com seu número favorito: o da vítima injustiçada. Desta vez, com os olhos marejados e a voz embargada, pede anistia. Mas jura — e faz questão de repetir — que não é para benefício próprio.

Não é por ele. Claro que não. É “pela pacificação do Brasil”, diz o ex-presidente que passou o mandato inteiro jogando gasolina em cada incêndio político, institucional, sanitário e democrático que encontrou. A anistia, segundo ele, é um gesto nobre. Um gesto de grandeza. Um gesto cristão. Um gesto, enfim, que permitiria livrar da cadeia os seus devotos que trocaram a fé na democracia por um facho de vandalismo, um pau de selfie e um cocô no carpete do STF.

Bolsonaro, no papel de mártir da vez, repete que não planejou golpe nenhum. Que nunca tentou nada. Que não tinha ideia do que seus aliados estavam tramando nos bastidores. E, claro, como cereja da negação: que ele nem estava no Brasil no fatídico 8 de janeiro. Faltou só dizer que ficou tão chocado quanto Alexandre de Moraes com as imagens da destruição.

Vamos aos fatos, já que o ex-presidente tem sérias dificuldades com eles:

1. Os planos golpistas estavam prontos — por escrito.
Diversos documentos foram apreendidos pela Polícia Federal que detalham decretos de Estado de Sítio, propostas para prender ministros do Supremo e outras pérolas de um autoritarismo de quinta categoria. Um deles, inclusive, foi encontrado na casa do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid — um dos homens mais próximos do ex-presidente, que hoje colabora com as investigações. Bolsonaro não só teve acesso ao conteúdo como fez reuniões para discutir sua viabilidade e participou ativa e diretamente de tudo, inclusive com conversas registradas no WhatsApp e emails.

2. Ele pressionou as Forças Armadas até o último suspiro do mandato.
Chamou comandantes para reuniões no Alvorada, cooptou generais e tentou usar a máquina militar como extensão de seu projeto de permanência no poder, algo parecido com o Golpe de 64 e comportamento semelhante ao do Hitler. Fisicamente, inclusive, se parecem. A narrativa da “eleição roubada” era a cola emocional de um plano muito claro: sabotar a confiança na democracia e esticar a corda até onde desse.

3. O 8 de janeiro não foi um raio em céu azul.
Foi fruto de meses — quiçá anos — de incitação. O discurso do “fim da liberdade”, das “urnas fraudadas”, do “sistema apodrecido” foi sistematicamente repetido por Bolsonaro, seus filhos e seus comparsas. As pessoas que invadiram a Praça dos Três Poderes não acordaram revoltadas do nada. Elas foram alimentadas, dia após dia, por uma fábrica de mentira e ressentimento com CNPJ. Aliás, se houve fraude nas urnas, por que ficaram limitadas ao cargo de presidente? A fraude não aconteceu para os deputados, senadores e governadores recém-eleitos no mesmo pleito?

4. O fato de estar em Orlando não faz de ninguém inocente.
O chefão do crime não precisa segurar o revólver. Bolsonaro sabia o que estava sendo preparado, dando aval e orquestrando tudo do ponto de vista estratégico e tático. Sabia dos acampamentos golpistas diante dos quartéis. Sabia da movimentação. E não só não agiu para impedir — como também não condenou de imediato. O silêncio cúmplice e o fingimento de surpresa foram parte do script, digno de um ator de Hollywood. Entenda: chefe do crime organizado não precisa estar presente no operacional, ele faz e comanda tudo à distância em qualquer lugar do planeta.

5. Se não é para benefício próprio, por que tanta insistência?
Ora, porque o cerco apertou. Porque está inelegível. Porque tem medo de ser preso e sabe que o será, porque existem provas robustas. Porque, ao contrário do que diz, sabe exatamente onde estava, com quem se reuniu, o que assinou, o que autorizou, o que planejou, o que tentou e o que sugeriu. E sabe também que sua participação não foi periférica — foi central.

Bolsonaro agora quer o título de pacificador. Quer apagar tudo com um gesto simbólico — e absolutamente conveniente — de “anistia”. Mas o nome disso não é pacificação. É escárnio. É zombaria com o Estado de Direito. É egoísmo, pensando apenas em si próprio e não nos “bobos da corte”, como ele próprio disse.

Anistia é para quem comete erro e admite. É para quem se arrepende. É para quem deseja recomeçar. O que Bolsonaro quer não é anistia. É apagar as digitais do crime com a manga da camisa e tirar a marca de batom no em seu colarinho branco. É usar o perdão como escudo para escapar da própria biografia.

Não, capitão. A história não vai deixar barato. E a democracia — essa senhora calejada, mas ainda de pé — também não. Tic tac.


Gustavo Frasão
Jornalista


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