Crise na Oncoclínicas expõe dívida de R$ 5,7 bilhões e disputa bilionária entre acionistas

Embate societário envolve decisão da CVM sobre oferta pública e impactos no atendimento a pacientes com câncer em meio a perdas no Banco Master

Por Kleber Karpov

O diretor-executivo financeiro da Oncoclínicas, Maurício Leonardo Hasson, protocolou na Justiça, nesta quinta-feira (29/Out), a atualização do plano de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 5,7 bilhões em dívidas da rede de saúde, com sede administrativa em São Paulo. A medida ocorre para evitar a falência ou a recuperação judicial da companhia, após o agravamento do passivo decorrente de aquisições alavancadas, perdas financeiras na liquidação do Banco Master e disputas societárias por uma oferta pública de aquisição de ações (OPA).

A crise financeira atingiu a operação das mais de 140 unidades da rede no primeiro semestre de 2026. O atraso no repasse de quase R$ 1 bilhão ao principal fornecedor de medicamentos provocou o desabastecimento de insumos básicos para quimioterapia e levou à queda de 30% no volume de procedimentos realizados no segundo semestre.

Em declaração à imprensa, a coordenadora de projetos Roberta Impelizieri, paciente oncológica há quase dez anos em Belo Horizonte, relatou a interrupção do tratamento em abril por falta de estoque na unidade. Ela decidiu migrar para outra clínica após sucessivos problemas administrativos na liberação de remédios.

“Eu estava com a minha medicação já aprovada pelo meu plano de saúde e, quando eu cheguei para fazer a medicação, simplesmente não tinha. Eu até achei que era uma situação recorrente, porque na Oncoclínicas acontecia diversas vezes de eu chegar e eles falarem: ‘Olha, o plano de saúde não aprovou a medicação, volta depois’. E eu batia o pé e não saía de lá, porque eu sabia que o erro era administrativo”, disse Roberta Impelizieri.

A repórter de economia do UOL, Mariana Desidério afirmou, em transmissão de vídeo (30 de outubro), que a fragilidade de caixa mantém os representantes das operadoras de planos de saúde em alerta. Apesar de os administradores terem garantido um aporte emergencial de R$ 150 milhões da gestora MAK Capital para a compra de insumos, a estabilidade do fornecimento depende da homologação do acordo com os credores pelo juiz da 3ª Vara de Falências de São Paulo.

A conexão com o Banco Master e auditoria

O desequilíbrio das contas se acentuou entre 2024 e 2025, quando os balanços do grupo registraram prejuízo de R$ 3,6 bilhões após uma inadimplência de R$ 800 milhões da Unimed Ferj e gastos em contratos de construção de hospitais firmados com o empresário Lucas Kallas. Para recompor o caixa durante a saída dos gestores do banco Goldman Sachs da sociedade, o fundador da companhia, Bruno Ferrari, articulou um aumento de capital de R$ 1,5 bilhão com o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

A colunista econômica Mariana Barbosa explicou que os executivos aplicaram os recursos captados em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) da própria instituição financeira de Vorcaro. Com a decretação da liquidação do Banco Master pelos diretores do Banco Central, cerca de R$ 430 milhões do caixa da rede de clínicas ficaram retidos sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Um grupo de médicos e acionistas minoritários, detentor de cerca de 3% do capital social, enviou uma notificação extrajudicial aos gestores para cobrar uma auditoria independente sobre o uso dos recursos. Os profissionais questionam despesas de R$ 50 milhões em viagens corporativas operadas pela agência BeFly, empresa que recebeu investimentos do grupo de Vorcaro, além de contratos imobiliários que geraram cobranças de R$ 2,4 bilhões por parte de Kallas.

A disputa bilionária pela oferta pública

Paralelamente à tentativa de renegociação do passivo, os acionistas travam uma disputa em torno de uma cláusula estatutária que obriga a realização de uma OPA caso um investidor ultrapasse a fatia de 15% do capital. O embate teve início quando os gestores do fundo Josephina III, ligado à gestora Centaurus, passaram a deter 16% das ações após o desmembramento de veículos de investimento compartilhados com o Goldman Sachs em novembro de 2024.

O gestor Renato Azevedo, da Latache Capital, ingressou na companhia ao lado dos representantes do Fundo Lúmen e do Banco Original e acionou os diretores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para exigir o disparo da oferta pública. Embora os técnicos da autarquia tenham descartado a obrigação por se tratar de reorganização sem compra de papéis, o presidente da CVM, Otto Lobo, e os diretores João Accioly e Igor Muniz votaram pela obrigatoriedade da operação, cujo custo é estimado entre R$ 6 bilhões e R$ 14 bilhões.

“A decisão de obrigar a fazer ela é inédita na história da CVM, quer dizer, não tem precedentes. E, para piorar, a cada voto dos diretores, foram três votos a favor e uma abstenção. Os três diretores, o Igor Muniz, João Accioly e o presidente, o Otto Lobo, cada um deu uma interpretação diferente sobre o preço, quando, quem vai se beneficiar e quando isso vai fazer”, afirmou Mariana Barbosa.

Como as ações acumulam queda de 93% desde a abertura de capital em 2021, a exigência permitiria aos atuais detentores vender papéis desvalorizados pelo preço de 2024. Os advogados da Centaurus obtiveram uma liminar judicial, na quarta-feira (28 de outubro), que suspendeu os efeitos da decisão dos dirigentes da CVM e levou ao cancelamento da assembleia geral extraordinária que votaria a suspensão dos direitos políticos dos gestores do fundo Josephina III.

O posicionamento dos dirigentes da Oncoclínicas

Em fato relevante assinado na quinta-feira (29 de outubro), o diretor Maurício Leonardo Hasson informou que o plano de recuperação extrajudicial já obteve a adesão de credores que representam 29,79% da dívida quirografária de R$ 5,7 bilhões. O executivo declarou confiar que os administradores devem alcançar o quórum legal para a homologação judicial e ressaltou que os fornecedores de medicamentos foram excluídos do congelamento de pagamentos para preservar a assistência médica.

O diretor-presidente interino da companhia, o médico oncologista Carlos Gil Moreira Ferreira, que assumiu o comando após a saída de Bruno Ferrari da diretoria executiva em fevereiro e do conselho em abril, declarou que a prioridade administrativa é a reestruturação operacional e a venda de hospitais para focar nas clínicas ambulatoriais.

“Eu nem diria que a reestruturação operacional é o plano B. Esse é o plano A, ele está em curso neste momento. A mudança da estrutura de capital é que é tocada em paralelo. Temos mais de 140 clínicas instaladas, corpo clínico estável e acordos com operadoras. Não precisamos de capex. É simplesmente explorar a estrutura que já existe”, disse Carlos Gil Moreira Ferreira.

Sobre os questionamentos dos médicos acionistas e a cobrança de investigação interna, os diretores da empresa informaram ao mercado a contratação dos auditores da Ernst & Young (EY) e dos advogados do escritório TozziniFreire para revisar contratos, custos e processos de governança. O fundador Bruno Ferrari declarou, por meio de seus representantes, que todos os deslocamentos e gastos em viagens corporativas durante sua gestão tiveram aprovação prévia dos membros do conselho de administração e atenderam a compromissos institucionais da rede.



Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894 Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Graduado em Jornalismo (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Criador do Comitê Virtual (www.comitevirtual.com.br), plataforma de gestão de campanhas eleitorais. Criador do PubliqueAi (www.publiqueai.com), primeira plataforma brasileira de produção técnica de textos jornalísticos ou jurídicos, com uso de Inteligência Artificial; Criador do Quero Meu Carro de Volta (www.queromeucarrodevolta.com.br), lançado em 2012. Serviço de utilidade pública para vítimas de roubos e furtos de veículos em todo o país; Ex-produtor e apresentador do programa Panorama Político na Rádio Federal;

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