Por Kleber Karpov
O café ainda estava quente na mesa do Palácio da Alvorada quando Geraldo Alckmin entrou na sala segurando três folhas impressas, com os olhos arregalados por trás dos óculos.
— Presidente, o senhor viu isso aqui? O Flávio mandou uma carta lá de Miami dizendo que não fugiu, que saiu pelo país e que é o verdadeiro presidente eleito! E olha o brasão que o Eduardo e o neto do general Figueiredo botaram no cabeçalho pelo ChatGPT: Estados Unidos do Brazil, com “Z”, lá de 1889! É incompreensível, eu nunca vi uma coisa dessas!
Lula pegou o papel, ajeitou o paletó, olhou o brasão com “Z” e abriu aquele sorriso de quem acabara de ganhar um presente de aniversário atrasado.
— Mas Geraldo, você não entendeu a genialidade dos meninos! Você está olhando com cabeça de médico, tem que olhar com cabeça de diplomata. Durante a campanha inteira eu achei que a gente estava disputando o mesmo país. Agora está explicado! Eu ganhei a eleição na República Federativa do Brasil, com “S”, aqui na América do Sul, com quatro milhões e quatrocentos mil votos de frente. E ele ganhou a eleição nos Estados Unidos do Brazil, com “Z”, que fica lá em Miami! Tanto é verdade que quem fez o brasão foi a inteligência artificial — porque da natural, naquela turma, o estoque acabou faz tempo. Me passa o telefone aí que eu vou cumprimentar o meu colega chefe de Estado!
Dois minutos depois, num condomínio com ar-condicionado no talo na Flórida, o celular de Flávio Bolsonaro tocou. Na sala ao lado, Eduardo Bolsonaro ainda batia boca com a tela do computador tentando entender o que era a República Velha, enquanto Paulo Figueiredo ajeitava o topete diante da câmera achando que tinham acabado de derrubar a República pelo PDF. Flávio atendeu tremendo, achando que era o Alexandre de Moraes cobrando o passaporte ou perguntando das bets do amigo Willer Tomaz.
— Hello? Quem fala?
— Ô, companheiro Flávio! Aqui é o Lula, presidente da República Federativa do Brasil, aquela com “S”! Tudo bem por aí no estrangeiro?
Flávio engoliu em seco: — Olha aqui, eu já escrevi na carta que houve uma impossibilidade matemática, que prorrogaram a votação depois das cinco da tarde e que eu saí para liderar a resistência igual ao Charles de Gaulle e ao Juan Guaidó!
— Calma, rapaz, não precisa ficar nervoso! — interrompeu Lula, num tom paternal e solto. — Eu não tô ligando pra brigar, tô ligando pra dar os parabéns! Recebi seu manifesto aqui com o selo imperial-republicano que o Dudu pediu pro robô desenhar. Coisa fina! Quero saudar a fundação dos Estados Unidos do Brazil com “Z” aí na Flórida! Resolveu o nosso problema: eu governo os brasileiros daqui, você governa os brazileiros daí, o Rogério Marinho fica feliz no Senado e todo mundo descansa em paz! Agora, como país vizinho, eu quero mandar um embaixador do Brasil com “S” pra abrir representação diplomática aí no seu Brazil com Z. Só que o Itamaraty tem regras, né, companheiro? Eu preciso saber se o seu país novo vai ser uma democracia de verdade.
Do outro lado da linha, fez-se um silêncio de velório. Lula continuou, saboreando cada sílaba:
— Me tira uma dúvida institucional, presidente Flávio: aí nos Estados Unidos do Brazil vai ter eleição com urna ou toda vez que vocês perderem por quatro milhões e meio de votos o Eduardo vai abrir o ChatGPT, pedir um brasão do século XIX e declarar vitória no grito? Outra coisa: como é que funciona a oposição aí em Miami? Porque aqui no Brasil com “S”, quando eu perdi pro Collor e pro Fernando Henrique duas vezes, eu fiquei aqui. Quando o Alckmin e o Serra perderam pra mim, ficaram aqui também. Até quando me prenderam por 580 dias, eu entreguei meu passaporte e fiquei pra provar minha inocência, porque quem não deve, não teme! Aí na sua democracia de condomínio, quando o sujeito perde a eleição e a Polícia Federal bate na porta, a Constituição manda gravar vídeo na segunda dizendo que nunca vai fugir e atravessar a ponte na terça de noite com passaporte italiano no bolso?
— É que aí tem um regime de exceção! — gaguejou Flávio, olhando desesperado para Paulo Figueiredo, que fazia mímica no fundo da sala. — Eu vim buscar segurança jurídica!
— Eu imagino a maravilha que deve ser a segurança jurídica e a democracia num país onde o chanceler oficial que distribui a carta presidencial é o neto do general Figueiredo, o último ditador militar! Vocês já reeditaram o AI-5 em inglês ou deixaram o ChatGPT traduzir? E me conta: se o cidadão do Brazil com Z for investigado por lavar dinheiro de casa de apostas na Ilha da Madeira ou por rolo no financiamento daquele filme Dark Horse, aí em Miami é crime ou vira ministro da Fazenda?
Antes que Flávio pudesse responder, ouviu-se um chiado na linha e uma voz grave, carregada de sotaque nova-iorquino e profunda exaustão, entrou na conversa. Era Donald Trump, que mandara grampear o telefone do hóspede.
— Lula, please, help me! — desabafou Trump, quase chorando no fone. — Eu falei na campanha que ia acabar com a invasão de imigrantes ilegais nos Estados Unidos, mas ninguém me avisou da invasão da família Bolsonaro! Primeiro chegou o Eduardo em 2025, alugou o ouvido do Marco Rubio e ficou o dia inteiro pedindo tarifaço pra tentar salvar o pai. Depois juntou esse neto de general fazendo live e mais uma dúzia de foragidos. Agora desembarca o Flávio com mala, família e um documento do ChatGPT fundando um país novo dentro de Miami sem me pagar um centavo de IPTU! Os democratas no Congresso já estão me massacrando, dizendo que eu fecho a porta pro Sudão e pro Haiti pra estender tapete vermelho pra político brasileiro fugido da Polícia Federal!
Lula caiu na gargalhada no Alvorada:
— Ô, Donald, eu avisei! Você achou que eles iam só passear na Disney, agora aguenta a colônia! Mas como eu sou um homem do diálogo, vamos fechar um tratado comercial entre os três países agora mesmo: a República Federativa do Brasil, os Estados Unidos da América e o condomínio dos Estados Unidos do Brazil!
— Qual é a proposta? — perguntou Trump, agarrando-se à tábua de salvação.
— É simples — ditou Lula. — Nós aqui do Brasil com “S” exportamos café, picanha e uma caixa de dicionários atualizados depois de 1931, pra ver se o Eduardo e o Figueiredo aprendem a escrever Brasil com “S” sem depender de inteligência artificial. Em troca, você cancela aquele tarifaço ridículo que o Eduardo inventou no ano passado, e nós cedemos para o Brazil com Z o monopólio mundial de exportação de discurso de Guaidó e de graxa de sapato.
— Graxa de sapato? — estranhou Flávio na linha.
— Claro, companheiro! — encerrou Lula, piscando para Alckmin. — Porque o Brasil de verdade nunca foi a primeira pátria de vocês; a primeira pátria da família sempre foi lamber botas dos Estados Unidos! Agora, com três de vocês morando aí de vez, se não tiver um tratado comercial garantindo o estoque de graxa em Miami, não vai sobrar uma bota do Trump com verniz até o fim do mandato! Um abraço, bom governo aí no seu Brazil com Z, e vê se da próxima vez assina o ChatGPT pago pra não passar vergonha!














