Setembro Amarelo: Quando o futuro perde a cor: incapacidade de sonhar pode ser sinal de sofrimento psíquico

Professora de Psicologia da Estácio Brasília explica que o esvaziamento persistente dos desejos e das expectativas merece atenção, mas alerta: saúde mental também depende das condições concretas de vida

Da Redação

Em uma rotina dominada por trabalho, contas, notificações, responsabilidades familiares e problemas que exigem solução imediata, pensar no futuro pode parecer um luxo. Aos poucos, os planos são adiados, os desejos encolhem e a vida passa a ser conduzida apenas pelas urgências do presente. Neste Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio e à valorização da vida, a perda gradativa da capacidade de sonhar surge como um sinal importante de sofrimento psíquico. Especialmente, quando se torna persistente.

Segundo a professora de Psicologia da Estácio Brasília Thayene Belo, nem todo período sem grandes projetos significa adoecimento. O alerta aparece quando a pessoa já não consegue imaginar experiências capazes de despertar interesse ou expectativa.

“Perder momentaneamente a capacidade de ‘sonhar’ não significa necessariamente estar adoecido. Mas merece atenção quando a pessoa percebe que deixou de desejar de forma persistente, não consegue mais imaginar nada que lhe produza expectativa ou interesse e passa a enxergar o futuro apenas como repetição das dificuldades atuais”, explica.

A falta de esperança é reconhecida pelo Ministério da Saúde como um dos sinais que podem estar presentes em situações de risco. Pessoas em sofrimento intenso podem desenvolver uma visão profundamente negativa da própria vida e do futuro. O órgão ressalta, entretanto, que nenhum sinal deve ser analisado isoladamente e que o suicídio é um fenômeno complexo, influenciado por fatores individuais, sociais, culturais e econômicos.

Dados do Ministério da Saúde mostram a dimensão do problema no Brasil. Em 2021, foram registrados 15.507 suicídios no país,  o equivalente a uma morte a cada 34 minutos. Entre 2010 e 2021, a taxa de mortalidade por suicídio cresceu 42%, passando de 5,2 para 7,5 casos por 100 mil habitantes. Naquele ano, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos e a quarta entre jovens de 20 a 29 anos.

Em escala mundial, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa é a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. A entidade destaca que conflitos, violência, perdas, isolamento, discriminação, dificuldades financeiras e problemas de relacionamento também estão associados ao comportamento suicida.

Thayene Belo, professora de Psicologia da Estácio Brasília – Foto: Divulgação

Sonhar também depende das condições de vida

Para Thayene, a possibilidade de projetar o amanhã não depende exclusivamente de disposição ou força de vontade. Ela também é atravessada pelas condições materiais e sociais nas quais cada pessoa está inserida.

“A capacidade de imaginar o futuro também depende das condições que temos para viver o presente. Por isso, saúde mental não pode ser discutida apenas em termos individuais. Trabalho, renda, vínculos, acesso ao cuidado, violência, discriminação e condições concretas de vida também participam da forma como uma pessoa consegue construir esperança e projetos”, afirma.

A observação coincide com a abordagem da OMS e do Ministério da Saúde, que tratam o suicídio como um fenômeno de múltiplas determinações. Perda de emprego, sofrimento no trabalho, crises econômicas, discriminação, conflitos familiares, violência e perda de pessoas próximas podem aumentar a vulnerabilidade, sobretudo quando se somam a outros sinais de sofrimento.

A rotina permanentemente orientada para a sobrevivência também consome recursos emocionais. “Quando grande parte da energia psíquica fica ocupada em dar conta do presente, pode sobrar pouco espaço para imaginar possibilidades, desejar alguma coisa ou construir projetos que ainda não têm uma utilidade imediata”, observa a professora.

O desaparecimento dos pequenos desejos

Não ter uma grande ambição ou um projeto de vida perfeitamente definido não é, por si só, motivo de preocupação. De acordo com Thayene, é preciso diferenciar a ausência de um “grande sonho” da incapacidade de desejar qualquer coisa.

“Nem todo mundo precisa ter uma missão grandiosa, uma carreira ideal ou um projeto de vida perfeitamente definido. O problema é quando desaparecem até os pequenos movimentos em direção ao futuro: vontade de encontrar alguém, conhecer um lugar, aprender alguma coisa, terminar um projeto, descansar, comemorar uma data”, esclarece.

Essas pequenas antecipações ajudam a organizar a relação com o tempo e dão continuidade à experiência de viver. Quando desaparecem de forma duradoura e vêm acompanhadas de isolamento, alterações de comportamento, perda de interesse por atividades antes prazerosas ou falas recorrentes de desesperança, é importante buscar apoio profissional.

Estudos científicos acompanham há décadas a relação entre desesperança e risco de suicídio. Uma pesquisa prospectiva com 1.958 pacientes, publicada no American Journal of Psychiatry, encontrou associação significativa entre níveis de desesperança e mortes posteriores por suicídio, reforçando a importância de considerar a visão negativa do futuro nas avaliações clínicas.

Quando o sonho se transforma em cobrança

A cultura da produtividade pode agravar esse esvaziamento ao reduzir os sonhos a metas mensuráveis. Ganhar mais, subir na carreira, alcançar determinado padrão corporal, viajar ou comprar bens passam a funcionar como parâmetros obrigatórios de realização.

“A pessoa já não pergunta apenas ‘o que faz sentido para mim?’, mas ‘o que eu deveria estar conquistando nesta idade?’. Isso pode gerar uma sensação contínua de insuficiência, mesmo quando há aspectos importantes da vida funcionando bem”, analisa Thayene.

Para a professora, recuperar a capacidade de sonhar não significa necessariamente elaborar um plano grandioso, mas voltar a reconhecer possibilidades que despertem desejo, curiosidade ou sentido.

“Talvez seja importante recuperar uma ideia mais ampla de futuro: não apenas aquilo que queremos conquistar, mas aquilo que ainda conseguimos imaginar como possível, desejável e digno de ser vivido”, conclui.

Quem atravessa sofrimento intenso pode procurar uma Unidade Básica de Saúde ou um Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Em situações de urgência, estão disponíveis o Samu, pelo telefone 192, as UPAs e os prontos-socorros. O Centro de Valorização da Vida oferece escuta gratuita e sigilosa pelo número 188, durante 24 horas.

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