PV denuncia ameaças e perseguições contra mulheres candidatas. Problema reflete recorrência em outras agremiações partidárias

Candidatas mulheres candidatas são vítimas de ameaças, intinidações, perseguições, além de violência política, institucional e partidária

Por Kleber Karpov

A escalada de ataques contra candidatas mulheres nas eleições deste ano mobiliza partidos e entidades. O Partido Verde (PV) manifestou indignação diante dos episódios recentes de violência, perseguição e intimidação sofridos por duas de suas postulantes: a deputada estadual Lohanna Souza França Moreira de Oliveira, que concorre a uma vaga na Câmara Federal por Minas Gerais (MG), e Thabatta Pimenta de Medeiros Silva, candidata a deputada federal pelo Rio Grande do Norte (RN). As duas relataram ameaças e perseguições que evidenciam a insegurança enfrentada por mulheres no exercício de atividades políticas.

Lohanna Souza relatou ter recebido novas mensagens com teor de morte e violência sexual, enviadas para endereços eletrônicos associados ao seu nome. O autor dos ataques se identificou como o mesmo autor de ameaças feitas em 2023 e afirmou que, agora em regime semiaberto, cumpriria o que havia planejado anteriormente. A denúncia resultou em uma operação da Polícia Federal realizada em 11 de setembro, quando os agentes apreenderam o celular do suspeito. O caso segue sob investigação.

Perseguição no Rio Grande do Norte

Thabatta Pimenta por sua vez denunciou dois episódios de perseguição durante a campanha. No primeiro, ocorrido em Carnaúba dos Dantas, seu veículo foi seguido por outro carro. Dias depois, no trajeto entre Pau dos Ferros e Natal, no trecho que liga Patu, no Rio Grande do Norte, a Brejo do Cruz, na Paraíba, dois homens em uma motocicleta teriam se aproximado.

De acordo com informações da candidata, um dos ocupantes da moto bateu no veículo e o outro fez sinais para que ela parasse. Os dois casos foram registrados em boletins de ocorrência. Após os episódios, Thabatta Pimenta reforçou a segurança e passou a circular acompanhada de seguranças. Também deixou de divulgar antecipadamente sua agenda individual, para evitar que sua localização fosse conhecida.

Solidariedade e cobrança por punição

O PV manifestou solidariedade às duas candidatas e defendeu uma atuação firme das forças de segurança para impedir que as ameaças se transformem em novos crimes e novas vítimas. Em nota, a legenda afirmou ser inadmissível que mulheres sejam ameaçadas, perseguidas e intimidadas por exercerem atividade política. O partido cobrou investigação de toda e qualquer ameaça e punição rigorosa aos responsáveis, caso a autoria seja comprovada.

Além do Verde

Para além das fronteiras do partido verde, os casos de violência de gênero entre as candidatas mulheres reverberam também por outras bandeiras partidárias. Embora ocorra com mais frequência no espectro da esquerda, candidatas também ligadas a direita, também não escapam da prática. E, como um ingrediente a mais, em alguns casos de agressões e violência política algumas postulantes se tornam vítimas da própria agremiação partidária, a exemplo de candidatas que recorreram recentemente às redes sociais para reclamar de posturas, posicionamentos, omissões do próprio partido em que se lançaram candidaturas.

Esse é o caso da candidata, a influenciadora Vanessa Silva (PL-RJ), conhecida como “Negona do Bolsonaro”, que recorreu às redes sociais (4/Set), para relatar ter sido impedida de entrar na sede do partido, no Rio de Janeiro. A candidata, mostrou em vídeo uma barreira composta por cinco seguranças na entrada do edifício para impedir a passagem da postulante a vaga de deputada federal. “Formou-se um paredão com cinco, cinco seguranças aqui, e eu pedi pra que nenhum deles tocasse em mim”, disse ao declarar: “Eu fui tratada como um bolo de merda aqui dentro do Partido Liberal. Isso é inadmissível, tô sem voz”, concluiu.

Despreparo institucional e críticas à Justiça Eleitoral

Reportagem de Pública (14/Set)(Veja Aqui), reforça os casos de agressões, omissões, além de abordar o contexto histórico do desafio das mulheres em participar ativdamente da vida política do país. A exemplo do caso da deputada estadual Bella Gonçalves (PT-MG), que disputa uma vaga na Câmara Federal, denunciou que os órgãos responsáveis por amparar as candidatas vítimas de violência política de gênero, como a Justiça Eleitoral e a Polícia Federal, não estão preparados para enfrentar o problema. Ela é uma das mulheres candidatas que alertou ter recebido ameaças de morte e estupro nos primeiros dias de setembro.

Bella Gonçalves relacionou a violência política à violência de gênero estrutural no estado. “Minas Gerais é o segundo Estado que mais mata mulheres do Brasil [em números absolutos]. A violência política acompanha a violência de gênero, por isso que eu acho que, em Minas Gerais, é tão comum a violência política contra as mulheres”, declarou a candidata ao referenciar dados divulgados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026.

Em outro caso, a suplente ao Senado e advogada Fernanda Klitzke (PT-SC) foi agredida, chutada e alvejada por balas de borracha por policiais militares em Jaraguá do Sul(SC)(12/Set). As agressões ocorreram após uma denúncia de som alto. No mesmo dia, a deputada estadual Andréia de Jesus (PT-MG), candidata à reeleição, divulgou em suas redes sociais o recebimento de ameaças. Segundo matéria do site Alma Preta, Jesus foi ameaçada de morte, com conteúdo racista e de violência física, por meio de mensagem eletrônica.

A deputada federal Ana Elisa Santos Silva (PT-MG) também registrou boletim de ocorrência após receber mensagens com conteúdo de ódio racista e ameaças de morte e violência sexual em setembro. “A violência no Brasil [contra as mulheres] nunca parou; na verdade, ela está em crescimento”, afirmou.

Tentativas e ameaças de morte

Em 4 de setembro, a deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG), candidata à reeleição, usou suas redes sociais para denunciar agressões sofridas quando fiscalizava uma mineração ilegal na divisa de Belo Horizonte com o município de Nova Lima, seguidas por uma tentativa de homicídio.

Ana Elisa Silva, que concorre pela primeira vez a deputada federal (PT-MG), relatou a sensação de insegurança que persiste. “Eu fui ameaçada de morte, não tenho segurança, não tenho medida protetiva, não tenho absolutamente nada e não tenho dinheiro”, declarou. Mesmo após denunciar aos órgãos competentes e levar o caso ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas, ela afirma continuar insegura.

Falta de regulamentação e medidas protetivas

Bella Gonçalves alertou que as candidatas que estão entrando na política seguem muito desprotegidas para enfrentar a violência política de gênero. Apesar de contar com a presença de uma policial militar por ser deputada estadual, ela criticou a falta de regulamentação das leis que protegem mulheres na política institucional, tanto no âmbito dos tribunais eleitorais, por se tratar de crime eleitoral, quanto na legislação estadual de enfrentamento à violência política de gênero aprovada em Minas Gerais.

A deputada ironizou uma fala do ex-governador de Minas e candidato à Presidência pelo Novo, Romeu Zema, em entrevista à TV Globo, ao dizer que Minas tem, de fato, políticas contra mulheres. “A não-regulamentação e o não-funcionamento do Conselho de Proteção à Mulher do Estado, o não-investimento na rede de proteção, entre tantas outras ações que vão resultar na ponta em morte de mulheres”, exemplificou.

Entre as medidas adotadas após receber as ameaças, Bella Gonçalves formalizou pedido de providências na Gerência-Geral de Polícia Legislativa da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e na Justiça Eleitoral. Ela afirma estar cobrando investigação das forças de inteligência da polícia e a segurança dela e de seus familiares. A deputada pretende entregar uma carta ao Partido dos Trabalhadores solicitando a utilização do fundo partidário para combate à violência política de gênero e garantia da segurança das candidatas.

Contexto histórico e dados eleitorais

A reserva de candidaturas femininas nos partidos existe há 30 anos, desde 1996. Nas últimas eleições, em 2022, apenas 17,7% das vagas da Câmara Federal foram ocupadas por mulheres. A legislação específica de combate à violência política contra mulheres surgiu há apenas cinco anos, com a Lei nº 14.192/2021.

Violência como instrumento de expulsão

A gestora de mobilização da plataforma Bonde, Maíra Baracho, defende que a violência é um instrumento usado contra mulheres que ocupam espaços que não foram pensados para elas. Segundo ela, a percepção de que a violência política de gênero está aumentando no Brasil decorre do incômodo causado pela presença de mulheres em espaços de poder. “A violência, infelizmente, nos acompanha por onde a gente circula”, afirmou Maíra Baracho, explicando que a violência política é uma das facetas das diversas violências sofridas pelas mulheres no âmbito doméstico, íntimo ou profissional. “Quando a gente olha para a política institucional, esse instrumento que é a violência se intensifica. E a função que ele ocupa nesse lugar é a de expulsão. É expulsar as mulheres que ousaram ocupar esse lugar, que não foi desenhado para elas”, analisou.

Maíra Baracho citou a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) ao lembrar que na Assembleia Constituinte que produziu a Constituição de 1988, a Câmara Federal não contava com banheiro feminino. No Senado, o primeiro banheiro feminino foi construído apenas dez anos atrás, em 2016. “Isso ilustra muito bem, e a violência vem com esse lembrete, de que esse lugar não é [pensado] para a gente”, complementou. A deputada foi a única mulher negra entre os 487 deputados constituintes que assinaram a Constituição Federal de 1988.

Suporte às candidatas e medidas de combate

Além da responsabilização dos agressores, Maíra Baracho apontou o suporte às mulheres candidatas vítimas de violência política como ferramenta importante para mantê-las atuando na política. Para ela, o suporte se dá pela continuidade, para que a violência não signifique o desencorajamento de outras mulheres a ocupar esse lugar de poder.

Bella Gonçalves já havia sofrido outros ataques e ameaças antes dos ocorridos em setembro. Ela contou que em 2024, várias parlamentares estaduais e municipais, na maioria mulheres lésbicas, receberam ameaças de estupro corretivo e violência de gênero. Na época, elas se uniram para aprovar a Lei nº 24.466/2023, que cria a política de enfrentamento à violência política contra a mulher.

Também foi realizada a Operação Di@na, uma parceria entre o Ministério Público de Minas Gerais e as polícias Civil e Militar do estado. Foram descobertos fóruns e grupos na internet, conhecidos como chans, onde participantes incitavam a violência, pedofilia e necrofilia. Um dos autores das ameaças às parlamentares chegou a ser preso em 2025.

Entretanto, na visão da deputada, a prisão não foi suficiente, considerando que as mensagens recebidas agora traziam características muito parecidas àquelas recebidas em 2024, com descrições de brutalidade contra ela e contendo informações de caráter privado. “É uma violência sem rosto”, disse Gonçalves. Ela ressaltou ainda que não só as candidatas são ameaçadas, mas também toda sua família.

Ela defende, entre as ações de combate à violência política, a criação de espaços, tanto da Justiça Eleitoral quanto das polícias Civil e Militar, de recebimento de denúncias e de rápido encaminhamento para apuração. A responsabilização pelo Estado brasileiro das empresas de tecnologia pelas violências que ocorrem no âmbito da internet também é defendida por Gonçalves.

A gestora da plataforma Bonde defende que o Estado deve regularizar as redes sociais e pressionar as empresas para participarem da solução do problema. “Se a gente tem um universo de redes sociais, de big techs, alinhadas ao mesmo pensamento, à mesma lógica de sociedade, que está compondo boa parte do Estado brasileiro, é claro que essas pessoas não vão fazer esse enfrentamento [da violência], não é do interesse delas fazer esse enfrentamento”, argumentou.

Para que as transformações ocorram, Maíra Baracho acredita que o caminho é a mobilização social, tanto para defender as mulheres que irão assumir essa tarefa coletiva como na elaboração das pautas desses mandatos. “Quando a gente fala de violência no lugar da política institucional, não é só o corpo [que está em risco]. É o corpo também, mas é o que aquele corpo representa, o que aquele corpo está pautando. Então, avançar com determinadas agendas também é uma resposta, também é uma forma de proteger esses corpos, e avançar com a ideia de justiça social, que para a gente é fundamental”, concluiu.

 

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