Por Kleber Karpov
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na última quarta-feira (25/Mar), revelou que uma parcela significativa de adolescentes brasileiros pode estar desprotegida contra o papilomavírus humano (HPV). O levantamento, realizado em 2024 com estudantes de 13 a 17 anos, mostrou que apenas 54,9% tinham certeza de terem sido vacinados, enquanto 10,4% afirmaram não ter recebido o imunizante e 34,6% não sabiam informar seu status vacinal. O vírus é a principal causa de câncer de colo do útero e está associado a tumores de ânus, pênis, boca e garganta.
Os dados indicam que aproximadamente 1,3 milhão de adolescentes estão desprotegidos e outros 4,2 milhões estão potencialmente vulneráveis à infecção. A vacina, oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para meninas e meninos de 9 a 14 anos, tem maior eficácia quando aplicada antes do início da vida sexual, pois a principal via de transmissão do vírus é o contato sexual.
A pesquisa do IBGE também identificou que 30,4% dos estudantes na faixa etária de 13 a 17 anos já eram sexualmente ativos. A idade média para a primeira relação sexual foi de 13,3 anos entre os meninos e 14,3 anos entre as meninas, o que reforça a urgência da imunização precoce.
Em comparação com a edição anterior da pesquisa, de 2019, a porcentagem de estudantes que se vacinaram registrou uma queda de 8 pontos percentuais. Embora as meninas apresentem uma taxa de vacinação maior que os meninos (59,5% contra 50,3%), a queda na cobertura entre elas foi mais acentuada, atingindo 16,6 pontos percentuais.
Desinformação é o principal obstáculo
Ao analisar os motivos para a não vacinação, o estudo apontou que metade dos estudantes que não receberam o imunizante alegou não saber que precisava tomar a vacina. Para Isabela Balallai, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, o resultado evidencia um problema grave de comunicação em saúde pública.
“Todo mundo acha que a hesitação vacinal se resume às fake news, mas não é isso. A desinformação é só uma das coisas que causam a hesitação vacinal. As outras são a falta de acesso, a baixa percepção do risco da doença e a falta de informação. E isso é um problema máximo no Brasil. Muitas pessoas não sabem quando têm que se vacinar e quais as vacinas disponíveis”, disse Isabela Balallai.
Outras razões foram citadas em menor proporção. Entre os não vacinados, 7,3% indicaram que os pais ou responsáveis não permitiram a imunização, 7,2% não sabiam a função da vacina e 7% relataram dificuldade de acesso ao local de vacinação. O levantamento também mostrou que a resistência dos pais foi um motivo mais frequente entre alunos da rede privada (15,8%) do que na pública (6,3%).
O papel da escola
Balallai defende que o ambiente escolar é estratégico para superar as barreiras que levam à baixa cobertura vacinal. A especialista acredita que a escola pode combater a desinformação, facilitar o acesso e aumentar a conscientização de pais e alunos.
“Quando você pega os principais fatores de hesitação vacinal, a escola resolve todos eles. Resolve a desinformação, educando o adolescente. Resolve a falta de informação, quando eles são informados que vai ter a vacinação. Resolve o acesso, porque é muito difícil levar um adolescente ao posto de saúde, mas vacinar na escola é muito mais simples. E resolve a conscientização dos pais”, afirmou a diretora.
Ações do governo
Em resposta ao cenário, o Ministério da Saúde informou que dados preliminares de 2025 indicam uma recuperação na cobertura, com 86% entre meninas e 74,4% entre meninos. Desde 2024, a vacina contra o HPV é aplicada em dose única. Além disso, uma estratégia de resgate vacinal foi lançada no ano passado para imunizar jovens de 15 a 19 anos que perderam a idade recomendada, tendo alcançado 217 mil pessoas até o momento. A campanha segue até junho de 2026 e inclui ações em escolas.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal.











