Saúde mental dos policiais civis e baixo efetivo poderão colapsar a PCDF, alerta Sinpol

Por Ellen Travassos

O Sindicato dos Policiais Civis do Distrito Federal (Sinpol-DF) divulgou os resultados de uma pesquisa interna que destaca preocupações significativas em relação à saúde mental dos policiais civis. Segundo a pesquisa, 74,4% dos policiais civis que participaram do questionário relataram ter experimentado sintomas de ansiedade e depressão. Os dados revelam uma profunda preocupação sobre a sobrecarga de trabalho na Polícia Civil do DF (PCDF) e a sensação de desvalorização da categoria ao longo dos anos.

A pesquisa, que contou com a participação de 328 policiais civis, incluindo tanto aqueles em atividade quanto veteranos (aposentados), também destacou que apenas 42,7% dos participantes buscaram tratamento psicológico ou psiquiátrico. Isso levanta preocupações sobre a falta de apoio e tratamento para muitos profissionais que estão sofrendo de problemas de saúde mental devido às demandas de sua atividade.

O Instituto Novas Ideias para Segurança Pública (NISP) conduziu um estudo semelhante em 2021, revelando que 75% dos policiais civis do DF já experimentaram problemas de saúde mental pessoalmente ou conhecem colegas que enfrentam esses desafios. Além disso, 69,6% dos participantes do estudo do NISP acreditam que a estrutura atual de trabalho na PCDF está prejudicando a saúde mental dos servidores.

Enoque Venancio de Freitas, presidente do Sinpol-DF, enfatizou que, além da desvalorização cumulativa da categoria, a sobrecarga de trabalho é um fator problemático que afeta a saúde mental dos policiais civis. Ele apontou que o déficit de pessoal na PCDF, que se aproxima de 62%, está forçando os policiais a trabalharem dobrado para garantir o funcionamento contínuo das delegacias, incluindo o cumprimento do Serviço Voluntário Gratificado (SVG) para manter as delegacias abertas 24 horas por dia.

“Exaustão é a palavra que melhor descreve a saúde dos policiais civis. Todos estão trabalhando incansavelmente para garantir a segurança da população, apesar do quadro de pessoal extremamente reduzido. Somos os investigadores que mais solucionam crimes violentos no país, mas estamos nos sacrificando para alcançar esse resultado”, afirmou.

O presidente do Sinpol-DF destacou duas medidas essenciais que poderiam aliviar a situação dos policiais civis e, por conseguinte, manter a qualidade do serviço público prestado pela PCDF. A primeira medida proposta é a instituição de uma verba indenizatória para compensar os profissionais pelos danos orgânicos e psicossomáticos decorrentes da atividade policial.

A segunda medida é a recomposição dos quadros da PCDF por meio da contratação imediata dos aprovados nos concursos de 2019. Atualmente, 1950 candidatos aguardam as nomeações pelo Governo do Distrito Federal (GDF). Segundo o sindicato, em 2023, seriam necessárias pelo menos 900 novas contratações de investigadores, 600 agentes de polícia e 300 escrivães de polícia, para aliviar a sobrecarga de trabalho dos policiais civis.

No Projeto de Lei 4426/23, que trata do reajuste da categoria, Enoque destacou os esforços em curso para reintroduzir uma emenda que visa garantir a possibilidade de o Governo do Distrito Federal (GDF) instituir uma indenização destinada aos policiais civis veteranos. Isso se faz necessário, uma vez que o texto aprovado pela Câmara dos Deputados já assegura essa indenização para os policiais civis da ativa. “Estamos trabalhando incansavelmente para que todos os membros da categoria sejam beneficiados, antes que o projeto de lei chegue ao Senado”, disse.

No que se refere à urgente recomposição dos quadros da PCDF, ele ressaltou sua preocupação. Ele enfatizou que o governo local deve reconhecer que a falta de pessoal pode comprometer significativamente as investigações e o atendimento aos cidadãos.

“A contratação do número mínimo necessário de novos policiais civis precisa ser realizada imediatamente, uma vez que os recursos orçamentários para essa finalidade já se encontram previstos e a segurança da população não pode esperar”, enfatizou.

Suporte Institucional

De acordo com dados recentes do Departamento de Gestão de Pessoas (DGP) da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), o ano de 2022 testemunhou um alarmante número de afastamentos de policiais devido a doenças psiquiátricas e mentais.

Um total de 448 policiais civis, o que representa 7% do efetivo, precisaram se licenciar por questões de saúde mental. Esse dado ganha ainda mais peso quando se leva em consideração o déficit crônico de cerca de 62% no quadro de policiais civis, resultante das demoras na nomeação dos aprovados no concurso de 2019.

“Essa disparidade está impondo uma sobrecarga insustentável, dobrando o desgaste dos policiais civis em serviço. A fase final do adoecimento mental é extremamente trágica. Infelizmente, já testemunhamos casos de policiais civis que recorreram ao suicídio para escapar do sofrimento psicológico”, relatou Enoque.

A Dra. Clarice Araújo, psiquiatra na Policlínica da PCDF, ressalta a importância de proporcionar um ambiente onde os policiais civis possam desabafar e aliviar as tensões emocionais. A policlínica oferece um espaço de descompressão acessível tanto presencialmente quanto online, de segunda a sexta, das 8h às 18h, visando o bem-estar daqueles que atuam na linha de frente da segurança pública.

Além disso, os especialistas da Policlínica enfatizam a necessidade de os policiais civis adotarem estratégias eficazes de gerenciamento de tempo. A divisão adequada entre trabalho, vida familiar, social e momentos de relaxamento é crucial.

O psicólogo Roberto Vinuales, da Policlínica da PCDF, enfatiza que, dada a natureza absorvente da profissão policial, é vital cuidar da própria saúde mental. Descansar após os plantões e evitar tarefas adicionais são práticas essenciais que podem fazer uma diferença significativa na qualidade de vida desses profissionais.

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