Flagrante de descaso com pacientes no Hospital da Asa Norte, um reflexo do legado de Rollemberg

Em menos de ano e meio de governo, Rollemberg demonstra legado que pretende deixar à população do DF

Por Kleber Karpov
Consultório de atendimento médico sem cadeira para os pacientes no HRAN
Consultório de atendimento médico sem cadeira para os pacientes no HRAN – Foto: Reprodução

Falta de cadeira para paciente ser atendido por médico no consultório, banco, medidores de pressão e equipamentos quebrados, já causam revolta. Agora adicione a isso, um hospital com superlotação, sem leitos para internação e ver pacientes internados há três ou quatro dias, em corredores ou, o que é pior, em cadeiras de observação.

Essa foi a cena registrada por um médico do Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), e pede para não ser identificado, na madrugada deste domingo (29/Mai), que encaminhou fotos ao Política Distrital para denunciar a falta de capacidade da Secretaria de Estado de Saúde do DF (SES-DF), oferecer tratamento digno aos usuários do Sistema Único de Saúde do DF (SUS-DF).

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Nas imagens é possível observar os pacientes, muitos idosos, internados, segundo o profissional, há às vezes por três, quatro dias, em cadeiras de observação, em situação de extremo desconforto.

Prioridades

Equipamentos quebrados no HRAN - Foto: Reprodução
Equipamentos quebrados no HRAN – Foto: Reprodução

Recentemente o blog Em Defesa da Saúde chamou atenção (11/Mai) ao observar o investimento do Hospital de Clínicas da Unicamp, de R$ 420 mil, para aquisição de 20 aparelhos de hemodiálise e que o valor da contrapartida por parte do GDF, de R$ 210 mil, daria para comprar 10 unidades para os hospitais do DF.

Metrópoles por sua vez informou (28/Abr) que um dia de revezamento da tocha olímpica no DF, custou R$ 4,3 milhões para fazer um revezamento em 15 monumentos e cinco Regiões Administrativas do DF, num percurso de 105 quilômetros. Jornal de Brasília por sua vez, noticiou (23/Mai) que durante os oito dias em que o DF receberá a copa do mundo, R$ 28 milhões serão desembolsados pela população do DF.

Esses gastos, talvez necessários, mas, nesse momento, dispensáveis, dado a situação do DF, remonta outro episódio, da realização do Copa do Mundo de 2014, que de acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU), o governo brasileiro desembolsou R$ 25,5 bilhões. Desses, R$ 7 bilhões em mobilidade urbana e R$ 8 bilhões em estádios, R$ 6,2 em aeroportos e R$ 996 milhões em obras de entorno dos estádios.

Vale lembrar que de acordo com o TCU, das 26 obras previstas em aeroportos administrados pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), ao final de 2014, apenas 14 foram entregues antes do início da Copa e 12 ainda estavam em execução e algumas ainda hoje, não foram concluídas.

Legado

Isso sob o argumento de ter um retorno bilionário com o turismo e com o legado que seria deixado à população brasileira. Legado esse que, dois anos após a realização da Copa do Mundo no Brasil, se reverte em prejuízos detectados por investigações da Polícia Federal, de superfaturamento que recheou as contas bancárias de muitos figurões da política brasileira, inclusive o ex-governador do DF, Agnelo Queiroz (PT), sob investigação por causa da obra do Estádio Nacional Mané Garrincha.

Com as Olimpíadas de 2016 o cenário se repete tanto em superfaturamentos quanto com vidas perdidas, a exemplo da onda do mar que derrubou parte de Ciclovia Tim Maia, inaugurada em 17 de janeiro, que custou R$ 44 milhões à população do Rio de Janeiro, consequência de projeto mal realizado.

Rollemberg

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Pacientes internados em corredores do HRAN – Foto: Reprodução

O governador do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB) acertou quando cancelou a realização da Fórmula Indy que seria realizada no DF em 2015. Os elogios à iniciativa prevaleceram sobre as críticas ao ‘não apoio’ da prática esportiva naquele momento.

No entanto Rollemberg perde a oportunidade de ser novamente aclamado defensor da população que o elegeu para governar a capital do país, ao deixar que morte evitáveis e que a falta de assistência à Saúde do DF se torne o legado do HRAN que se reproduz em cada unidade de saúde do DF.

Talvez, para ilustrar melhor o que pensa a população, os servidores e os usuários do SUS-DF, ao se considerar que Saúde é o pilar de qualquer outra necessidade humana, um desabafo de uma servidora, que não será identificada por Política Distrital, postada em uma rede social no sábado (28/Mai), em que pela segunda vez afirma perder um parente em consequência da falta de prioridade por parte do governo.

Resultado?

“Sou servidora da SES há 12 anos. Sempre procurei dentro de minhas limitações fazer o máximo possível em prol do paciente. Muitas vezes adoeci por não concordar em internar um paciente de 80 anos numa cadeira pra ficar sem perspectivas a espera pelo menos de uma maca. Sendo que esse mesmo, paciente contribuiu a vida toda em relação a impostos. Ano passado perdi minha irmã com 44 anos, aguardando um leito de UTI; Hoje também perdi o meu tio, esperando também um leito de UTI. E nos dois casos ouvi a mesma indagação do médico, procurem a Justiça, pra conseguir um leito de UTI. Só que nos dois casos não tivemos tempo de acionar a Justiça. Fazendo uma analogia agora, chego a conclusão que estamos vivendo no período da seleção natural, onde o mais forte que prevaleça sem a intervenção da medicina.(SIC)”.

Talvez

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Pacientes internados em cadeiras de observação no HRAN – Foto: Reprodução

Talvez um leitor mais crítico questione a petulância deste articulista ao questionar, o que são R$ 28 milhões quando a saúde do DF deveria tem um orçamento de R$ 6 bilhões. A resposta: migalhas. Mas provavelmente o leitor talvez seja levado a questionar contratos de R$ 5 milhões em empresas de vigilância aqui, R$ 2 milhões em um caminhão ali, R$ 20 milhões em contratos emergenciais acola…

Como diria o velho sábio, “de grão em grão” e alguns gastos racionalizados, e uma gestão operacionalizada, talvez, mesmo com o suposto rombo recebido por Rollemberg, a Saúde do DF, poderia estar melhor. Cada um tem deixa o legado que quer.

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