Hospital da Criança é modelo de OSs, mas para o pequeno Ghael, não

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Mãe do bebê alega ser vítima de negligência médica, por ocasião do parto, não consegue atendimento  para fazer acompanhamento do bebê

Por Kleber Karpov

25 de maio seria mais um dia mágico na vida de Alexandro Santos de Andrade Pereira, auxiliar administrativo, 28 anos, e da designer de interiores, Adriana Correia da Cunha, 34 anos, com o nascimento do pequeno Ghael Davi, segundo filho do casal, nascido no Hospital Regional de Santa Maria (HRSM). Isso se o bebê não tivesse nascido com sequelas, a exemplo de insuficiência respiratória, por negligência médica, de acordo com a mãe.

Politica Distrital entrou em contato com os pais do pequeno Ghael, após ser procurado por uma amiga da família, que pede para não ser identificada. Ao blog Adriana Correia explicou que fez todo o pré-natal, sem o bebê apresentar nenhum problema e falou da dificuldade para conseguir atendimento para a realização do parto no HRSM, o que acredita ser a causa da sequela do filho.

“Eu tive uma gravidez tranquila, fiz todo o pré-natal direitinho, ele nasceu em uma quarta, e no domingo anterior eu fiz um eletro e deu tudo certo.  No dia anterior eu fiz exame e também estava tudo certo. Mas no dia que ele nasceu, eu estava na casa da minha sogra em Santa Maria não quiseram me atender. A bolsa estourou às 23h, eu fui para o hospital de Santa Maria e me mandaram voltar para casa. Passei a madrugada tentando ser atendida  e como eu não tinha dilatação, me mandaram andar por duas horas. E quando o bebê nasceu, ele estava sem batimento cardíaco e sem respirar. Depois conseguiram reanimar ele, teve convulsões, precisou ser amarrado no berço por causa das convulsões seguidas. Foi entubado, entrou em coma. Fiquei 20 dias no hospital . Graças a Deus ele teve uma recuperação rápida, mas eu preciso desse acompanhamento para fazer exames devido a situação dele.”, disse.

Adriana Correia explica que Ghael recebe medicação regular de Gardenal, medicamento que tem que comprar. O bebê está com o desenvolvimento incompatível para a idade e precisa tomar leite especial pois chegou a pesar menos do que quando nasceu, 2.795 gramas.

“Ele [Ghael] toma Gardenal, a cada 12 horas, mas está com refluxo, vomita muito, tem dificuldade de mamar e quase não dorme, o olhar não é fixo.”, explicou.

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Hospital da Criança

Adriana recebeu encaminhamento para que Ghael pudesse ser atendido por uma neuropediatra no Hospital da Criança de Brasília José de Alencar (HCB). Porém, após quase dois meses, até o momento, a família do bebê não foi contatada para avisar quando será agendada a consulta.

Mesmo com cadastro nº 171306087 no Sistema de Regulação (SISREG) por estar em classificação de risco, indicação vermelha, que identifica casos graves, a família de Ghael aguarda pacientemente a confirmação da consulta do bebê com um neuropediatra no HCB.

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Secretaria

Política Distrital entrou em contato com a Secretaria de Estado de Saúde do DF (SES-DF)(16/Jul) para obter mais informações sobre o caso. Por meio da Assessoria de Comunicação (Ascom), a SES-DF informou que o pequeno Ghael pode receber a consulta em qualquer unidade da rede pública, não necessariamente no HCB. Porém, mesmo com prioridade no atendimento, o bebê terá que aguardar uma vaga.

“A Secretaria de Saúde informa que o paciente G.D.C.A. está regulado para consulta em neuropediatra. A consulta poderá ser em qualquer unidade da rede pública de saúde e não necessariamente no Hospital da Criança. A pasta esclarece que os pacientes são regulados conforme a classificação de risco, G.D.C.A está classificado como vermelho, ou seja, tem prioridade no atendimento, que será realizado assim que surgir a vaga.”

Com a regulação do HCB, gerido por uma Organização Social (OSs), a família aguarda a mercê da própria sorte e da solidariedade de amigos, a exemplo da amiga de Adriana Correia que procurou Política Distrital para falar do caso do Ghael. Isso porque, supostamente, não há neuropediatra na rede que possa garantir o atendimento da criança.

Supostamente, pois denúncias publicadas por Política Distrital e questionamentos de políticos, a exemplo do deputado distrital, Rafael Prudente (PMDB), questionam a ausência de especialistas que poderiam atuar na atividade fim mas estão vinculados a cargos administrativos.

O que fazer para ser atendido no Hospital da Criança

Em 5 de julho, Política Distrital questionou à SES-DF sobre o processo de funcionamento para marcação de consultas. Isso porque muitos usuários acreditam que, em uma emergência ou marcação de consulta ambulatorial, basta ir até o hospital, agendar a consulta e conseguir o sonho de atendimento em um ambiente preparado para acolher os usuários com dignidade. com direito  teatro, tv, e até apresentações musicais. Porém, ninguém se deu ao trabalho de explicar como funciona para se conseguir receber atendimento no HCB. Mas o blog, que foi convidado pela direção da OSs que gere o HCB, em fevereiro, para conhecer o Hospital, questionou à SES sobre os procedimentos para se agendar uma consulta no Hospital da Criança.

Confira a resposta da SES-DF:

“As consultas no HCB são reguladas pela Secretaria da Saúde do DF (SES-DF) através da Central de Regulação, ou seja, o Hospital não tem permissão para agendar a primeira consulta do paciente. Para ter a primeira consulta com os especialistas disponíveis no HCB é preciso: Ser atendido por um médico/pediatra de qualquer uma das Unidades de Saúde da Rede da SES-DF (Hospitais e Centros de Saúde); Ter um encaminhamento, realizado por este médico, justificando o motivo da solicitação (formulário próprio da SES-DF); Ter registrada esta solicitação no sistema da Central de Regulação SES-DF – na própria Unidade de Saúde solicitante. Todas as Unidades de Saúde da Secretaria de Saúde do Distrito Federal dispõem de pessoal treinado e com acesso ao SISREG por meio do endereço eletrônico http://sisregiii.saude.gov.br; Aguardar o contato da Central de Regulação, que informará a data e horário previsto para comparecimento do paciente a Unidade de Saúde para a qual o paciente foi regulado (no HCB ou em qualquer outra da Rede que disponibilizar o serviço solicitado).”.

HCB é referência pois as vagas são limitadas.

O governador do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB) sugere que o HCB é um modelo de hospital gerido por OSs. No entanto não explica, que essa excelência e qualidade no atendimento aos paciente do SUS do DF e de outros estados está condicionado a disponibilidade de vagas. Rollemberg deturpa uma  iniciativa de cunho social, da presidente da Abrace, Ilda Ribeiro Peliz, para atender uma demanda específica, a pediatria infantil, ao sugerir que a população do DF, terá a mesma qualidade de atendimento.

De forma inconsequente o governador ‘vende’ a essa população, estimada de 3 milhões de pessoas, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sem considerar as pessoas do entorno que recorrem à saúde do DF, que as instituições de OSs representam no DF será sinônimo do padrão do HCB.

Mas por quê?

Para entender melhor, a deturpação de Rollemberg, talvez alguns questionamentos de uma pediatra que trabalha no 7º andar do Hospital de Base do DF (HBDF), onde funciona a pediatria e pede para não ser identificada, ajudem a entender a questão.

“Como pode o 7° andar do hospital de Base estar lotado de crianças internadas, se tem o Hospital da Criança cotado para atendê-los? Será que estão ganhando até pelos meninos que estão internado aqui? Já que é tão bom a assistência promovida pelas Organizações Sociais, por que os hospitais públicos estão lotados de crianças sendo atendidas ou precisando de atendimento? Aqui no Base usam a mão de obra nossa e insumos como medicamentos nossos. Só vai para o Hospital da Criança o ‘filé’? Dá para desconfiar disso. Os pediatras concursados para SES estão cumprindo sua carga horaria no Hospital da Criança. Será que o GDF esta pagando duas vezes pelo serviço deles? Porque as OS cobram um total pelo serviço prestado. E não por médico contratado? Se nossos pediatras vao cumprir carga horária lá. Eles não devem receber por médicos pediatras porque o salario deles é a SESDF quem paga e não o hospital da criança?”, questiona.

 

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