Por Kleber Karpov
A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), prendeu em 11 de janeiro, três técnicos de enfermagem sob suspeita de assassinar três pacientes na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Anchieta, na Região Administrativa (RA) Taguatinga. As investigações da ‘Operação Anúbis’ indicam que os profissionais utilizaram doses letais de medicamentos, e até desinfetante, para provocar paradas cardíacas entre novembro e dezembro de 2025. O grupo passou a ser investigado após denúncias da administração do hospital, ao identificar óbitos atípicos e acionar as autoridades.
Segundo investigações da PCDF, o técnico em Enfermagem, Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, 24 anos, principal suspeito, utilizou a senha de um médico para emitir receitas fraudulentas de uma substância comum em ambientes hospitalares. De acordo com o delegado Wisllei Salomão, o investigado aplicou o produto diretamente na veia das vítimas sem consulta à equipe técnica. Em um dos episódios, os agentes apuraram que o técnico realizou 13 aplicações de desinfetante em uma idosa de 75 anos após a paciente sofrer sucessivas paradas cardíacas.
Para ocultar a autoria dos crimes, os profissionais simulavam manobras de reanimação cardíaca nos pacientes logo após as aplicações fatais. A Polícia Civil analisou imagens do sistema de câmeras da UTI e prontuários médicos que confirmaram a piora súbita das vítimas em momentos de contato com os suspeitos. As autoridades agora verificam outras 20 certidões de óbito para determinar se houve mais crimes em outras unidades de saúde onde os técnicos atuaram.
Homicídio qualificado
Crimes esses que, segundo investigações da PCDF contaram com participação ainda das técnicas em enfermagem, Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves da Silva. Os presos, confrontados com provas, confessaram os crimes, embora não tenham explicado as motivações. Os suspeitos devem ser indiciados por crime de homicídio doloso qualificado com impossibilidade de defesa da vítima.
Identificação das vítimas
As vítimas do grupo foram identificadas como a professora aposentada Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, o supervisor João Clemente Pereira, de 63 anos, e Marcos Raymundo Fernandes Moreira, de 33 anos. Os familiares de João Clemente relataram que acreditavam em causas naturais até a notificação oficial da polícia em 16 de janeiro. Os mandados de busca e apreensão ocorreram em endereços de Taguatinga, Brazlândia, Ceilândia, Samambaia e Águas Lindas de Goiás.
O que diz o Anchieta
Também por meio de nota à imprensa, o Hospital Anchieta afirma que, “ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos na Unidade de Terapia Intensiva”, ter instaurado um comitê interno para investigar os casos e, a partir dos resultados, pediu a abertura de um inquérito policial e a adoção de medidas cautelares contra os suspeitos.
Os ex-técnicos de enfermagem supostamente envolvidos nos crimes foram demitidos e as famílias das vítimas foram informadas, “prestando todos os esclarecimentos necessários de forma responsável e acolhedora” (veja as íntegras das notas abaixo).
Confira a íntegra da nota do Hospital Anchieta
“O Hospital Anchieta S.A., referência em cuidados de saúde em Brasília/DF há 30 anos, vem a público esclarecer as providências adotadas diante de fatos graves envolvendo ex-funcionários da instituição.
Ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos ocorridos em sua Unidade de Terapia Intensiva, o Hospital instaurou, por iniciativa própria, em cumprimento ao seu dever civil, ético e ao seu compromisso com a transparência, comitê interno de análise e conduziu investigação célere e rigorosa, que em menos de vinte dias resultou na identificação de evidências envolvendo ex-técnicos de enfermagem, as quais foram formalmente encaminhadas às autoridades competentes.
Com base nessas evidências, fruto da investigação interna realizada pela instituição, o próprio Hospital requereu a instauração de inquérito policial, bem como a adoção das medidas cautelares cabíveis, inclusive a prisão cautelar dos envolvidos os quais já haviam sido desligados da Instituição, prisões as quais foram cumpridas pelas autoridades nos dias 12 e 15 de janeiro de 2026.
Pautado pela transparência de seus processos e pela confiança nos protocolos internos que norteiam sua atuação, o Hospital entrou em contato com as famílias envolvidas, prestando todos os esclarecimentos necessários de forma responsável e acolhedora. Reitera, ainda, que o caso tramita em segredo de justiça, o que impossibilita a divulgação de informações adicionais bem como a identificação das partes envolvidas.
O hospital entende que o segredo de justiça é imprescindível à preservação da apuração, à proteção das partes envolvidas e ao regular exercício das atribuições das autoridades competentes, o qual deve ser estritamente observado de acordo com os limites impostos pela decisão judicial.
O Hospital, enquanto também vítima da ação destes ex-funcionários, solidariza-se com os familiares das vítimas, e informa que está colaborando de forma irrestrita e incondicional com as autoridades públicas, reafirmando seu compromisso permanente com a segurança dos pacientes, com a verdade e a Justiça.”
Coren-DF se manifesta
O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal instaurou um procedimento ético para apurar a conduta dos profissionais envolvidos. A instituição afirmou que o técnico principal e as duas mulheres que o auxiliavam já não fazem parte do quadro de funcionários do hospital.
Nota do Coren-DF na íntegra
“O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) informa que tomou conhecimento dos fatos noticiados pela imprensa envolvendo mortes suspeitas de pacientes em uma unidade hospitalar do Distrito Federal.
Diante da gravidade das informações divulgadas, o Coren-DF esclarece que está acompanhando o caso e instaurou procedimento de apuração para verificar eventuais implicações éticas relacionadas à conduta de profissionais de enfermagem possivelmente envolvidos, adotando as providências cabíveis no âmbito de sua competência legal.
Ressalta-se que o caso também está sob investigação das autoridades competentes e tramita na esfera judicial. Dessa forma, neste momento, não é possível emitir juízo de valor ou qualquer conclusão definitiva, devendo ser respeitados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa dos envolvidos.
O Coren-DF reforça que, caso as investigações confirmem a ocorrência de conduta ilícita ou infração ética, o profissional será devidamente responsabilizado, nos termos do Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem.
O Conselho segue comprometido com a segurança do paciente, a ética profissional e a defesa de uma enfermagem qualificada, responsável e comprometida com a vida.”
Sindate-DF
A direção do Sindicato dos Auxiliares e Técnicos em Enfermagem do DF (Sindate-DF), lamentou o episódio e se solidarizou com as vítimas, além de se colocar a disposição, para ajudar no que for necessário, dentro dos limites institucionais.

Defesa dos acusados
Até o momento não há conhecimento de posicionamentos da defesa dos investigados, até a publicação da reportagem. O caso corre em segredo de Justiça.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal.











