Por Kleber Karpov
Uma análise recente divulgada pelo Movimento Brasil Competitivo (MBC), antes do primeiro turno das eleições marcado para 4 de outubro, revelou que os planos de governo dos cinco principais candidatos que lideravam as pesquisas no período do estudo incorporam importantes desafios à competitividade do país. Gargalos como as finanças públicas, o mercado de trabalho, a infraestrutura de logística, a governança regulatória, a transformação digital e a segurança pública foram amplamente abordados nos documentos avaliados.
A pesquisa do MBC não apenas identificou a presença desses temas cruciais, mas também apontou soluções recorrentes, mesmo entre candidaturas de diferentes espectros políticos. Aspectos como a modernização da infraestrutura, a implementação de concessões e parcerias com a iniciativa privada (PPPs), além do incremento dos investimentos, foram mencionados nos cinco projetos. No âmbito das propostas para o mercado de trabalho, quatro dos planos defendem iniciativas de qualificação profissional ou de reforço ao ensino técnico.
A agenda de transformação digital também se mostra relevante, com menções à inteligência artificial, conectividade, centros de dados e a modernização dos serviços estatais, embora com abordagens variadas. No que tange à segurança pública, o enfrentamento ao crime organizado figura em todos os documentos, frequentemente atrelado ao uso de inteligência, tecnologia e ao controle rigoroso das fontes de recursos de grupos criminosos.
No campo das contas públicas, a análise registrou a recorrência de propostas focadas no controle e na revisão de gastos, na formulação de novas regras fiscais, na reforma tributária e na busca pela otimização da eficiência da despesa, apesar das distintas estratégias sugeridas para atingir tais objetivos. O levantamento do MBC ainda englobou temas como a energia, a integração do Brasil em cadeias produtivas globais e a disponibilidade de crédito competitivo para empresas, finalizando o conjunto de nove áreas examinadas.
Tatiana Ribeiro, que possui mestrado em gestão de políticas públicas e atua como diretora-executiva do MBC, avalia que a identificação compartilhada desses desafios abre caminho para um debate mais objetivo e aprofundado no próximo ciclo de governo.
“O diagnóstico nós temos. Sabemos onde estão muitos dos custos que tiram produtividade do país e já vemos esses problemas reconhecidos nos planos de governo. O que precisamos agora é definir uma sequência de prioridades, estabelecer metas, garantir instrumentos de financiamento e coordenação e acompanhar a execução. Sem isso, podemos chegar a 2030 sem ter destravado investimento e produtividade na velocidade que o Brasil precisa”, afirmou Tatiana Ribeiro.
O desafio do Custo Brasil
A magnitude dos obstáculos enfrentados pelo país é evidenciada pelo Custo Brasil, um indicador que estima os entraves estruturais que encarecem a produção e o investimento no território nacional. Anualmente, esse custo é calculado em R$ 1,7 trilhão, o que representa cerca de 19,5% do Produto Interno Bruto (PIB). O estudo é resultado de uma colaboração entre o MBC, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) e a Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Metas para 2030
A análise dos programas eleitorais está alinhada com os Compromissos para um Brasil Competitivo, um documento que o MBC apresentou em junho, contando com a contribuição do setor produtivo e da sociedade civil. Este material estabelece três metas ambiciosas para serem alcançadas até 2030: diminuir o Custo Brasil em 25%, elevar a taxa de investimento de 16,8% do PIB (registrada em 2025) para 20%, e posicionar o Brasil entre as 30 nações mais competitivas do globo.
Para o Movimento Brasil Competitivo, a definição dessas metas tem o propósito de focar o debate, deslocando-o da mera presença de propostas nos planos para a capacidade efetiva de gerar resultados mensuráveis ao longo da próxima gestão governamental. A entidade ressalta que a concretização dessas iniciativas dependerá de prioridades bem definidas, objetivos claros, mecanismos de financiamento adequados, uma governança robusta e uma eficaz capacidade de execução.
“Plano de governo é ponto de partida. Depois da eleição, a discussão precisa ser quanto cada política consegue reduzir custos, mobilizar investimento e aumentar produtividade. Competitividade não será resultado de uma medida isolada: exige continuidade, coordenação e uma régua que permita ao país saber onde avançou e onde continua parado”, enfatizou Tatiana Ribeiro.
Soluções propostas
Ainda que os temas apareçam com frequência nos documentos eleitorais, isso não implica uma convergência de opiniões sobre as soluções a serem aplicadas. No campo da infraestrutura, por exemplo, apesar do consenso sobre concessões e participação da iniciativa privada, os planos apresentam variações significativas quanto à prioridade do investimento público, ao uso das parcerias público-privadas, à exploração do mercado de capitais e à hierarquia entre os diferentes modais de transporte.
As divergências também são notáveis nas contas públicas, onde são apresentadas propostas distintas para as regras fiscais, despesas governamentais, sistema tributário e endividamento. Na área da transformação digital, as abordagens divergem em relação à inteligência artificial, à regulação do setor, à infraestrutura tecnológica, à conectividade e à maneira de atuação do Estado.
O MBC observa que o aspecto unificador reside na inclusão dos problemas estruturais na discussão eleitoral. O próximo estágio será acompanhar quais assuntos receberão atenção prioritária na transição, como se converterão em políticas públicas e quais indicadores permitirão avaliar seu impacto entre 2027 e 2030.
Metodologia da análise
O estudo do Movimento Brasil Competitivo considerou os documentos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo). Foram incluídas as candidaturas que se destacavam entre as cinco primeiras posições nas pesquisas durante o período da pesquisa. Para o candidato Lula, que buscaria a reeleição, a análise abrangeu tanto os resultados do mandato atual (2023 a 2026) quanto as propostas destinadas ao período de 2027 a 2030. Para os demais concorrentes, apenas as propostas contidas nos respectivos planos foram examinadas.
Os nove temas centrais da análise derivam da estrutura do Custo Brasil e dos Compromissos para um Brasil Competitivo. Eles incluem finanças públicas sustentáveis, aprimoramento do mercado de trabalho, otimização da matriz logística, energia com preço competitivo, governança regulatória eficaz, a transformação digital da economia, o reforço da segurança pública, a integração em cadeias produtivas globais e o acesso a crédito em condições favoráveis. A entidade enfatiza que o estudo possui caráter descritivo, não compara a qualidade das propostas, não estabelece classificações e não constitui avaliação de mérito, apoio ou endosso a qualquer candidatura.
Movimento Brasil Competitivo
O MBC constitui uma organização empresarial de caráter suprapartidário, dedicada a impulsionar a competitividade nacional. Sua atuação é multifacetada, combinando ações de advocacia qualificada, a construção de consensos entre os setores público e privado, e o desenvolvimento de projetos concretos. A organização mantém independência técnica e adota uma visão sistêmica em suas iniciativas.
Com mais de duas décadas de atuação e a consolidação de uma agenda estruturante, o MBC congrega grandes corporações, especialistas e representantes do poder público. Seu trabalho se organiza em torno de dois pilares estratégicos primordiais: a Redução do Custo Brasil, que foca na otimização dos custos de energia e na melhoria da governança regulatória, e a Transformação Digital da economia, com especial atenção à inteligência artificial e ao governo digital. Essas atividades abrangem a geração de dados, a formação de comitês estratégicos, a execução de projetos de governança em parceria com estados e a articulação parlamentar por intermédio da Frente Parlamentar pelo Brasil Competitivo, excedendo o escopo de uma agenda setorial específica.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Graduado em Jornalismo (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Criador do Comitê Virtual (www.comitevirtual.com.br), plataforma de gestão de campanhas eleitorais. Criador do PubliqueAi (www.publiqueai.com), primeira plataforma brasileira de produção técnica de textos jornalísticos ou jurídicos, com uso de Inteligência Artificial; Criador do Quero Meu Carro de Volta (www.queromeucarrodevolta.com.br), lançado em 2012. Serviço de utilidade pública para vítimas de roubos e furtos de veículos em todo o país; Ex-produtor e apresentador do programa Panorama Político na Rádio Federal;














