Por Kleber Karpov
Iniciativas em todo o Brasil buscam facilitar o acesso e a permanência de mães na carreira científica, um campo onde enfrentam barreiras desproporcionais, conforme revelado em um estudo publicado em (17/Mai). O fenômeno, conhecido como “efeito tesoura”, que descreve a diminuição progressiva de mulheres em posições de maior destaque, é agravado pela maternidade, levando a perdas de produtividade e descredenciamentos. Em resposta, movimentos como o Parents in Science e políticas públicas, como editais específicos e a criação de cuidotecas, estão sendo implementados para mitigar os impactos e promover maior equidade na academia.
O “efeito tesoura”
Há mais de 20 anos, o Brasil forma mais doutoras do que doutores, mas as mulheres continuam sendo minoria entre os professores de graduação e pós-graduação. Elas também recebem apenas um terço das bolsas de produtividade, que são destinadas a cientistas com maior destaque na carreira acadêmica.
Este corte progressivo de mulheres conforme a carreira avança, denominado “efeito tesoura”, é um fenômeno conhecido. Contudo, o impacto ainda mais acentuado sobre as mães só começou a ser debatido há poucos anos, de acordo com a pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Fernanda Staniscuaski.
Impacto da maternidade
Fernanda Staniscuaski, que já era docente e pesquisadora quando se tornou mãe, precisou reduzir o ritmo profissional. Uma desaceleração que ela esperava ser momentânea se prolongou, iniciando um ciclo difícil de romper. “Quanto menos a mulher produz, menos ela vai ter oportunidade para ganhar financiamento, para conseguir bolsas para orientandos e obviamente isso vai fazer com que ela produza menos ainda. Existe essa pausa por causa da maternidade e ela tem que ser reconhecida. Mas a gente precisa das condições de retorno”, afirma.
A mobilização do Parents in Science
Ao compartilhar suas angústias com amigas cientistas e mães, Fernanda percebeu que sua realidade era comum. Em 2016, ao lado de outras seis mães e um pai, fundou o movimento Parents in Science para debater a parentalidade entre pesquisadores. A iniciativa, que completa uma década este ano, conta com mais de 90 cientistas associados, majoritariamente mulheres.
Uma das principais frentes do movimento é preencher a lacuna de dados sobre o tema, visto que o Brasil não possui uma contagem oficial do número de pesquisadores e docentes com filhos. Essa ausência de dados impede que o impacto da parentalidade na carreira seja medido adequadamente.
Fernanda Staniscuaski destaca que os padrões desiguais da sociedade são reproduzidos no meio acadêmico. “As mães carregam o ônus do cuidado. Existe uma mudança cultural em andamento, com uma participação maior dos pais, mas a gente está longe de ser uma sociedade onde o cuidado é totalmente dividido, não só entre mães e pais, mas como algo coletivo”, complementa.
Dados sobre o descredenciamento
O documento mais recente publicado pelo grupo analisa a entrada e permanência na docência de pós-graduação. Para lecionar nesses cursos, pesquisadores passam por um credenciamento que avalia a produtividade, refletida em publicações e orientações. O levantamento, com dados de cerca de mil docentes, revela diferenças significativas entre pais e mães.
Entre os pais, 43,7% deixaram o programa por iniciativa própria, enquanto 37,5% foram descredenciados por perda de produtividade. Já entre as mães, a ordem se inverte: apenas 24,6% saíram a pedido, enquanto 66,1% foram descredenciadas por não atingirem a produção mínima exigida.
O estudo também aponta maior dificuldade das mães para se reinserirem no sistema. Considerando apenas os que saíram por perda de produtividade, 38% das mães não conseguiram retornar, contra 25% dos pais. Entre os que saíram a pedido, 25% das mães não retornaram, o que ocorreu com apenas 7,1% dos pais.
“Existe uma questão de gênero que é bem clara, mas há também uma influência muito grande de raça. As mulheres pretas, pardas e indígenas continuam sendo o grupo mais sub-representado. Então, a gente precisa cruzar as diferentes barreiras que existem, como a questão das mães de filhos com deficiência, que também ocupam menos espaços”, destaca Fernanda Staniscuaski.
Desafios desde a graduação
As dificuldades não se restringem a pontos avançados da carreira. A assistente social Cristiane Derne, mestranda na PUC-Rio, já era mãe quando ingressou na graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Eu morava em Magé, na Baixada Fluminense, e tinha que ir pro Rio todo dia depois do trabalho. Chegava em casa meia-noite e muitas vezes eu pensei: ‘esse não é um lugar para mim’”, lembra.
A UFRJ concede um auxílio-educação de R$ 385, mas apenas até a criança completar seis anos, o que não contemplava Cristiane. O apoio fundamental veio do coletivo de mães da universidade, que ofereceu informações e acolhimento emocional. Essa experiência se tornou seu objeto de estudo, primeiro na conclusão de curso e agora no mestrado, onde estuda esses coletivos em nível nacional.
Políticas de permanência e o Atlas
Uma iniciativa semelhante, do Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade, publicou o Atlas da Permanência Materna, compilando políticas de universidades federais. O levantamento identificou que a principal medida é a assistência financeira, concedida por 63 das 69 instituições, com valor médio de R$ 370 por mês.
O Atlas mostrou que a oferta de benefícios cai drasticamente na pós-graduação, com apenas 13 instituições estendendo o auxílio a alunas de mestrado e doutorado. Além disso, somente oito universidades possuem cuidotecas. Em março deste ano, o Ministério da Educação lançou um edital de R$ 20 milhões para implantar mais desses espaços.
“Na prática, a insuficiência financeira devolve o ônus logístico do cuidado para a esfera privada, culminando em um esgotamento físico e mental que frequentemente empurra a estudante para a evasão antes da consolidação do seu rito de passagem para a vida intelectual”, criticam as autoras do Atlas, Kamila Abreu e Ivana Moura.
Novas legislações
A professora de geografia Liziê Calmon, doutoranda e mãe, questionou sua permanência na carreira acadêmica devido ao acúmulo de trabalho. Contudo, ela percebeu que a maternidade oferece uma perspectiva valiosa. “A experiência da maternidade traz para a gente um olhar mais apurado para algumas realidades que nem sempre estão sendo olhadas por outras pessoas”, afirma.
Liziê, que faz parte do coletivo Filhas de Sabah, articulou junto à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro a lei que institui o Marco Legal Mães na Ciência. Aprovada em 14 de maio, a matéria segue para sanção e prevê que o trabalho de cuidado conte como pontuação em processos seletivos de bolsas e editais.
O Rio de Janeiro também foi pioneiro com um edital específico para mães cientistas. Em 2024, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), em parceria com o Parents in Science e o Instituto Serrapilheira, lançou a iniciativa que apoiou 134 pesquisadoras. Uma nova edição está prevista para março do próximo ano.
Editais de fomento
A Faperj também implementou uma medida nos editais gerais: se a candidata se tornou mãe nos cinco anos anteriores, seu currículo é avaliado em um período estendido de sete anos. Leticia de Oliveira, presidente da Comissão de Equidade da Faperj, classifica o edital exclusivo como uma ação “compensatória” necessária.
“O que está sendo chamado de mérito? A produtividade, trocando em miúdos, é a quantidade de artigos publicados, de orientações de mestrado e doutorado… Mas as pessoas não partem do mesmo ponto. Quando a mulher tem um filho, é esperada uma queda, até porque ela fica de licença-maternidade e isso não tem a ver com qualidade dela como pesquisadora”, disse Leticia de Oliveira.
Ela ressalta que o interesse vai além da justiça social. “Se fosse só uma questão de justiça já seria suficiente, mas é muito mais do que isso. Vários trabalhos mostram que uma ciência diversa, feita por pessoas diversas, gera uma melhor ciência, porque você expande as perguntas e aumenta a capacidade de interpretação dos resultados. Então é também por excelência”, concluiu.
Inspirada na experiência fluminense, a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco está prestes a lançar uma seleção semelhante.
Ações em nível nacional
“A inclusão é fundamental, se não por outros motivos, para que haja uma ciência melhor. Eu não tenho dúvida que o nosso parlamento seria melhor do que ele é hoje, se tivesse uma presença feminina maior. E a ciência brasileira será melhor, porque a gente está trabalhando para isso”, disse a presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Denise Pires de Carvalho.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Graduado em Jornalismo (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Criador do Comitê Virtual (www.comitevirtual.com.br), plataforma de gestão de campanhas eleitorais. Criador do PubliqueAi (www.publiqueai.com), primeira plataforma brasileira de produção técnica de textos jornalísticos ou jurídicos, com uso de Inteligência Artificial; Criador do Quero Meu Carro de Volta (www.queromeucarrodevolta.com.br), lançado em 2012. Serviço de utilidade pública para vítimas de roubos e furtos de veículos em todo o país; Ex-produtor e apresentador do programa Panorama Político na Rádio Federal;














