Por Kleber Karpov
Uma pesquisa da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, conduzida entre 30 de janeiro e 5 de fevereiro e divulgada em 12 de fevereiro de 2026 no Rio de Janeiro, revelou que 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala de trabalho 6×1, desde que não haja redução de salário, em um momento crucial em que propostas que visam essa mudança tramitam no Congresso Nacional.
Os resultados da pesquisa, que ouviu 2.021 cidadãos acima de 16 anos nas 27 unidades da Federação, indicam um forte desejo por melhores condições de trabalho. Cerca de 84% dos entrevistados se manifestaram favoráveis a que os trabalhadores tenham, no mínimo, dois dias de descanso por semana.
Apesar do amplo apoio, o CEO da Nexus, Marcelo Tokarski, observou que o conhecimento sobre as propostas em debate no governo federal e no Congresso Nacional ainda é parcial. “A gente tem de cara 35%, ou seja, uma de cada três pessoas que nunca nem ouviu falar desse negócio. E dos 62% que já ouviram falar, 12% conhecem bem e 50% conhecem mais ou menos”, disse Tokarski.
Quando questionados sobre a redução salarial, a adesão à proposta diminui consideravelmente. Apenas 28% dos consultados permaneceriam favoráveis ao fim da escala 6×1 caso houvesse diminuição do salário. Marcelo Tokarski ressalta o dilema central da discussão: “Essa é a grande questão, porque as empresas defendem que a jornada não seja reduzida mas, se houver redução, é com diminuição do salário. E os trabalhadores, de maneira geral, não topam uma redução de jornada com redução de salário”.
A pesquisa também apontou um maior apoio ao projeto entre os eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com 71% a favor, contra 53% entre os que votaram em Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. “Era uma promessa, uma bandeira defendida pelo governo também. É natural que quem votou no Lula tende a apoiar mais”, complementou Tokarski.
Tramitação no Congresso
Duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) sobre a redução da jornada de trabalho estão em discussão na Câmara dos Deputados. Uma delas, a PEC 8/25, de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), propõe o fim da escala 6×1 e limita a duração do trabalho a 36 horas semanais. Esta proposta prevê que a nova jornada entre em vigor 360 dias após a sua publicação.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), informou em 09 de fevereiro de 2026 que encaminhou a PEC 8/25 para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para análise de admissibilidade. Motta apensou à PEC de Erika Hilton outra proposta de teor idêntico, apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que também reduz a jornada para 36 horas semanais, mas com entrada em vigor prevista para 10 anos após a publicação.
Hugo Motta destacou a importância do tema e a expectativa de votação. “Vamos ouvir todos os setores com equilíbrio e responsabilidade para entregar a melhor lei para os brasileiros. O mundo avançou, principalmente na área tecnológica, e o Brasil não pode ficar para trás”, afirmou Motta por meio de suas redes sociais em 09 de fevereiro de 2026. Em 10 de fevereiro de 2026, ele reiterou que a votação pode ocorrer em maio.
Implementação gradual
Outra iniciativa legislativa, a PEC 148/2015, já foi aprovada em 10 de dezembro do ano passado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Para sua aprovação final, ela ainda necessita de duas votações no plenário do Senado e duas na Câmara, exigindo o voto favorável de, no mínimo, 49 senadores e 308 deputados.
Se a PEC 148/2015 for aprovada, o fim da escala 6×1 ocorrerá de forma gradual. No primeiro ano após a aprovação, as regras atuais seriam mantidas. A partir de 2027, o número de descansos semanais aumentaria para dois e a jornada máxima semanal cairia para 40 horas. O teto final de 36 horas por semana seria alcançado a partir de 2031.
Um ponto crucial em debate é a redução de salário. Anteriormente, previa-se que os empregadores não poderiam reduzir a remuneração dos trabalhadores para compensar o novo tempo de descanso. Este aspecto, entretanto, deverá ser votado separadamente pelo Congresso Nacional, gerando incerteza para a população. A pesquisa da Nexus aponta que 52% dos entrevistados acreditam que a proposta será aprovada pelo Congresso, enquanto 35% pensam o contrário, e apenas 12% afirmam entender bem a PEC.
Marcelo Tokarski salientou a dificuldade de aceitação de uma redução salarial. “No Brasil, país de renda média baixa, de trabalho mais precarizado, pouca gente aceita ter uma folga a mais se o salário diminuir”, disse ele.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal.











