Opinião: IGESDF, o parasita da saúde do DF

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Por Gutemberg Fialho

Por definição – não minha e, sim, do dicionário -, o parasita é um ser vivo que retira os nutrientes necessários para o seu desenvolvimento de outro ser vivo. E, ao observar o IGES-DF com mais precisão, chega-se à conclusão de que o Instituto faz exatamente o mesmo movimento do parasita com a rede pública de saúde do DF: tira de lá os poucos nutrientes que restam ao SUS-DF para manter ali a imagem de uma instituição que agrega e entrega. Porém, na prática, e os pacientes sabem bem disso, o IGES limita e segrega a assistência à saúde.

Na semana passada, o governador Ibaneis Rocha anunciou, inclusive, que ainda neste ano, devem ser entregues as UPAs de Ceilândia, Paranoá, Riacho Fundo, Brazlândia, Gama, Vicente Pires e Planaltina: todas administradas pelo IGES-DF, a exemplo das atuais Unidades de Pronto Atendimento de Ceilândia, do Núcleo Bandeirante, do Recanto das Emas, de Samambaia, de São Sebastião e de Sobradinho. Fiquei surpreso, confesso. Por conta da tal matemática, que não mente.

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Atualmente, além das UPAs, o IGES-DF faz a gestão do Hospital de Base e do Hospital Regional de Santa Maria. O custo previsto das novas UPAs – que de fato são uma necessidade para a população tão padecida pelo abandono da saúde pública – é de R$ 46 milhões. Em abril deste ano, segundo a imprensa local, o IGES-DF tinha uma dívida de custeio de aproximadamente R$ 250 milhões. Nesse ínterim, foi denunciado e veiculado que a SES-DF estava devendo R$ 13 milhões à Associação Saúde em Movimento (ASM), referentes aos serviços prestados na gestão de quatro unidades de hospitais de campanha, entre eles Santa Maria e Ceilândia – inclusive, isso atrasou o salário de médicos e outros profissionais da linha de frente da covid-19.

Lembrando que o Base e Santa Maria são geridos pelo IGES-DF, criado, em 2017, como Instituto Hospital de Base: a terceirização do maior hospital do DF. Terceirização, salientando, é a contratação de serviços de terceiros para alguma função. Neste caso, significou colocar na mão de empresas privadas a responsabilidade pela prestação de serviços públicos. Depois, quando Ibaneis assumiu, ampliou o modelo e criou o IGES-DF. Mais terceirização…A promessa, com isso, era de uma melhora incrível na assistência à saúde pública do DF.

Há poucos meses, foram paralisadas consultas médicas e o tratamento oncológico de pacientes com câncer no Hospital de Base por falta de remédios. Em Santa Maria, o CRM-DF alertou recentemente para a falta de antibióticos e sedativos: essenciais para o tratamento da covid-19. Nesta semana, estive na UPA de Sobradinho (gerida pelo IGES-DF) e adivinha? Déficit de médicos, falta de próteses e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) de procedência duvidosa.

Agora, voltando à matemática. Tem verba para erguer sete UPAs, entregá-las antes de 2022 (ano eleitoral), mas não tem dinheiro para medicamentos oncológicos, cujos pacientes, com câncer, morrem sem tratamento adequado? Por que construir mais unidades geridas pelo IGES-DF e não pela Secretaria de Saúde? É estranho, no mínimo.

Por que não investir os R$ 46 milhões na própria SES-DF, que sofre com hospitais aos pedaços e, ainda assim, se esforça suprir a demanda da população? Fica aqui a reflexão.
Acredito que legados são feitos de condutas. E essas condutas, marcadas por decisões na gestão pública, levam a resultados. Bons resultados quando as condutas são bem intencionadas. O IGES-DF não é um bom resultado. O SUS é um bom resultado. É fruto da certeza de que a saúde é direito de todos e dever do Estado. Disso, sim, vem o legado de um governante: deixar o seu cargo, ou permanecer nele, com uma população saudável. Por isso, digo novamente, o IGES precisa parar de parasitar a rede pública e devolver aos servidores e à população o que lhes foi tirado.

Gutemberg Fialho é médico e advogado,
presidente da Federação nacional dos Médicos
e do Sindicato dos Médicos do DF

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