Rollemberg aponta hospitais como ‘cases de sucesso’ na Saúde mas ignora judicialização do Instituto HBDF e fila de 20 mil crianças no Hospital da Criança

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Governo tenta esconder dados solicitados pela imprensa mas, acionado por e-SIC, expões números tão assustadores quanto em 2016

Por Kleber Karpov

Candidato a reeleição, ao falar sobre Saúde Pública nos debates, o governador do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB) apresenta, o Instituto Hospital de Base (IHBDF)(Fev) e a entrega do bloco II do Hospital da Criança de Brasília José de Alencar (HCB)(Jul), como as grandes realizações do governo, no que tange a saúde.

Nesta segunda-feira (3/Set), Rollemberg anunciou, a pretensão de converter os ‘grandes’ hospitais do DF, também à condição de Serviço Social Autônomo (SSA). “Esse é o nosso objetivo. Começando por grandes hospitais como o Hmib (Materno Infantil da Asa Sul), HRT (Taguatinga), HRC (Ceilândia) e HRG (do Gama)”, mencionou. Comentário esse que demonstra que o governador do DF que parece ignorar decisão recente do Tribunal de Justiça do DF (TJDFT), no que tange ao próprio IHBDF.

Embora ainda caiba recurso, o juiz titular da Segunda Vara da Fazenda Pública do TJDFT julgou parcialmente procedente o pedido do Sindicato dos Médicos do DF (SINDMÉDICO-DF)(8/Ago), ocasião em que o juiz obrigou o GDF a converter o IHBDF em Fundação Pública, contratar profissionais, apenas por concursos públicos, além de realizar licitações para aquisições de materiais e serviços.

Em reportagem na tarde desta segunda-feira (3/Set), o Metrópoles, ao abordar as intenções de Rollemberg, lembrou que a gestão desagrada a políticos, sindicatos, servidores, mas principalmente, os usuários. trouxe a tona, exemplos de casos, de usuários da Saúde Pública do DF que não conseguem acesso a tratamentos. De cinco casos abordados pelo veículo, um paciente elogiou o serviço.

Outro dado relevante é que, embora o governador sugira a redução do prazo para a realização de licitações para algo em torno de 40 dias, o IHBDF deve apresentar, caso consiga alcançar, um crescimento estimado em 20% da capacidade de atendimento, se comparado à condição de hospital público. Isso com o agravante de a unidade ter sucateado serviços essenciais a exemplo dos transplantes cardíacos, de rins e ter transferido o atendimento pediátrico ao Hospital da Criança.

Crianças sem atendimento

Ao mencionar o HCB, entra em questão  segundo ‘case de sucesso’ de Rollemberg, algo também questionável. Embora o Hospital, que só atende crianças com encaminhamento médico, apresente dados invejáveis, os números guardados a sete chaves são de assustar.

Em 26 de julho de 2016, Política Distrital (PD) publicou matéria em que a Secretaria de Estado de Saúde do DF (SES-DF) admitiu a existência de uma fila de 30 mil crianças a espera de atendimentos pediátricos em toda rede de saúde do DF. “A Saúde de Brasília informa, ainda, que a fila de espera pelas consultas em toda a rede contém 30 mil pessoas. Contudo, o tempo de espera é menor no Hospital da Criança. Em algumas especialidades, este prazo é de somente 30 dias. Na rede, pode ultrapassar 1 mil dias, realidade que está sendo enfrentada por esta gestão para ser reduzida.”.

Na ocasião, PD acompanhava o caso do então recém-nascido Ghael Davi, com dois meses, com distúrbio neurológico grave que não conseguiu atendimento na unidade, mesmo com a admissão da SES-DF que o estado da criança era crítico. Vale observar que o pequeno Ghael, mesmo após a família obter liminar na Justiça, para ter acesso a um leito de Unidade de Terapia Infantil (UTI) veio a óbito, na unidade semi-intensiva do Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB), no final de outubro de 2017.

O outro caso, da pequena Ana Beatriz, então com três anos e meio, filha de Ana Paula, moradora de Riacho Fundo I. Com dois pedidos de exames para o HCB, de unidades diferentes, e um ano e meio de espera, a criança não conseguiu atendimento de um endocrinologista.

Porém, o objetivo de PD à época era tentar descobrir a demanda reprimida específica do Hospital da Criança, uma vez que Rollemberg anunciava a unidade como referência em gestão por meio de Organização Social (OS). Posição essa que a SES-DF, mandou após alguma insistência, em 29 de julho em que a pasta admitiu que das 30 mil, metade das crianças, ou seja, 15 mil, aguardavam atendimento no HCB.

Desinformação e sonegação

Rodrigo Rollemberg em sabatina com blogueiros políticos do DF – Foto: Chiquinho Dornas

A referência de gestão em Saúde utilizada por Rollemberg, também chamou atenção em outro episódio. Em 20 de setembro de 2016, o chefe do Executivo deixou claro, em uma sabatina com blogueiros do DF, não ter ideia da demanda reprimida no atendimento pediátrico do HCB.

Ao ser questionado sobre a coerência de afirmar que o Hospital da Criança era referência em gestão por OS, quando havia uma demanda reprimida de 15 mil crianças para atendimento Rollemberg foi taxativo. “Primeiro eu desconheço essa lista de 15 mil pessoas esperando atendimento. A gente tem que avaliar qual é o tipo de atendimento. O atendimento do Hospital da Criança é um atendimento especializado. Mas, sem dúvida, isso vai ser muito reduzido, com a construção do bloco 2 do Hospital da Criança, que vai poder atender toda essa demanda que está reprimida, digamos assim.”, disse Rollemberg.

Ainda durante a coletiva, Rollemberg recebeu da Assessoria de Comunicação, um parecer da SES-DF, com uma nova posição que mencionava que os 15 mil atendimentos em demanda reprimida por parte da SES-DF, não era especificamente do HCB, mas de toda a rede de Saúde do DF.

Porém, ao ser confrontado com dados oficiais em poder de PD, e em nova apuração, em 2 de agosto a rede reconheceu os números corretos, e atualizados. “A Secretaria de Saúde informa que a fila de espera por consultas no Hospital da Criança possui 16.662 pessoas. Esse quantitativo leva em consideração apenas os casos que podem ser atendidos exclusivamente nesta unidade de saúde.”.

O que chama atenção nesse episódio é que desde então, questinado por duas ocasiões, em 2017 e nesse ano, questionado a SES-DF passou a se furtar a responder sobre a demanda reprimida do HCB. Isso sob argumento de  não ter um sistema de regulação específico para o Hospital da Criança. Desculpa essa que não convenceu PD, uma vez que nos anos anteriores a Secretaria dispunha de tais informações, provenientes do Sistema de Regulação (SIS-REG).

Após as duas negativas, PD recorreu ao Sistema Eletrônico do Serviço de Informações ao Cidadão (e-SIC), em que apresentou o questionamento “Mediante negativa de existência de controle por parte da SES-DF, à partir de 2017, de controle de atendimentos específico para o Hospital da Criança José Alencar (HCB), informação essa contraposta por servidores da SES-DF que reafirmaram que o Sistema de Regulação estabelece atendimentos específicos para o referido hospital. Gostaria de solicitar informações atualizadas, sobre a demanda reprimida, registrada no SISREG de atendimentos especificamente para o Hospital da Criança de Brasília Jose Alencar.”.

Para a surpresa, após tal questionamento, PD obteve um parecer que, mesmo após a inauguração do Bloco II (4/Jul), o Hospital da Criança de Brasília permanece com uma demanda de aproximadamente 20 mil atendimentos (17/Ago), em diversas especialidades.

Chama atenção que entre as maiores demandas, estão atendimentos considerados sensíveis. De um total das 19496 crianças que aguardam atendimento no HCB constam consultas: 6216 para cirurgias; 837 cardiológicas, 6735 neurológicas, 19 de neurocirurgias, 1948 de gastroenterologia, 1758 com endocrinologistas, 1165 consultas com dermatologistas.

Confira a lista completa:

HCB Central de Regulação Agosto 2018 by Kleber Karpov on Scribd

Sonegação II

Em tempo, ao mencionar em tentativa de o governo esconder número, PD aproveitou para tentar descobrir junto ao E-SIC, não antes de tentar via SES-DF, diretamente, as demandas reprimidas de diversos tipos de cirurgias da SES-DF, do IHBDF, e ainda, do Instituto do Coração do DF (ICDF), esse último, em relação aos inúmeros de óbitos de recém-nascidos, que ocorrem, em detrimento da falta de leitos de UTIs, nos hospitais públicos que dependem de disponibilidade de vagas no ICDF.

Caso como o do então recém-nascido Vitor Hugo Brandão Ferreira, recém nascido, foi diagnosticado com uma cardiopatia congênita, aguardou por uma cirurgia cardíaca, internado no Hospital Regional de Samambaia (HRSAM). Aos 17 dias, a família já tinha em mãos decisão do TJDFT que garantia atendimento na rede pública ou privada, mas veio a óbito pois a SES-DF ignorou a decisão judicial e só garantiu atendimento ao bebê ter contraído infecções urinária e sanguínea.

Recém-nascido Vitor Hugo que faleceu após descumprimento de decisão judicial de garantia de atendimento na rede pública ou privada seguido de omissão do governo

Ou ainda do recém-nascido Mateus que lutou para sobreviver na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Pediátrica do Hospital Regional de Sobradinho (HRS). Diagnosticado com transposição dos grandes vasos, o bebê esperou por cirurgia, foi transferido, mas morreu no ICDF para relatar que o bebê veio a óbito, nos braços da mãe, na tarde do dia anterior, 01/06/2018, isso, cinco dias após ter sido transferido para o Instituto de Cardiologia do DF (ICDF), e de duas decisões judiciais, que garantia atendimento ao bebê, que só foi transferido para o ICDF em 28/05/2018, já em estado gravíssimo em com falência renal, veio a óbito, nos braços da mãe, no hospital em 1o de junho. Caso esse emblemático que rendeu ao Metrópoles, uma ação ‘atípica’ da Agencia de Fiscalização para retirada de um painel de publicidade.

Porém, tal pedido por parte de PD, não atendido na integralidade por parte da SES-DF, via e-sic, sob argumento não estar em “em processo de implantação pela Central de Regulação de Cirurgias Eletivas”, ou ainda que “As cirurgias de urgência, de qualquer que seja a especialidade, têm caráter dinâmico e são responsabilidade da gerência de cada hospital onde os pacientes estão internados. Quanto às cirurgias eletivas ortopédicas, especialidade subordinada à GESCIR, não há dados centralizados quanto à fila de cirurgias, uma vez que aguarda-se a implantação completa do sistema de regulação de cirurgias eletivas.”.

O caso também chama atenção, uma vez que, independente da dinâmica, em abril de 2015, no auge de um dos primeiros escândalos na gestão de Rodrigo Rollemberg, das Órteses e Próteses e Materiais Especiais (OPME), na Saúde, o então secretário de Saúde, João Batista de Souza, soube precisar, por exemplo, as 4.700 cirurgias eletivas e as 250 de urgência da ortopedia.

Sistema de Regulação de especialidades Médicas da SES-DF/Conveniados by Kleber Karpov on Scribd