“Dei voz de prisão para médico, dei voz de prisão para enfermeiro”, afirma distrital, Roosevelt Vilela (PSB-DF)

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O servidor público tem que vincular o salário dele ao trabalho. O que eu vejo é uma desvinculação. Ele passa no concurso público e ele fala: -Não isso aqui é uma herança que eu ganhei, vitalícia, entendeu. E tá aqui isso aqui e pahh.(Sic)”.

Por Kleber Karpov

Um vídeo de discurso do Bombeiro Militar, suplente de deputado distrital, Roosevelt Vilela (PSB), gravado, na manhã desta quinta-feira (7), no plenário da Câmara Legislativa do DF (CLDF) viralizou em redes sociais e aplicativos móveis. Ao defender as Organizações Sociais (OSs), o parlamentar afirmou ter dado voz de prisão a médico e enfermeiro, além de sugerir que o servidor da Secretaria de Estado de Saúde do DF  (SES-DF) não trabalha, o que causou revolta.

O episódio ocorreu durante a apresentação do relatório de gestão do último quadrimestre de 2015 à Comissão de Fiscalização, Governança, Transparência e Controle da CLDF, por parte do secretário de Saúde do DF, Humberto Fonseca.

Porém, o discurso de Vilela, do mesmo partido do governador Rodrigo Rollemberg (PSB), foi considerado uma “ofensa” por servidores, representantes de entidades sindicais e até Bombeiros Militares e aos servidores da Saúde e representantes o que despertou a ‘ira’ dos servidores foi o discurso de Vilela.

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“Eu como bombeiro, tenho 22 anos de corpo de Bombeiros, cansei de entrar dentro de hospital, dei voz de prisão para médico, dei voz de prisão para enfermeiro […] Estão vendendo para o servidor público que ele vai ter prejuízo. Eu não consegui visualizar até agora qual o prejuízo prático que o servidor público vai ter. Muito pelo contrário […] O servidor público tem que vincular o salário dele ao trabalho. O que eu vejo é uma desvinculação. Ele passa no concurso público e ele fala: -Não isso aqui é uma herança que eu ganhei, vitalícia, entendeu. E tá aqui isso aqui e pahh.(Sic)”.

 

Auxiliares e técnicos em Enfermagem

Após a repercussão do discurso de Vilela nas redes sociais, o vice-presidente do Sindicato dos Auxiliares e Técnicos em Enfermagem do DF (Sindate-DF), Jorge Vianna, postou outro vídeo de resposta.

“Eu queria fazer um comentário aqui com relação ao deputado Roosevelt Vilela que ontem esteve na CLDF e falou do servidor público. Olha respeito muito a instituição Corpo de Bombeiros, sou do SAMU [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência], e sei que ali tem valorosos homens e mulheres para salvar vida. Mas me decepcionou muito o deputado Roosevelt Vilela em falar que estão vendendo uma informação para os trabalhadores que, se as OSs entrarem, não terá prejuízo. Deputado, claro que terá prejuízo, e muito prejuízo. É porque o senhor  não sabe a diferença de uma instituição privada,  trabalhando atuando pagando com salário de intuição privada, diferente do servidor público, a qual fez um concurso público, a qual tem algumas vantagens, que não são heranças, que o senhor falou que existe heranças. Não. Heranças não. Existem lutas que muitos sindicatos lutaram a vida toda  para conseguir, e que querem tirar e a gente não vai deixar tirar essas ‘heranças’ que o senhor está falando. Então ali, muitas pessoas morreram até inclusive esperando essas tais esperanças [heranças] que o senhor está falando. Muita gente morreu e não conseguiu ver. E nós conseguimos algumas vantagens que vão ficar para o futuro, porque hoje nós demos o suor e muitas vezes o sangue por essas ‘heranças’. (Sic)”.

Vianna criticou também, em relação às vozes de prisão referenciadas por Vilela, durante o pronunciamento durante a prestação de contas do Secretário de Saúde.

“Olha o senhor também falou que deu voz de prisão para médicos e enfermeiros como se nós fôssemos bandidos. O senhor não pode se vangloriar porque deu  prisão a médico e enfermeiros. Pelo contrário, o senhor tem é que ficar triste em saber assim: -Eu sou servidor público do Corpo de Bombeiros, eu vou ter que tomar uma atitude mais enérgica com esses profissionais que estão aqui trabalhando porque não tem  profissional, porque não tem remédio. Não deputado, enquanto você fica tentando prender médico e enfermeiro, os gestores, o seu patrão, o seu amigo [Rodrigo Rollemberg], fica assistindo de camarote e é isso que você quer? A população não quer isso não. Então o senhor foi muito infeliz em seu depoimento. Eu acho que o senhor deveria se retratar com todos os profissionais de saúde. Eu achava e tinha uma ponta de esperança de que o senhor, o único que pelo menos conhece, é o mais conhece um pouco da saúde, eu achava que o senhor poderia ajudar, mas pelo que eu estou vendo, o senhor está é atrapalhando. Eu sou Jorge Vianna, do Sindicato dos Técnicos em Enfermagem.”.

 

Enfermeiros

O Blog conversou ainda com a Dayse Amarilio, prestes a ser empossada presidente da Chapa 2, recém eleita para assumir o Sindicato dos Enfermeiros do DF (SEDF). A nova sindicalista, encaminhou ao Política Distrital uma nota de repúdio, publicada na íntegra em relação ao pronunciamento de Vilela.

“NOTA DE REPÚDIO

Na última quinta feira, o deputado Rosevelt Vilela compôs uma mesa de debate relevante para a Saúde do DF. Porém, em seu tempo de fala fez questão de enaltecer que já deu voz de prisão para médicos e enfermeiros, o disse com muito orgulho do feito.

Finalizou seu discurso dizendo que a rejeição às OSs, por parte dos funcionários públicos, se deve a um perfil que diz termos: consideramos a nomeação uma segurança tal qual como quem recebe uma herança e que, portanto, não trabalhamos.

A chapa 2, eleita para o sindicato do Enfermeiros do DF, no dia 07 de abril de2016, não pode se omitir de comunicar ao nobre deputado nosso repúdio à sua infeliz declaração. E também não podemos deixar de lamentar que tal desinformação assole a mente de alguém quem foi eleito para defender a população.

 Precisamos lembrá-lo que os funcionários públicos hoje o são por meritocracia. Sobretudo, no tocante aos profissionais de saúde, rede privada e pública,  enchemos a boca para dizer que antes sermos aprovados em concurso público, temos formação profissional motivada primeiramente pela vocação de servir e cuidar de vidas.

 Formações que variam de 2 a 7 anos de duração, ou mais. Muitas delas conquistadas com luta diária e jornadas extenuantes; dias inteiros de trabalho que subsidiam o pagamento de estudos noturnos e até em finais de semana. Isto no caso dos colegas menos afortunados, e mesmo os que já vêm abonados financeiramente, assim se dedicaram anos a fio, pelo brio e orgulho de salvar vidas, de proporcionar melhor qualidade de vida à população.

Maus profissionais existem em todos os segmentos e devem ser punidos. Inclusive no meio em que o senhor trabalha, haja visto a situação crítica  e vergonhosa em que políticos e empresários corruptos mergulharam nosso país.

Terminamos dizendo que nos envergonhamos hoje duplamente; primeiro por sua postura no discurso contra o servidor e segundo por termos errado tão ingenuamente em eleger e dar voz a quem desrespeita até sua categoria de base: os honrados funcionários públicos bombeiros.”

Médicos

O Blog conversou ainda com o presidente do Sindicato dos Médicos do DF (SindMédico), Gutemberg Fialho. O Sindicalista informou que não estava no DF, mas tomou conhecimento da exposição de Vilela e prepara uma nota que deverá ser publicada na próxima semana.

Colega de profissão

Política Distrital conversou com um Bombeiro Militar, que pede para não ser identificado, que criticou o colega de profissão.

“A posição do Roosevelt e arcaica. Ele se pronuncia sobre isso pois nunca trabalhou em uma UR [Unidade de Resgate] que é integrada com os médicos do SAMU. As condições dos hospitais são ridículas, local improprio até para o trabalho.(Sic)”

O que diz Vilela?

O Blog tentou falar com Vilela que, por meio do aplicativo Whatsapp informou estar em reunião, mas, informou que publicaria uma nota de esclarecimento em que justifica que o vídeo que circula nas redes sociais “está com cortes, retirando assim a minha fala de um contexto geral quando mencionava os maus profissionais que existem em qualquer órgão, seja ele público ou privado.”.

Não foi a primeira vez

Vilela se indispôs com os servidores da Saúde do DF, entidades sindicais, representantes do Conselho de Saúde do DF e de outras instituições em outro episódio. Isso durante a realização de audiência pública para discutir as Organizações Sociais (14/Mar). Na sessão presidida pelo distrital, Reginaldo Veras (PDT), ocasião em que, talvez sem a intenção, afirmou que o Executivo não tem competência para gerir a Saúde do DF, questionou as opiniões contrárias às OSs, sob argumento de defender um ponto de vista ‘técnico’ e saiu sob vaia do auditório, lotado, da CLDF.

“Esse é um instrumento garantido pela Constituição e por lei federal. Eu tive a oportunidade de estar no estado de Goiás e visitar OSs. Talvez tenham maquiado alguma coisa, eu não sei, mas o que eu vi, com todo respeito à opinião de todos, mas eu saí impressionado. Claro, as visitas aos hospitais que são de portas fechadas.”, disse ao ser exclamado pelos presentes. […] O Estado tem a função de regular e fiscalizar e ditar as políticas públicas daquela região. Então eu acho que o estado tem que repensar e partir para esse sentido. Nós temos hoje modelos de gestão modernos de forma de ser aplicado deforma moderna e o Estado não consegue aplicar isso. O Estado quando assume essa posição de aplicar OSs é porque ele assume que não tem capacidade de fazer gestão. E isso, muito pelo contrário tem que ser louvável.”.

Retratação

Em Nota de Esclarecimento, Vilela pede desculpas aos servidores públicos da Saúde e justifica que no momento em que discursou, estava “exercendo o meu papel de fiscalizador. Como membro da Comissão de Fiscalização, Governança, Transparência e Controle (CFGTC)”.

Confira a Nota na íntegra:

Vilela

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