Pacientes tratam malformação de pés e calçam tênis pela primeira vez

Ação foi graças à terapia para adultos oferecida exclusivamente no Hospital de Base e mantida durante a pandemia

Por Thais Umbelino

Três histórias e um sonho simples em comum: calçar um tênis pela primeira vez na vida. Foi esse objetivo que uniu Iarlen Nascimento, 22 anos; Carlos André Oliveira, 30; e Leiliane Melquiades, 37; durante mais de sete meses de tratamento no Hospital de Base (HB), em meio à pandemia, para corrigir os pés virados em razão de má formação. O sonho foi concretizado na última sexta-feira (3), com a ajuda do ortopedista, Davi Haje, que aplicou uma técnica inédita no mundo para adultos que têm a deformidade e, ainda, fez questão de doar para cada um deles o primeiro tênis da vida.

Ortopedista, Davi Haje fala sobre o método Ponseti – Foto: Davidyson Damasceno/IGESDF.

O médico explica que os pacientes foram submetidos ao método Ponseti, criado na década de 60 para crianças com até um ano de vida, chamada idade da marcha. A técnica usa gesso para remodelar os pés até que eles voltem para a posição correta. Não havia relatos na literatura médica mundial de que adultos pudessem receber o tratamento, até que o médico apresentou os primeiros casos de adultos resolvidos no HB com a técnica, em 2019. Desde então, sete pacientes já foram beneficiados. Antes, quando não tratados na infância, os casos só podiam ser resolvidos cirurgicamente, mas com resultados muito inferiores ao do gesso.

Leiliane Melquiades veio de longe, de Pernambuco, para procurar o tratamento no HB depois de ler uma reportagem sobre a terapia. “Quando era bebê tentaram esse método, mas como eu morava no interior, além da dificuldade de deslocamento até o centro, não havia os conhecimentos que se tem hoje”, contou a bancária. “Quando eu vi que era possível em adultos, fiquei maravilhada e entrei em contato com o Hospital de Base”.

Leiliane começou a terapia para correção dos dois pés em 25 de setembro de 2020. Ela precisou se mudar para Brasília, onde reside atualmente na Asa Sul. A possibilidade de fazer trabalho remoto tornou a iniciativa possível. “A cada substituição era uma emoção. Ver o progresso e que o pé está desentortando é muito emocionante e milagroso”, definiu a pernambucana.

A bancária conseguiu calçar o tênis no pé esquerdo. Agora, precisa concluir o pé direito para receber alta. “Quando eu finalizar todo o procedimento minha vida vai mudar completamente, desde o colocar os pés no chão e não sentir mais dor a poder me locomover. É muita qualidade de vida”, define.

Iarlen Nascimento, morador do Sol Nascente que trabalha como barbeiro, também ficou sabendo do serviço após ler uma matéria na internet. Em dezembro de 2020, começou a terapia para corrigir a má formação do pé direito. “Nunca imaginei que iria resolver o problema do meu pé. Não tenho palavras para descrever o que estou sentindo”, disse o jovem, que já foi para casa usando o calçado, depois do último dia de tratamento.

Já o maranhense Carlos André não imaginava que na mesma cidade onde encontrou oportunidade de trabalho seria o local onde realizaria o sonho de calçar um tênis. “Meu sonho nunca foi ser rico, mas sim fazer a cirurgia no meu pé”, contou o estoquista. Morador há mais de dois anos do DF, desistiu do tratamento que seria cirúrgico na rede particular devido ao alto custo. “Seria de aproximadamente R$ 5 mil por mês”, relembra.

Quem o incentivou Carlos a procurar o serviço no HB para corrigir a malformação no pé esquerdo foi seu chefe. “Ele viu o tratamento em uma reportagem e me contou”, disse.

Para o médico, a conquista dos pacientes também foi uma vitória ele, que conseguiu manter o serviço eletivo mesmo durante a pandemia. “Eu tive apoio da chefia da ortopedia e conseguimos manter o tratamento, que é periódico e exige uma continuidade para um resultado eficiente. O procedimento trata-se de uma ação simples de engessamento semanal de membros inferiores para remodelar os pés. Quando necessário, é feita uma pequena incisão para completar correção”, disse.

Tratamento em adultos

O primeiro caso tratado por Davi Haje foi noticiado em 2019, sendo que a terapia foi destaque na mais recente edição do respeitado Iowa Orthopedic Journal, dos Estados Unidos, em março deste ano.

A reparação é realizada com a ajuda dos profissionais chamados imobilizadores ortopédicos, responsáveis por posicionar os pés com a ajuda do ortopedista e fazer a imobilização com o uso do gesso, que é trocado periodicamente. “Esse é um processo doloroso, porque o pé da pessoa adulta já está enrijecido. Então, a gente tem que ir forçando o pé para deixá-lo cada vez mais para frente”, esclareceu o imobilizador ortopédico Robson Souza Matias.

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