O peso leve do dinheiro

Por Gustavo Frasão

Outro dia, saí de casa com uma nota de R$ 50 no bolso. Achei que estava preparado para o mundo — dinheiro na mão, fome no estômago, padaria no caminho. Ingenuidade a minha. A nota, com seu valor impresso, suas cores e marcas, parecia até uma relíquia arqueológica. A atendente olhou para ela com o mesmo espanto com que se encara uma fita cassete ou um telefone de disco. “Não tenho troco”, ela disse, quase se desculpando. E completou: “Se quiser, pode pagar no débito.”

Voltei para o carro somente para buscar a carteira. A mesma carteira que anda cada vez mais vazia de papel e cheia de plástico. Ou nem isso: tem quem só ande com o celular e resolva a vida inteira com um toque na tela. O dinheiro físico está sumindo. Primeiro foi o cheque, agora são as moedas, as cédulas… e junto com elas, o velho hábito do troco, da vaquinha em espécie, do cofre de lata.

Aos poucos, o dinheiro tangível foi se tornando um fantasma. Não é mais bem-vindo no transporte público, nas lanchonetes, nos mercadinhos de bairro. E se antes era um símbolo de poder e segurança, hoje uma nota de cinquenta pode ser um entrave — um bloqueio para um pão com queijo.

É curioso como aquilo que representava liberdade passou a nos restringir. Estamos mais ágeis, é verdade. O Pix resolveu o problema da pressa e das filas, o débito nos livrou dos centavos e do famoso troca em balinhas. Mas também há algo que se perde nesse processo silencioso de digitalização completa: o valor do toque, da troca, da presença e da negociação real. Se ficarmos sem internet, sem energia, como será o comércio?

Talvez a saída não seja lamentar o avanço, mas humanizá-lo. Se o dinheiro físico está desaparecendo, que pelo menos não desapareça com ele o senso de comunidade que o acompanhava. Que o troco — mesmo que virtual — venha com gentileza. Que o caixa que não aceita nota ainda tenha paciência. Que a tecnologia, tão eficiente, não nos roube o afeto. Que não percamos o plano B para situações e situações, que a qualquer momento podem acontecer.

Afinal, dinheiro não compra tudo. Mas um pão com queijo, às vezes, compra um instante de humanidade.


Gustavo Frasão
Jornalista


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