Por Kleber Karpov
Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado nesta quarta-feira (04/Mar) de 2026, em São Paulo, revelou que as mulheres negras são a maioria entre as vítimas de feminicídio no Brasil. A análise de 5.729 registros oficiais, ocorridos entre 2021 e 2024, demonstrou que 62,6% das vítimas eram negras, em comparação com 36,8% de mulheres brancas. O estudo aponta que o crime não pode ser compreendido apenas como violência de gênero, mas como um fenômeno ligado a questões estruturais da sociedade, como a desigualdade racial.
Perfil das vítimas e agressores
Segundo Samira Bueno, diretora executiva do FBSP, a sobrerrepresentação de mulheres negras entre as vítimas de feminicídio evidencia a extrema vulnerabilidade dessa parcela da população. O perfil dos crimes indica que a violência letal contra mulheres no país é, majoritariamente, uma violência de proximidade física, emocional e relacional, que se desenvolve no espaço privado.
“Trata-se de uma violência que se desenvolve no espaço privado, muitas vezes ao longo do tempo, e que poderia ser interrompida antes de alcançar seu desfecho fatal, desde que haja condições institucionais para isso”, concluiu o relatório do FBSP.
O feminicídio atinge principalmente mulheres adultas, com metade das vítimas tendo entre 30 e 49 anos. Essa faixa etária corresponde a mulheres em idade produtiva e reprodutiva, muitas vezes responsáveis pelo sustento da família e pelo cuidado de dependentes.
A análise dos agressores mostra que 59,4% são companheiros e 21,3% são ex-companheiros, indicando que oito em cada dez feminicídios foram praticados por homens com vínculos afetivos íntimos com a vítima. Além disso, 97,3% dos casos registrados entre 2021 e 2024 foram cometidos exclusivamente por homens.
“A quase exclusividade masculina na autoria indica que estamos diante de uma forma de violência vinculada a padrões de masculinidade que associam poder, controle e posse à identidade masculina”, avalia a entidade.
O ambiente do crime
Em relação ao local, 66,3% dos casos ocorreram na residência da vítima. A via pública aparece em segundo lugar, com 19,2% dos registros. Outros locais, como estabelecimentos comerciais, áreas rurais e hospitais, representam percentuais menores.
“A centralidade da residência como cenário do crime é mais um elemento que mostra que estamos diante de uma violência enraizada no cotidiano doméstico, no interior de relações afetivas e familiares”, indicou o Fórum.
Quanto aos meios utilizados, 48,7% das vítimas foram mortas por arma branca e 25,2% por arma de fogo. O predomínio da arma branca sugere confrontos diretos em ambiente doméstico, enquanto a presença de armas de fogo indica a potencialização da letalidade em conflitos íntimos.
“Quando o feminicídio ocorre, ele expõe não apenas a ação do autor, mas também, e talvez principalmente, as falhas acumuladas na capacidade de prevenção, proteção e resposta do Estado e da sociedade”, reforça o relatório.
Concentração em pequenos municípios
O levantamento de 2024 identificou que cidades pequenas, com até 100 mil habitantes, concentram 50% dos feminicídios no país, embora abriguem 41% da população feminina. A diretora do FBSP aponta que “justamente nessas cidades, a gente não tem uma infraestrutura do estado, unidades especializadas para fazer o atendimento dessa mulher”.
Apenas 5% das cidades pequenas possuem delegacia da mulher e 3% contam com casa abrigo. Em comparação, 81% das cidades médias (100 mil a 500 mil habitantes) têm delegacia especializada, e nas grandes cidades (mais de 500 mil habitantes), esse percentual sobe para 98%.
Desafios para políticas públicas
Para Samira Bueno, o enfrentamento à violência contra a mulher exige a descentralização das políticas públicas. Ela ressalta que, apesar da importância da Lei Maria da Penha, existe uma grande desigualdade territorial na oferta de serviços e na institucionalização de políticas de proteção.
“A gente tem uma boa legislação, tem equipamentos e unidades especializadas de referência em muitos lugares, a gente sabe como eles precisam funcionar para o adequado acolhimento à mulher. Como é que a gente vai fazer para de fato dar capilaridade para a política?”, questiona Samira.
Diante das dificuldades orçamentárias, o FBSP sugere soluções que não dependem da criação de novas estruturas, mas da integração de serviços já existentes. A proposta é mobilizar equipamentos presentes na maioria dos municípios de pequeno porte.
“É possível mobilizar equipamentos que já existem e estão presentes na maioria dos municípios de pequeno porte, como Unidades Básicas de Saúde, delegacias não especializadas e centros de assistência social, para que integrem de forma estruturada a rede de atendimento às mulheres em situação de violência doméstica”, diz o relatório da entidade.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal.











