Por Kleber Karpov
Alterações nos padrões de temperatura e precipitação provocadas pelas mudanças climáticas aceleram o avanço de doenças infecciosas no território nacional (25/Out). O diagnóstico integra levantamentos epidemiológicos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e análises de especialistas no Rio de Janeiro. As anomalias térmicas frequentes e os eventos hidrológicos extremos eliminam barreiras climáticas históricas e viabilizam o avanço de patógenos para novas regiões geográficas.
Pesquisa da Fiocruz identificou que o número de microrregiões brasileiras com níveis epidêmicos de dengue subiu de 110 para 292 entre 2006 e 2024. A taxa representa mais da metade do território nacional (54%). O Rio Grande do Sul, estado historicamente protegido pelas baixas temperaturas, contabilizou quase 210 mil infecções e 281 óbitos em 2024, superando os 163 mil registros da Bahia. Paralelamente, a febre do oropouche se espalhou da Amazônia para 23 estados e o Distrito Federal, com mais de 12 mil notificações.
O infectologista da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial Celso Granato explicou a influência direta das variáveis meteorológicas na biologia do mosquito transmissor. “Eles colocam ovos com uma casca muito resistente, que podem permanecer por anos na natureza e se romper quando tem umidade e temperatura alta. E esses mosquitos já podem nascer infectados, porque há a transmissão da fêmea para os ovos”, disse Granato.
Granato pontuou que o calor intenso obriga o vetor adulto a bater as asas com maior velocidade. O inseto gasta mais energia e necessita picar com maior frequência para se nutrir, fato que eleva o contágio. A dispersão alcança outros países. Estados Unidos, França e Itália contabilizaram infecções autóctones recentes.
Secas, enchentes e zoonoses
A incidência de fenômenos climáticos severos potencializa surtos zoonóticos. Após as enchentes históricas registradas no Rio Grande do Sul, a contaminação pela bactéria da leptospirose, presente na urina de ratos e carreada pelas águas, apresentou forte elevação. As cheias provocam ainda a mistura de esgoto com água potável, situação que favorece epidemias de hepatite A e distúrbios gastrointestinais.
Por outro lado, as estiagens prolongadas e as queimadas forçam a migração de roedores silvestres para áreas urbanas e periurbanas. O contato propicia a transmissão do hantavírus, agente causador de síndrome cardiopulmonar grave. Desde 2016, as autoridades sanitárias confirmaram 530 ocorrências da infecção no Brasil, com 212 mortes registradas, índice que estabelece letalidade de 40%.
Adaptação e resistência fúngica
A elevação térmica global também compromete defesas biológicas humanas contra fungos. Durante congresso científico da área laboratorial, a professora da Universidade Federal do Espírito Santo Sarah Gonçalves Tavares destacou que espécies do meio ambiente rompem a barreira fisiológica dos 37 °C mantida pelo corpo humano.
“A gente tem micro-organismos que estavam no meio-ambiente e não eram causadores de doenças em seres humanos, mas eles foram se adaptando a vários tipos de estresse ao longo do tempo e começaram a surgir, principalmente, em pacientes em tratamento intensivo”, afirmou Sarah Gonçalves Tavares.
O exemplo mais crítico é o da Candida auris, patógeno com capacidade de resistir a temperaturas elevadas e a desinfetantes comuns. A espécie acumula 24 surtos hospitalares em 15 unidades da Federação desde 2020, quando o primeiro caso nacional surgiu na Bahia. O patógeno colonizou 146 pacientes e provocou 56 mortes, atingindo taxa de letalidade de 82% quando alcança a corrente sanguínea.
O fungo de pele Trichophyton indotineae, identificado em 2022, emergiu com resistência aos fármacos tradicionais. Eventos climáticos adversos na agricultura induzem o uso de fungicidas em lavouras, processo que seleciona cepas resistentes no solo. Ao mesmo tempo, alterações nos níveis de umidade dispersam espécies antes delimitadas geograficamente, a exemplo do Aspergillus, que amplia sua área de transmissão pelo país.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Graduado em Jornalismo (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Criador do Comitê Virtual (www.comitevirtual.com.br), plataforma de gestão de campanhas eleitorais. Criador do PubliqueAi (www.publiqueai.com), primeira plataforma brasileira de produção técnica de textos jornalísticos ou jurídicos, com uso de Inteligência Artificial; Criador do Quero Meu Carro de Volta (www.queromeucarrodevolta.com.br), lançado em 2012. Serviço de utilidade pública para vítimas de roubos e furtos de veículos em todo o país; Ex-produtor e apresentador do programa Panorama Político na Rádio Federal;
















