Por Kleber Karpov
O setor agropecuário brasileiro enfrenta risco de perdas bilionárias nesta sexta-feira (09/Out) diante de propostas de alinhamento geopolítico com os Estados Unidos defendidas pelo candidato Flávio Bolsonaro (PL). Compradores chineses absorvem 47% das vendas externas do campo nacional e movimentam transações cruciais para a balança comercial do país. A eventual ruptura da neutralidade diplomática pode desencadear medidas punitivas de Pequim por meio de barreiras sanitárias e tarifas alfandegárias. Representantes do agronegócio e diplomatas expressam cautela sobre os custos econômicos de trocar parcerias consolidadas por disputas ideológicas externas.
A corrente de comércio entre Brasil e China atingiu a marca de US$ 171 bilhões em 2025 e assegurou saldo favorável de US$ 29,1 bilhões aos produtores nacionais. O complexo da soja respondeu por US$ 34,5 bilhões em embarques e abasteceu mais de 70% da demanda do país asiático. As vendas de carne bovina, aves e suínos alcançaram US$ 10,764 bilhões no mesmo ciclo. Qualquer oscilação em Pequim afeta de maneira direta a receita cambial brasileira.
A tese de que o mercado norte-americano pode acolher a produção excedente do Brasil ignora a realidade comercial entre os dois países. Washington atua como concorrente direto do produtor brasileiro em grãos, carnes, algodão e etanol. O governo dos Estados Unidos mobilizou mais de US$ 12 bilhões em subsídios diretos para proteger seus agricultores e mantém taxas elevadas contra produtos de competidores externos.
A cadeia produtiva nacional também se apoia em forte dependência reversa de insumos químicos asiáticos. Complexos industriais da China fornecem 84% do glifosato e a totalidade do imazetapir que as lavouras brasileiras consomem. Além disso, o país importa mais de 85% dos fertilizantes utilizados no campo. A retenção administrativa desses produtos em portos chineses pode inviabilizar o plantio da safra e elevar os custos operacionais.
Barreiras regulatórias
O governo chinês dispõe de mecanismos indiretos para retaliar posições hostis sem a necessidade de decretar embargo formal sobre os alimentos. A fixação de cotas de salvaguarda com sobretaxa de 55% sobre a carne bovina já limitou embarques de frigoríficos brasileiros em períodos recentes. Exigências fitossanitárias e morosidade burocrática nas alfândegas funcionam como instrumentos de pressão rápida que reduzem os lucros dos exportadores.
Alerta do setor produtivo
Lideranças do agronegócio rejeitam o confronto diplomático e defendem a preservação do pragmatismo comercial com o mercado asiático. O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, Ricardo Santin, destaca que o fornecimento de alimentos não se subordina a preferências ideológicas de governantes. O ex-embaixador em Washington Rubens Barbosa também aponta que o setor produtivo não aceita entraves comerciais com seu principal comprador.
“Quando a China percebe que o Brasil fica vulnerável nessa posição de escolher um lado ou outro, ela tem que fazer opções. Para fazer proteína animal, eles precisam de proteína vegetal, e é aí que o produtor brasileiro corre perigo caso perca espaço”, advertiu o produtor rural Blairo Maggi ao defender a estabilidade diplomática.
Palpites furados do mercado
A pressão de grupos conservadores para alinhar o país a interesses externos se apoia com frequência em discursos do mercado financeiro da Faria Lima. Levantamento recente divulgado pelo portal UOL revelou, ainda em 2025, que analistas financeiros erram cerca de 95% das previsões econômicas publicadas no Boletim Focus, dados esses que não se alteraram ao longo de 2026. A histeria fiscalista desses operadores tenta ditar rumos governamentais mesmo após sucessivos equívocos em estimativas de crescimento e inflação.
Risco à economia real
A postura submissa de setores políticos a especuladores que falham em quase todas as projeções contrasta com a solidez do comércio exterior com a China. O agronegócio corre o risco de sacrificar negócios de dezenas de bilhões de dólares para agradar agentes que pouco entendem da produção real da terra. A especialista em investimentos asiáticos Larissa Wachholz alerta que capitais chineses recuam diante de cenários de confronto geopolítico, o que pode paralisar aportes em ferrovias e terminais portuários brasileiros.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Graduado em Jornalismo (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Criador do Comitê Virtual (www.comitevirtual.com.br), plataforma de gestão de campanhas eleitorais. Criador do PubliqueAi (www.publiqueai.com), primeira plataforma brasileira de produção técnica de textos jornalísticos ou jurídicos, com uso de Inteligência Artificial; Criador do Quero Meu Carro de Volta (www.queromeucarrodevolta.com.br), lançado em 2012. Serviço de utilidade pública para vítimas de roubos e furtos de veículos em todo o país; Ex-produtor e apresentador do programa Panorama Político na Rádio Federal;
















