Por Kleber Karpov
Dois pesquisadores brasileiros foram recentemente premiados por organizações internacionais devido às suas contribuições para o estudo da doença de Alzheimer. Em um esforço para encontrar novas abordagens para a condição, Mychael Lourenço, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Wagner Brum, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destacaram-se por seus trabalhos que buscam avanços no diagnóstico precoce e na prevenção da doença, que ainda não tem cura.
A doença de Alzheimer é um dos maiores desafios da medicina contemporânea. Seus sintomas evoluem da perda de memória recente para dificuldades de raciocínio, comunicação e movimentação, tornando o paciente totalmente dependente. Atualmente, poucos tratamentos conseguem retardar sua progressão.
Mychael Lourenço, professor da UFRJ e fundador do Lourenço Lab, foi contemplado com o ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research. Ele estuda a doença desde a graduação e ressalta a importância de dados locais para compreender a condição na população brasileira.
“Nós temos hoje no mundo em torno de 40 milhões de pessoas com doença de Alzheimer. Dessas, umas 2 milhões devem estar no Brasil, um número que pode ser subestimado por causa de problemas de acesso à saúde e diagnóstico. E nós temos uma população que está envelhecendo cada vez mais, mas a maior parte dos estudos são feitos no Norte global. Nós precisamos de dados para entender a doença no Brasil”, disse Mychael Lourenço.
O laboratório investiga por que o cérebro se torna vulnerável à doença e o que explica a resiliência de algumas pessoas, que não desenvolvem sintomas mesmo com a presença de placas de beta-amiloide, fragmentos de proteína associados ao Alzheimer desde sua descoberta em 1906.
“A gente continua tentando entender o que faz com que o cérebro se torne vulnerável e desenvolva a doença, inclusive olhando para o que a gente chama de resiliência para o Alzheimer. Tem pessoas como a Fernanda Montenegro, por exemplo, com 96 anos, e completamente lúcida e ativa. E tem pessoas que desenvolvem a placa de beta-amiloide no cérebro e não apresentam sintoma cognitivo. O que elas têm de diferente?”, questiona o pesquisador.
O grupo também testa substâncias em animais que podem evitar o acúmulo das proteínas beta-amiloide e tau, que formam as placas. A hipótese é que, no Alzheimer, o sistema celular de degradação de proteínas, chamado proteassoma, deixa de funcionar adequadamente.
Diagnóstico precoce como chave
Outra frente de pesquisa liderada por Lourenço foca na identificação de marcadores biológicos no sangue que permitam um diagnóstico precoce, antes que os danos cerebrais se tornem irreversíveis. “A doença de Alzheimer não aparece quando os sintomas aparecem: ela começa a se desenvolver muito tempo antes”, explica.
Nessa mesma área de biomarcadores, o médico e pesquisador Wagner Brum foi reconhecido. Doutorando na UFRGS e membro do Zimmer Lab, ele foi escolhido como o Next “One to Watch” pela Alzheimer’s Association. Seu trabalho de maior projeção foi o desenvolvimento de protocolos para a implementação clínica de um exame de sangue que diagnostica a doença a partir da proteína p-tau217.
“Em pacientes com medição muito alta ou muito baixa, claramente a gente poderia saber, apenas com o exame de sangue, se a pessoa tem ou não a doença. Mas tem cerca de 20% a 30% que ficam numa faixa intermediária, e esses precisam de um exame adicional”, afirmou Wagner Brum.
Do laboratório para o SUS
O protocolo desenvolvido por Brum já é utilizado em laboratórios na Europa e nos Estados Unidos, mas no Brasil sua adoção ainda está restrita a poucas instituições privadas. O objetivo do Zimmer Lab é viabilizar a implementação do exame no Sistema Único de Saúde (SUS).
“Para ele ser implementado no SUS, que é o nosso grande objetivo, são necessários estudos mostrando que a introdução desses exames pode melhorar tanto a confiança diagnóstica quanto mudar o tratamento do paciente. O que se tem visto em outros países é que esses exames fazem isso”, disse Brum.
Atualmente, o diagnóstico do Alzheimer depende principalmente da análise clínica e de exames de imagem, como tomografia e ressonância, que não são específicos para a doença. Testes precisos, como o exame de líquor e o PET-CT, são caros e pouco acessíveis. O exame de sangue representaria uma alternativa mais viável e confiável.
“É muito bom ver que a comunidade de pesquisa internacional presta atenção no que a gente faz e valoriza o que a gente faz. Tem muita gente fazendo pesquisa de excelência no Brasil, em muitas áreas diferentes, e que merece visibilidade”, concluiu Brum.
As pesquisas dos dois cientistas contam com o apoio de instituições como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), a Fundação Serrapilheira e o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR).
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal.










