Quatro acusados por campanha de ódio contra Maria da Penha viram réus

Ex-marido da ativista está entre denunciados por perseguições e uso de documento falso

Por Kleber Karpov

A Justiça do Ceará acolheu uma denúncia do Ministério Público estadual e tornou réus, nesta segunda-feira (09/Mar), quatro suspeitos de participarem de uma campanha de ódio contra a farmacêutica Maria da Penha. O grupo, que inclui o ex-marido da ativista, Marco Antônio Heredia Viveiros, é acusado de atuar de forma organizada para atacar a honra de Penha e descredibilizar a lei de combate à violência doméstica que leva seu nome, utilizando perseguições virtuais, notícias falsas e um laudo pericial forjado.

Além de Heredia, foram denunciados o influenciador digital Alexandre Gonçalves de Paiva, o produtor Marcus Vinícius Mantovanelli e o editor e apresentador Henrique Barros Lesina Zingano. Mantovanelli e Zingano são responsáveis pelo documentário “A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha”, uma das principais ferramentas da campanha.

As investigações apontam que os acusados promoviam perseguição, cyberbullying e a disseminação de conteúdos misóginos em sites e redes sociais. A atuação do grupo, segundo o Ministério Público, extrapolou o ambiente virtual quando Alexandre Paiva se deslocou até a antiga residência de Maria da Penha, em Fortaleza, para gravar vídeos que foram posteriormente divulgados na internet.

As acusações

Marco Heredia foi denunciado por falsificação de documento público, enquanto Alexandre Paiva responderá por stalking e cyberstalking. Já Zingano e Mantovanelli foram acusados de uso de documento falso, por terem utilizado um laudo de exame de corpo de delito adulterado no documentário produzido pela Brasil Paralelo S/A.

A peça audiovisual difundia a tese de uma suposta fraude processual no caso que condenou Heredia por tentativa de homicídio. Para sustentar essa narrativa, foi apresentado um laudo pericial forjado, que alegava lesões sofridas pelo ex-marido em uma suposta luta corporal com assaltantes, versão que ele usou para justificar o tiro que atingiu Maria da Penha.

Documento forjado

A análise técnica do documento concluiu que o material foi montado. Entre as fraudes identificadas estão a inclusão de informações sobre lesões que não constavam no laudo original, diferenças nas assinaturas dos peritos e marcas de carimbos compatíveis com montagem. O grupo também utilizava conversas em aplicativos para planejar as estratégias da campanha, que, segundo o MP, visava ao lucro com a desinformação, conforme revelaram extratos bancários de Paiva.

Investigação

A apuração do caso, iniciada em 2024 pelo Núcleo de Investigação Criminal (Nuinc), resultou na operação “Echo Chamber”. Em uma primeira fase, em dezembro de 2024, foram realizadas buscas no Espírito Santo e no Rio de Janeiro, que levaram à suspensão do perfil de Paiva e à proibição de que ele se aproximasse de Maria da Penha e de suas filhas.

Uma segunda fase da operação, em julho de 2025, cumpriu mandados de busca em Natal, onde foram apreendidos documentos e equipamentos eletrônicos, incluindo um pen drive com o laudo adulterado. A Justiça também determinou a suspensão da veiculação do documentário. Devido à gravidade dos ataques, Maria da Penha foi incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos.

Caso Maria da Penha

A ativista foi vítima de uma dupla tentativa de homicídio em 1983, cometida por seu então marido, Marco Heredia. Na primeira ocasião, ele disparou um tiro em suas costas enquanto ela dormia, o que a deixou paraplégica. Heredia alegou à polícia que o crime teria sido uma tentativa de assalto, versão desmentida pela perícia.

Quatro meses depois, após Maria da Penha retornar para casa, ele a manteve em cárcere privado por 15 dias e tentou eletrocutá-la durante o banho. O caso será julgado pela 9ª Vara Criminal de Fortaleza, ainda sem prazo definido.




Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894 Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal.

 

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