Infectologista do Hospital de Base do DF analisa cenário atual da dengue no Brasil

Especialista destaca a gravidade da situação, medidas preventivas e a chegada da vacinação como esperança no combate à doença

Por Pollyana Cabral

A dengue, uma doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, destaca-se por sua complexidade, impulsionada pelos quatro sorotipos do vírus (DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4). Cada sorotipo representa uma variante genética distinta do vírus da dengue, e a infecção por um sorotipo confere imunidade duradoura apenas contra esse específico. O desafio surge quando um indivíduo é reinfectado por um sorotipo diferente, aumentando o risco de desenvolvimento de formas graves da doença. A circulação simultânea desses quatro sorotipos, como observado atualmente, amplia a complexidade epidemiológica, tornando a gestão e prevenção da dengue ainda mais desafiadoras para os profissionais de saúde e as autoridades sanitárias.

A Dra. Maria Aparecida Teixeira, infectologista do Hospital de Base do Distrito Federal, compartilha seu conhecimento sobre o atual cenário da dengue no Brasil, uma doença endêmica que persiste durante todo o ano, com a frequência de casos aumentando a cada 1 a 2 anos, como parte da sazonalidade esperada. O que chama atenção neste momento é a circulação simultânea dos 4 sorotipos do vírus (1, 2, 3 e 4), ampliando o número de pessoas suscetíveis.

“O sorotipo 2, inativo nos últimos 10 anos, ressurgiu entre 2021 e 2022, enquanto os sorotipos 3 e 4, ausentes por cerca de 15 e 5 anos, respectivamente, agora reaparecem. A infectologista destaca que, embora os sorotipos 3 e 4 não causem necessariamente quadros mais graves, a gravidade da dengue está associada à infecção secundária. Indivíduos que tiveram a doença antes têm um risco maior de desenvolver formas mais severas,” explica a especialista.

Dados do Ministério da Saúde e do sistema INFODENGUE da FIOCRUZ indicam uma projeção alarmante de até 5 milhões de casos este ano, comparados aos 1,6 milhões do ano anterior, resultando em um recorde de 1079 óbitos em 2023. A médica enfatiza a responsabilidade dos serviços de vigilância epidemiológica do comportamento de casos de dengue. Do mesmo modo, o envolvimento da população em combater criadouros, além da importância do trabalho dos agentes sanitários e do investimento em saneamento básico como medidas preventivas.

A chegada da vacina contra a dengue, conhecida como Qdenga, ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) é destacada como um marco. A Dra. Teixeira ressalta que o Brasil sai na frente ao oferecer o imunizante no sistema público de saúde. “Embora a vacinação seja fundamental, seus efeitos não serão imediatos. O esquema vacinal, com duas doses e um intervalo de no mínimo 3 meses, demanda tempo para conferir imunidade efetiva. A oferta inicial pelo SUS será restrita, visando alcançar mais de 90% de cobertura vacinal em regiões prioritárias.”

Quanto à vacina brasileira em desenvolvimento pelo Instituto Butantan, atualmente na fase 3 do ensaio clínico, a Dra. Teixeira destaca a expectativa para o ano de 2024. “Essa iniciativa visa resolver possíveis problemas de abastecimento vacinal devido às limitações na produção estrangeira.”

A infectologista alerta para a persistência dos ovos do mosquito por até 2 anos, sublinhando a importância de medidas preventivas, como saneamento básico adequado e eliminação de criadouros. O cenário composto por condições climáticas favoráveis, falta de cuidados e o mosquito altamente resistente formam uma tempestade perfeita para o aumento de casos da dengue e mortes pela virose hemorrágica. A Dra. Teixeira encerra ressaltando a necessidade de enfrentar não apenas a dengue, mas também outras viroses associadas, como Zyka e Chikungunya.

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