Por Kleber Karpov
Pesquisadores brasileiros do Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika (ZBC-Consórcio) publicaram o maior estudo do mundo sobre os efeitos do vírus Zika na infância, detalhando sequelas a partir de dados de 843 crianças com microcefalia. O trabalho, que reuniu informações de 12 centros de pesquisa, foi divulgado em 29 de dezembro de 2025 no periódico científico *PLOS Global Public Health* e teve seus resultados discutidos nesta terça-feira (06/Fev). O objetivo foi uniformizar dados e definir o espectro da microcefalia causada pelo vírus, utilizando informações de crianças nascidas entre janeiro de 2015 e julho de 2018.
A pesquisa consolida o conhecimento adquirido desde a epidemia de 2015-2016, que teve no Brasil sua maior incidência global de microcefalia associada ao Zika. Segundo a pesquisadora Maria Elizabeth Lopes Moreira, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), o estudo se destaca pelo volume de casos analisados. “Não há estudo anterior publicado com esse número de crianças”, afirmou.
Morfologia e principais resultados
Um dos principais avanços foi a definição da morfologia específica da microcefalia por Zika. Diferente de outras causas em que o cérebro apenas se apresenta pequeno, a infecção durante a gestação provoca uma destruição celular que leva ao colapso do cérebro e da estrutura óssea craniana.
“É uma microcefalia diferente. É uma anatomia diferente, vamos dizer assim. É muito típica da doença por Zika na gravidez. Nas outras microcefalias, o cérebro fica pequeno. Na da Zika, não. Você vê claramente que tem algo diferente. O cérebro colapsa, e a estrutura óssea colapsa junto também”, explicou Maria Elizabeth.
Conforme o estudo, as anormalidades estruturais do sistema nervoso central foram as sequelas mais frequentes. A microcefalia ao nascer foi observada em 71,3% dos casos, sendo 63,9% de forma grave. Exames de neuroimagem identificaram calcificações cerebrais em 81,7% das crianças. Entre as alterações neurológicas, a epilepsia atingiu uma média de 58,3% dos casos, e o déficit de atenção social, cerca de 50%. Cerca de 30% das crianças analisadas já morreram.
Recomendações e cuidados permanentes
A pesquisa reforça que não há tratamento específico para o zika. A principal recomendação para gestantes é evitar a exposição ao mosquito *Aedes aegypti*. Para as crianças nascidas de mães que tiveram o vírus, mesmo as que não apresentam microcefalia, a indicação é o início imediato da estimulação precoce para aproveitar a neuroplasticidade do cérebro infantil.
O pesquisador Ricardo Ximenes, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), destacou que os danos exigem cuidados multidisciplinares por toda a vida. A equipe do consórcio continuará a acompanhar as crianças, investigando agora os impactos da doença na vida escolar, especialmente as que não tiveram microcefalia, mas podem apresentar distúrbios de desenvolvimento.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal.











