Por Kleber Karpov
O presidente da República e candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, anunciou na quinta-feira (15/Out), durante sabatina conduzida pela jornalista Renata Lo Prete na Rede Globo, propostas para o quarto mandato focadas na compra governamental de dívidas de pessoas físicas, na criação do Ministério da Segurança Pública e na defesa de uma reforma no Poder Judiciário. O chefe do Executivo respondeu a questionamentos sobre articulação política, relações comerciais com os Estados Unidos, apurações do Caso Master e filas de atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS).
Questionado sobre o desgaste institucional do Supremo Tribunal Federal (STF) diante das investigações do Caso Master e do empresário Daniel Vorcaro, o mandatário afirmou que todas as denúncias precisam de apuração rigorosa e defendeu o estabelecimento de mandatos para os magistrados da Corte. Lula relatou ter conversado três vezes com o presidente do STF, ministro Edson Fachin, para cobrar o julgamento das suspeitas de corrupção no tribunal antes de eventual intervenção do Poder Legislativo.
“Não é possível imaginar que a sociedade brasileira vai aceitar que não seja apurado tudo e sobre tudo e que não fique pedra sobre pedra e que se puna quem precisar punir. Não tem como imaginar que a sociedade vai aceitar que se coloque um tapete em cima disso e se esqueça o que aconteceu. Não. É muito grave. Inclusive, a partir do que aconteceu, a gente vai ter que discutir a necessidade de uma reforma do Poder Judiciário, que, aliás, a primeira foi eu que fiz”, disse Lula.
O presidente rejeitou interferência no pedido de vista feito pelo ministro Flávio Dino no processo que envolve o ministro Alexandre de Moraes e afirmou que as suspeitas alcançam também outros integrantes da Corte. Sobre a oposição, Lula declarou que os adversários buscam cassar Moraes em razão da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do candidato adversário Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e mencionou operação da Polícia Federal realizada no Rio de Janeiro que prendeu um aliado político ligado ao grupo opositor.
Indagado sobre a permanência do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, que compareceu a um evento promovido por Daniel Vorcaro em Londres quando já havia inquérito em curso sobre o Banco Master, o chefe do Executivo confirmou ter repreendido o delegado. “E quando eu fiquei sabendo que ele tinha ido a Londres, eu chamei a atenção de que o papel do diretor da Polícia Federal não permite que ele tivesse ido a Londres. Não permite. Ele me deu uma explicação, sabe? Não foi convincente para mim”, afirmou Lula, que condicionou a definição da equipe ministerial ao resultado das urnas em 25 de outubro.
A sabatina abordou ainda a audiência concedida por Lula a Daniel Vorcaro no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024, intermediada pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, e a manutenção de contratos do empresário com o escritório familiar do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. O candidato declarou que recebeu o banqueiro como faz com outros empresários que alegam perseguição, informou ter encaminhado o caso para análise técnica do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o que resultou no fechamento da instituição financeira um mês depois, e defendeu a criação de uma comissão de especialistas para revisar regras éticas sobre a transição de agentes públicos para o setor privado.
Endividamento, juros e política fiscal
Diante dos dados de agosto que apontavam 84 milhões de brasileiros negativados e da recorrência da inadimplência após as edições anteriores do programa Desenrola, o presidente detalhou o funcionamento do Desenrola 3, enviado por medida provisória à Câmara dos Deputados. A proposta prevê a realização de um leilão para que a União adquira, com descontos bancários estimados entre 90% e 93%, dívidas de até R$ 4 mil vencidas há mais de dois anos, cujo montante total no mercado alcança R$ 150 bilhões.
Para os microempreendedores individuais (MEIs), o candidato destacou a anistia de R$ 12,7 bilhões inscritos na dívida ativa da União considerados irrecuperáveis pelo fisco. O plano governamental inclui a liberação de uma linha de crédito com aval público de R$ 5 mil para que os empreendedores regularizados retomem as atividades comerciais sem comprometer o orçamento federal.
Confrontado com declarações de Gabriel Galípolo sobre o esgotamento do modelo de crescimento baseado no consumo e a elevação da dívida pública em dez pontos percentuais durante o atual mandato, Lula afirmou que o ajuste das contas públicas deve ocorrer pela expansão econômica e pelo estímulo ao microcrédito, sem cortes em programas voltados à população de baixa renda. O candidato confirmou que só tomou conhecimento da ausência de correção do Programa Bolsa Família na proposta orçamentária de 2027 dias antes do primeiro turno, cobrou a equipe ministerial e determinou o reajuste imediato por haver espaço fiscal, além de garantir a manutenção da política de valorização do salário mínimo acima da inflação.
“Eu tenho divergência de muitos economistas porque tem uma tese econômica, a minha tese é o seguinte: muito dinheiro na mão de poucos é pobreza, e pouco dinheiro na mão de muitos é riqueza. Por isso que eu aposto muito na microeconomia, no microcrédito, no MEI e no pequeno empreendedor, promovendo a maior política de crédito que esse país já conheceu fazendo que as pessoas peguem dois, três, mil reais para ele fazer as coisas crescer”, afirmou o presidente.
Segurança pública
Na área de segurança pública, o candidato defendeu a aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) em análise no Senado para ampliar a atuação da União no setor, criar o Ministério da Segurança Pública e definir as atribuições das polícias Federal, Rodoviária Federal e Penal. O presidente anunciou também o projeto de financiar a construção de 138 presídios de segurança máxima no país para isolar chefes de facções e impedir o comando de crimes a partir do sistema prisional.
Sobre a proposta apresentada no Senado pelo ex-ministro da Educação e senador Camilo Santana (PT-CE) para reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos, Lula manifestou apoio pessoal à medida, mas ressalvou que o tema deve tramitar em projeto separado da PEC da Segurança Pública. “Eu estou favorável a reduzir para 16, mas não discutindo nessa PEC, porque essa PEC não é para discutir isso. Primeiro você discuta a PEC, aprova a PEC, e aí você pode discutir a maioridade penal ou não”, declarou.
Relações com os Estados Unidos
O mandatário justificou ainda a posição contrária do governo brasileiro à decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de classificar facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Segundo Lula, o conceito norte-americano de terrorismo de Estado difere da atuação de grupos voltados ao lucro financeiro e poderia abrir brecha para ingerência externa, razão pela qual os ministros brasileiros entregaram à Casa Branca uma proposta escrita de cooperação policial contra o narcotráfico.
Em relação às duas rodadas de tarifas impostas pelo governo norte-americano e ao alinhamento de Trump com a candidatura adversária no Brasil, o petista relatou ter mantido três conversas com o presidente dos Estados Unidos e informou que os ministros das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços negociam um acordo comercial. Lula ponderou que a queda de 9% no comércio bilateral com os norte-americanos foi compensada pela alta nas exportações para a China (20%), Alemanha (16%), Indonésia (15%) e Vietnã (13%), mas advertiu que pode acionar a lei da reciprocidade caso as tratativas fracassem.
Governabilidade
Ao avaliar os índices de rejeição registrados no primeiro turno e a relação com o Congresso Nacional, o presidente assumiu a responsabilidade pelas dificuldades de comunicação do Executivo, argumentou que dedicou dois anos e meio à reconstrução de dez ministérios extintos na gestão anterior e lembrou a aprovação da reforma tributária. Lula afirmou que governou com uma coalizão integrada por PP, União, PSD e MDB, aprovou 99% das matérias enviadas ao Legislativo e declarou que não exige apoio eleitoral de partidos aliados durante a disputa presidencial.
Questionado sobre o aumento das tarifas de energia elétrica no dobro do índice da inflação neste ano, o candidato atribuiu a falta de controle estatal sobre os preços à privatização da Eletrobras. O chefe do Executivo destacou a abertura do mercado livre de energia para todos os consumidores e o plano de atrair R$ 500 bilhões em investimentos de matrizes renováveis para a instalação de centros de processamento de dados no país.
Saúde e tarifas de energia
Sobre a manutenção das filas de espera no SUS apontada por auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) no programa Mais Especialistas, Lula afirmou que a rede pública realizou 15 milhões de cirurgias eletivas em 2025 e deve alcançar 16 milhões de procedimentos em 2026 por meio de convênios com Santas Casas e hospitais privados que abatem dívidas tributárias. O presidente citou a ampliação do programa Mais Médicos de 12 mil para 28 mil profissionais, a compra de 10 mil ambulâncias para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e a colocação em circulação, ainda neste ano, de 150 carretas equipadas com aparelhos de imagem para exames de câncer de mama e de colo de útero.
Nas considerações finais, após mencionar a retomada de 6 mil obras federais que estavam paralisadas e a aprovação pelo Congresso do fim da jornada de trabalho 6×1, o candidato revelou estudar uma nova proposta voltada ao lazer dos trabalhadores. Lula afirmou que avalia incluir no programa de governo a concessão de transporte público gratuito aos finais de semana, nos moldes dos subsídios aplicados à tarifa social de energia elétrica e ao programa de distribuição de gás de cozinha para 17 milhões de famílias.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Graduado em Jornalismo (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Criador do Comitê Virtual (www.comitevirtual.com.br), plataforma de gestão de campanhas eleitorais. Criador do PubliqueAi (www.publiqueai.com), primeira plataforma brasileira de produção técnica de textos jornalísticos ou jurídicos, com uso de Inteligência Artificial; Criador do Quero Meu Carro de Volta (www.queromeucarrodevolta.com.br), lançado em 2012. Serviço de utilidade pública para vítimas de roubos e furtos de veículos em todo o país; Ex-produtor e apresentador do programa Panorama Político na Rádio Federal;















