Candidaturas femininas crescem no Brasil, mas número de eleitas ainda continua baixo

Candidaturas femininas na Câmara Federal teve salto de 358 para 3.668, equivalente a 925% entre 1998 e 2022. Mas deputadas eleitas houve uma evolução de 32% a quantidade passou de 20 para 90 mulheres com cargo eletivo 

Por Kleber Karpov

Um levantamento divulgado nesta terça-feira (16/Jun) revela que, embora o número de mulheres candidatas à Câmara dos Deputados tenha crescido aproximadamente 925% entre 1998 e 2022, o aumento de eleitas para o mesmo cargo foi de apenas 210%. Os dados, compilados no Portal da Classe Política, indicam uma persistente desigualdade na representação política, apesar do avanço na participação feminina nas disputas eleitorais.

A análise, conduzida pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT-ReDem) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), mostra que o total de candidatas à Câmara saltou de 358 para 3.668 no período analisado. No entanto, o número de deputadas federais eleitas passou de 29 para 90, evidenciando uma desproporção significativa entre a participação e o sucesso eleitoral.

Nas eleições de 2022, as mulheres conquistaram 17,5% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 17,8% das vagas nas assembleias estaduais. Embora sejam os maiores percentuais da série histórica, os números permanecem distantes tanto da paridade de gênero (50%) quanto do piso de 30% estabelecido por lei para as candidaturas.

Mecanismos partidários limitam avanço

Segundo o estudo, a Lei das Cotas de Gênero (Lei 9.504/1997) e a Minirreforma Eleitoral (Lei nº 12.034/2009) foram fundamentais para ampliar o número de candidaturas femininas ao estabelecer a reserva mínima de 30% por gênero. Contudo, os pesquisadores apontam que a legislação não foi suficiente para garantir condições equivalentes de competição dentro das legendas.

Nilton Sainz, cientista político da UFPR e responsável pelo Portal da Classe Política, afirma que os principais obstáculos estão nos mecanismos de poder dos próprios partidos. Ele destaca o acesso desigual ao financiamento de campanha como um fator central.

“O primeiro deles é o controle partidário dos recursos. Há um acesso muito desigual no financiamento de campanha. As mulheres recebem menos recursos e costumam receber os valores mais em materiais de campanha, enquanto homens recebem mais em dinheiro. Também há uma exclusão sistemática das mulheres nos cargos de decisão dentro dos partidos e isso reflete em questões como visibilidade e tempo de televisão”, avalia o pesquisador.

Sainz também aponta a existência de candidaturas sem viabilidade eleitoral, utilizadas apenas para cumprir a cota legal. “Outro problema é o número de candidaturas ‘laranjas’ femininas. Chamamos assim as candidaturas que não têm viabilidade de realmente disputar a vaga, mas são colocadas ali apenas para bater as cotas obrigatórias”, complementa.

Impacto na agenda pública

A baixa representatividade feminina no Legislativo, conforme a análise, impacta diretamente a agenda pública. A ausência de mulheres nos espaços de poder reduz o debate sobre temas considerados essenciais para a população feminina, como políticas de saúde, criação de creches e o combate à violência de gênero.

“Quando elas são excluídas dos espaços de poder, suas vozes são silenciadas, os impactos são diretos. Orçamento para essas agendas pode ser diminuído em relação a outras coisas que se tornam prioridades legislativas”, explica Nilton Sainz.

Uma nova ferramenta de análise

O Portal da Classe Política foi lançado com o objetivo de tornar os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mais acessíveis. A plataforma transforma informações de 14 eleições, de 1998 a 2024, em indicadores visuais, permitindo análises sobre candidaturas, patrimônio e financiamento de campanhas em níveis municipal, estadual e federal.

“Ao consolidar toda essa massa de dados fornecidas pela Justiça Eleitoral, conseguimos aproximar informações para o cidadão que antes pareciam muito distantes. É uma ferramenta que as organiza melhor e as torna mais auditáveis”, conclui o pesquisador.



Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894 Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Graduado em Jornalismo (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Criador do Comitê Virtual (www.comitevirtual.com.br), plataforma de gestão de campanhas eleitorais. Criador do PubliqueAi (www.publiqueai.com), primeira plataforma brasileira de produção técnica de textos jornalísticos ou jurídicos, com uso de Inteligência Artificial; Criador do Quero Meu Carro de Volta (www.queromeucarrodevolta.com.br), lançado em 2012. Serviço de utilidade pública para vítimas de roubos e furtos de veículos em todo o país; Ex-produtor e apresentador do programa Panorama Político na Rádio Federal;

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